Pulo do Lobo

quarta-feira, novembro 30, 2005

Pessoano e Transmissível

Embora por cá andemos a ler os Lusíadas - e a Odisseia -, assim preparando a sucessão do Prof. Cavaco, vale a pena lembrar que passam hoje 70 anos sobre a morte de Fernando Pessoa. Aqui fica um poema pessoano (descansem, não é o do Dr. Soares...), que aproveito para dedicar a adversários com sentido de humor.

CHUVA OBLÍQUA (III)

A Grande Esfinge do Egipto sonha por este papel dentro
Escrevo - e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides

Escrevo - perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Cheops
De repente paro
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egipto me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena

Ouço a esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do tecto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Cheops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso

Funerais do rei Cheops em ouro velho e mim...

Bom perder...

Filipe Nunes sublinha, no seu mário, pela voz do próprio Mário, as qualidades democráticas do mesmo que, segundo si próprio, tem um bom perder "excepcional". Lembrei-me logo (não sei porquê) de um certo embate que Monsieur Soares travou com Nicole Fontaine, para a presidência do Parlamento Europeu... cheio de elevação, dignidade e (antecipado) bom perder democrático.

Continuamos por bom caminho (III)

Mais um "round" da animada refrega entre os candidatos socialistas (ou seus emissários).

Há...

... coisas a que as campanhas tagarelas não dão importância. E se isso vale alguma coisa - parece que anda a correr por aí um "inquérito" acerca da eventual "matriz" social-democrata dos colaboradores do Pulo do Lobo -, eu considero-me social-democrata. Tanto assim que me afastei prudentemente do partido com o mesmo nome quando Barroso, em 2004, mandou às urtigas o seu compromisso com os portugueses por causa da beatitude em Bruxelas. E, em Fevereiro, precisamente por ser social-democrata, votei em Sócrates. À semelhança de uns bons milhares de portugueses que, aliás, se preparam agora para votar, com naturalidade e sem angústias paroquiais, em Cavaco Silva.

Xbox

Sou, desde as sete horas da tarde do dia 17 de Outubro de 1979, absoluta e, para ser vulgar, religiosamente ateu. Desde esse momento, para mim Isto Tudo são única exclusivamente forças de van der Waals e assim e absolutamente mais nada.

A professora da catequese, a fascista, oprimiu-me a orelha por eu defender a liberdade individual de cada uma das folhas do livro de catequismo para esse ano (que entretanto tinham decidido descolar em voo planado para o topo de uma nespereira das imediações). Lembro-me, vagamente, de umas ovelhas a subir um monte (atrás do qual eu já tinha arranjado tempo para desenhar um leão esfomeado, mas em forma de garfo) e de uns ensinamentos que não achava descabidos.

Por alguma razão, e não obstante os excelentes aviões que aquele papel proporcionou e os sábios ensinamentos neles contidos, achei-me na razão e no direito de iniciar aí o meu ódio quer ao endoutrinamento (sob qualquer disfarce) quer à classe docente (em qualquer disfarce).

Vejo hoje com clareza o erro que cometi. Sendo o propósito da vida uma pessoa divertir-se, melhor húmus para a diversão não existe que os programas escolares ou religiosos e para a brincadeira estão para nascer melhores aliados que os professores. É tudo uma questão de perspectiva e inteligência. Faltou-me a segunda para atingir a primeira. Tudo, quero crer, por causa daquele puxão de orelhas (sim, que sou uma vítima).

Vem isto tudo a propósito de eu estar aqui à espera de um telefonema. Enquanto esperava, lia o super-pedro-adão-e-silva. Penso que o super-adão-e-silva fala bem mas não tem razão.

O professor doutor Aníbal Cavaco Silva pode ou não ser a favor ou contra a presença ou não de crucifixos numa qualquer sala de aula de uma qualquer escola pública portuguesa: se nunca ninguém o ouvir abrir a boca sobre isso estará a proceder muito bem. Para lém do mais, a questão é bloguisticamente aborrecida e, já se viu aquando do caso francês, no final tudo se resumirá ao extremar de posições até que a ausência de nuance abocanhe qualquer lampejo de inteligência ou interesse.

A minha mãe, com a mesma falta de estratégia que o Super-adão quer para o futuro Presidente da República, achou sensato confrontar-me com as grandes e aborrecidas dúvidas da vida em tão tenra idade, pricipalmente, sem eu ter pedido ou questionado nada de forma fundamental. Ganhou o que no fim talvez fosse inevitável, mas com uma dose de todo dispensável de radicalismo e, o que é pior, infinita estupidez.

O professor doutor Aníbal Cavaco Silva sabe reconhecer uma questão complexa quando vê uma, e, como deve, enquanto pode foge delas a sete pés. Claro que como quem precisa de recuperar nas sondagens é o Doutor Mário Soares e isto não passa tudo de jogatana pré-eleitoral, os seus apoiantes confundem prudência, inteligência táctica e bom governo das opiniões públicas com o que lhes dá mais jeito, no caso, a tomada das escolas pelo Vaticano. Sucede que isto não é um jogo para a Playstation.

terça-feira, novembro 29, 2005

Citação

"Eu é que sou o Manuel Alegre", do candidato Manuel João Vieira.

A força tranquila

A candidatura de Cavaco Silva à Presidência foi recebida com acusações de falta de entusiasmo demonstrada por grande parte dos seus apoiantes. Em particular, os apoiantes que escrevem aqui no PdL são frequentemente avisados por determinadas almas atentas e amigas de que o Professor não pensa exactamente como nós. Que ele foi contra a intervenção "unilateral" dos EUA no Iraque, que nós não somos social-democratas, entre outra factualidade dispersa e escandalosa que só um empenhado vasculhador de hemerotecas consegue descobrir.

Passemos por cima da convicção alheia de que os dezanove colaboradores deste blog (e os restantes apoiantes de Cavaco Silva) constituem um bloco de pensamento uno e perfeitamente identificável. Passemos por cima da necessidade que eu sinto de ter amigos a abanarem-me pelos ombros e a berrar: "Ouve bem, ó Chico, tu não és social-democrata, pá! Tu-não-és-so-ci-al-de-mo-cra-ta!". Concentremo-nos na "falta de entusiasmo".

De facto, não há da nossa parte uma ligação idólatra a Cavaco Silva. E nada até ao momento nos impeliu em direcção à vertigem iconográfica de outros apoiantes de outros candidatos. Ainda não enfiámos a cara do nosso candidato no corpo do Professor Pardal ou do Tio Patinhas. Ainda não inventámos slogans de campanha entre o juvenil, o inconsequente e o deprimente. Não passamos a vida a adorar a figura do Professor, com publicação de fotografias vintage do seu passado glorioso. Está ali aquela do Citroën e chega. Ninguém aqui apoia Cavaco Silva (pelo menos, principalmente) pelo seu passado. O PdL não é um produto do actual e bastante rentável revivalismo eighties.

E, aliás, o nosso candidato não ajuda. Fala pouco, fala em tom comedido, fala serenamente, não esbraceja, não aponta o dedo, não andou a distribuir carolo pelos fascistas, não privou com a Sophia, não manda a bófia ir dar uma volta e é professor universitário. Uma real seca. Se o entusiasmo de que por aí se fala é o entusiasmo da bandeira e do bombo, esqueçam: a nossa campanha vai ser uma sensaboria.

Reparem: não tenho nada contra aquele tipo de entusiasmo na política. Toda a minha vida de empenho político activo tem sido feita com esse preciso entusiasmo, por uma certa e determinada pessoa que agora não vem ao caso. E continuará, em grande parte, a ser assim. Por isso esta campanha me é tão agradavelmente nova (e eu até nem sou de juntar os adjectivos "nova" e "agradável" ou respectivos advérbios). Vou para esta eleição como nunca fui para nenhuma outra: sereno e vestido à civil.

Para já, tenho gostado. E até começo a nutrir um sentimento estranho por esta tranquilidade de espírito. Acho que é entusiasmo.

Ando a ler a Odisseia de Virgílio

Fico sempre estupefacto quando oiço pessoas falarem de Vasco Pulido Valente como aquele tipo que uma vez, na televisão, não sabia o salário mínimo. Na maior parte dos casos os indignados são criaturas que nunca leram os livros de VPV, não lêem as crónicas, não acompanham o estilo. Mas bastou um lapso, uma omissão, um esquecimento, para que eles desfizessem o homem e declarassem que no fundo, no fundo ele não era nenhum génio e, mais ainda, não era nada. Pode escrever-se sobre a História do século XIX sem conhecer o salário mínimo de um ano do século XX? Não, esses práticos da tolerância cultural, habitualmente mais incultos que as suas vítimas, não admitem. A intolerância traz sempre uma marca de cretinice. Lembro-me de um exame na faculdade em que o meu colega de carteira protestava contra o professor que tinha dito, antes de entregar os enunciados de teste, “alugar um imóvel” em vez de ‘arrendar”. O coitado, ao fim de quinze minutos, estava a entregar a prova. Sabia que não se diz “alugar um imóvel” mas não sabia mais nada. O que nos leva a Cavaco Silva e àquele dia triste para a cultura portuguesa em que Cavaco confundiu Thomas More e Thomas Mann, dois nomes que, como se pode ver, não têm nada a ver um com o outro, não têm sequer palavras idênticas, a mesma aliteração, as mesmas consoantes, dois nomes que qualquer um distingue. Confusões destas não se aceitam. O meu amigo Pedro Mexia que confessava recentemente ter trocado os nomes de Galvão Telles e Cunha Telles bem pode pedir protecção. E eu, que às vezes misturo Tom Wolfe e Thomas Wolfe, ou Henry Green ou Julien Green, ou Ian Banks e Russell Banks, devo ficar no meu lugar esperando a pena. A quantidade de gente que se diz conhecedora da mesa de cabeceira de Cavaco Silva daria para um filme cheio de figuração. Somos todos muito tolerantes, muito complacentes com o erro, muito cultos, muito educados, muito clássicos, lemos “A Utopia”, “Os Buddenbrook”, só nos falta agora aprender coisas mais simples, coisas como a humildade, a moderação no juízo e, se não for pedir muito, uma certa noção do ridículo.

Um espaço de liberdade

Hoje de manhã, passando por uma sala onde tinha deixado a rádio ligada, dei com uma voz que lia um papel e que protestava, com ironia escrita e muito corrigida, contra o "silêncio" anti-democrático de Cavaco Silva. A minha primeira reacção foi pensar que era mais tarde do que julgava e que era um dos participantes do "Forum TSF". No fim, percebi que não. Era José Lello, suponho que no "Mel com fel". Algo me diz que a confusão não foi só minha, e que a minha foi a menos grave. Enfim, é só uma opinião.

Boas Vindas

A candidatura de Jerónimo de Sousa também já tem um blogue de apoio. Chama-se Mais Livre. É um blogue feito a pensar do debate livre e na troca de ideias. O Mais Livre aceita comentários.

Liberais e Crucifixos

É sempre assim: fala-se em laicidade e os órfãos da República vêm reclamar a herança. Fazem bem. Qualquer dia os revisionistas ainda se lembram de dizer que o Afonso Costa não foi o maior português desde Robespierre, e lá temos de novo a Inquisição, o Holocausto e o Bagão Félix no governo. Não pode ser. Desta vez, Pedro Adão e Silva acusa Cavaco de "iliberal" por este se mostrar "muito surpreendido" com a polémica dos crucifixos nas escolas e achar "que não é certamente este o problema que preocupa os portugueses".
Confesso que algo me escapa.
Em primeiro lugar, subscrevo as palavras de Cavaco - tal como faria se Soares ou Alegre afirmassem o mesmo. (A propósito, porque será que dois tão notórios republicanos ainda não se pronunciaram sobre a questão? Terão medo de perder votos?) Mais: como pai e professor, lamento profundamente que a educação só apareça na campanha para embrulhar um rebuçado que o PS dá ao povo de esquerda enquanto faz políticas de direita.
Depois, o "liberalismo" invocado é apenas uma das variantes históricas democracia, e nem sequer a de melhor memória - a jacobina. Há mais mundos além da França. Nos EUA e em Inglaterra podem ver-se crucifixos nas salas de aula. Em Cuba e na Coreia do Norte não. Qual dos regimes será mais liberal aos olhos de Pedro Adão e Silva?
Note-se que não estou a desvalorizar o "problema". Pelo contrário, acho que ajudará a distinguir (por exemplo, na blogosfera...) os verdadeiros liberais dos jacobinos. Mas a minha posição é a de Burke e Tocqueville, que viam a essência do liberalismo mais nas liberdades tradicionais dos indivíduos e das comunidades perante o Estado do que na defesa formal da liberdade em abstracto pela lei. Os pais e os professores de uma escola querem o crufixo? Deixe-se o crucifixo. Os de uma outra querem um retrato do Che Guevara? Dê-se-lhes o retrato. Os de uma terceira não querem nada? Nada, então.
Posto isto, também eu tenho algumas perguntas a fazer.
1 - Qual o direito, liberdade ou garantia que os crucifixos ameaçam?
2 - O que pensam Soares e Alegre do assunto?
3 - Porque não dá o Estado português às comunidades o direito de escolherem?
4 - Os partidários da regionalização não querem a descentralização educativa?
5 - Os defensores da autodeterminação dos povos não aceitam a autonomia das escolas?
6 - Os paladinos da liberdade não lutam pela liberdade de ensino?
São estes os "problemas" que me preocupam. Nas presidenciais e fora delas.

Duas breves notas preliminares

Em primeiro lugar o óbvio: não somos família. O meu Cavaco é do Norte e o do Professor é do Sul.
Em segundo: sou prosélito. Ou seja, no passado blasfemei contra o meu presente credo eleitoral. À falta de limpeza de cadastro trago um coração convertido. Sobre indecisos não sei. Testemunho que, pelo menos, este é o melhor candidato para arrependidos. Na casa de Aníbal há muitas moradas.

segunda-feira, novembro 28, 2005

O Crispianismo

Já se percebeu a táctica de Manuel Alegre para não deixar Soares sozinho no palco com Cavaco: chama-se crispianismo. Sim, crispianismo, a doutrina segundo a qual Cavaco Silva é um homem "crispado" e que traz "crispação à política". Na semana passada, Alegre pregou-a na entrevista ao Público e em declarações avulsas aos jornalistas.
Só que esta doutrina, vinda do herege que agora divide o PS e a esquerda, talvez não chegue sequer para salvar a alma do apóstolo. Aconselho uma "aliança de civilizações" com o humanismo soarista, aliança por ora tragicamente inviável pelas razões conhecidas. Ah, se o não fossem!... Veríamos o humanismo crispão no seu máximo esplendor - Soares e Alegre a descer a Avenida da Liberdade de braço dado. E diria um: "o gajo fica crispado quando se fala nos Lusíadas, o nosso poema máximo, não sei se conheces". Ao que o outro responderia: "isso não me tira o sono, claro que conheço, fui eu que o escrevi". E viveriam felizes para sempre.

Da série: É uma candidatura supra-partidária, estúpido!

O João Pinto e Castro quer saber quantos de nós se consideram sociais-democratas.
Como disse o Pedro Lomba no primeiro post, este blogue é produto de uma só vontade: ver Cavaco na Presidência. Não existe, no momento que importa, qualquer outra convicção partilhada mais relevante do que essa. Assim como a impoluta e ortodoxamente socialista Joana Amaral Dias se tem empenhado na industriosa campanha do dr. Soares, muitos sociais-democratas, muitos liberais, muitos conservadores e até, para vosso supremo desgosto, muitos socialistas resolveram juntar-se à confraria para fazer uma nova rodagem ao Citroën, desta vez até Belém.
A interrogação, que é legítima, não deixa ainda assim de causar alguma estranheza. Afinal, o João Pinto e Castro é apoiante do candidato oficial do PS que nem os socialistas foi capaz de reunir.
Razão tinha Wittgenstein: nunca tentes resolver os problemas do mundo quando não foste capaz de resolver os teus.

Um blogue humanista

Depois do maradona (com minúscula) da Margem Sul, eis que chega mais um ilustre reforço ao PdL:

O Kierkegaard de Moscavide.

Culturas pouco gerais (ou "se em vez da oliveira ali tivessem plantado uma "Cidade do Sol" do Campanella eu não teria feito a pergunta")

Doutor Mário Soares - Que árvore é aquela ali?
Senhor não identificado - É uma oliveira, senhor Presidente.

Extraído de uma reportagem da TSF, em cobertura de mais uma das presidências abertas do Doutor Mário Soares, enquanto se passeava de carroça pela coutada de Mafra.

Da infabilidade presidencial

É raro que uma disputa política seja inteiramente racional. Se assim fosse, os contendores sairiam sempre revigorados: um pelo convencimento próprio do vencedor e o outro pela lição que acabara de receber. Idealmente, seguiríamos, portanto, o impoluto modelo escolástico. Sabemos, porém, que apenas um em mil debates segue esse exemplo. Sabemos, aliás, que o fim de uma controvérsia não é obrigatoriamente ter razão.

É esta evidência tão difícil de conter que temos andado a refrear desde há trinta anos para cá. Somos admiradores confessos dessa forma enviesada de poupar a cabra e a couve. Há trinta anos que o Presidente não se discute. Há trinta anos que o Presidente tem sempre razão. Há trinta anos que o Presidente faz política às escondidas, sob remoques e insinuações. Porque, em trinta anos, todos os Presidentes fizeram política. Eanes, Soares, Sampaio. Todos. Mas fizeram-no sempre de luva branca, com medo de dar nas vistas, com medo de sujar as mãos.

A paz podre e a falsa bonomia cresceram tão constitucionalmente na Presidência da República que já ninguém com responsabilidades políticas ousa contestar, olhos nos olhos, as decisões do chefe de Estado. O Presidente fala? Aplauso. O Presidente veta? Aplauso. O Presidente dissolve? Aplauso. E isto tem que acabar. Este temor reverencial tem que acabar. E quem, melhor que Cavaco, para pôr fim a este unanimismo próprio dos que não querem pensar? Quem, melhor que Cavaco, para acabar de vez com esta endémica aversão ao confronto e ao debate?

Com o dr. Sampaio, reconhecido mestre em placitudes, o unanimismo conheceu finalmente um promotor à altura. Com Sampaio em Belém o Presidente conseguiu fazer esquecer alguns, entre comoções frequentes, palavras melosas e fórmulas vazias, de que também era um órgão político e que, como tal, tomava decisões políticas, obedecendo logicamente a critérios políticos. Lembrando ao povo predicados tão nobres como o carácter «tutelar» e «institucional» do Presidente da República, o dr. Sampaio quis confundir angústias veladas com promoções de patriotismo, disfarçando manobras e intenções menos transparentes com discursos perorados sobre o estado da nação.

Estas eleições são o momento certo para acabar com esta espécie de dogma da infabilidade presidencial. A própria natureza da eleição (não consensual, quem perde não garante representação, ao contrário do que sucede nas legislativas) propicia o debate e a polarização. Com a eleição de Cavaco, que tem esse dom invejável de irritar imensamente a esquerda, teremos cobrança e discussão para os próximos cinco anos. Não serão essas, afinal, as virtudes originais da Democracia?

O Argumento Qualitativo

Continuando então este post:

Discordo frontalmente da teoria que argumenta que a influência de um Presidente face ao actual momento resultaria de um aumento, ou de uma interpretação abusiva, dos seus poderes tal como estão constitucionalmente definidos; no fundo, da tese da presidencialização do regime.

A questão deve ser colocada, na minha opinião, de forma estruturalmente diferente. A influência, se tida como positiva, de um Presidente derivaria de 3 aspectos de igual importância:

1. Qualidade do diagnóstico
2. Consciência das reformas necessárias
3. Definição da natureza da influência e do exercício dos poderes presidenciais face a 1. e 2.

Se é verdade que poderíamos continuar a dissertar imenso à volta da qualidade do diagnóstico e das potenciais soluções preferidas por cada candidato, e isso seria um tremendo argumento a favor de Cavaco, é no ponto 3. onde julgo existirem alguns equívocos de análise.

Argumenta-se então que o Presidente tem um conjunto de poderes bastante restritos e que a sua capacidade real de influência é marginal, pelo que apenas ultrapassando em larga medida o que constitucionalmente lhe seria permitido poderia aumentar o seu impacto.

O meu ponto é precisamente o inverso. O sucesso e, de certa forma, a abrangência do mandato do próximo Presidente resultará sobretudo do reconhecimento e rigoroso respeito pelos poderes presidenciais tal como são compreendidos hoje: limitados. Contraditório?

Não necessariamente, diz-nos Teodora Cardoso, num muito interessante artigo sobre o legado de Alan Greenspan:

«os meios ao dispor da instituição para o exercício do seu poder reduziram-se muito. Isso não impediu, no entanto, que o seu efeito se tenha tornado mais forte que nunca.

Para isso contribuíram decisivamente as características de Greenspan e a forma como soube usar o poder da informação de que dispunha, ímpar tanto em qualidade como em quantidade. A sua forma oracular de comunicação teve uma importância fundamental na influência que exerceu, mas o que sobretudo o caracterizou foi a capacidade de interpretar sem preconceitos um extraordinário volume de informação e de comunicar com enorme rigor as suas conclusões

A presidencialização do regime não é nem desejada nem benéfica. E argumentar, como aqui argumento, que a presidência com Cavaco será um factor positivo que acrescenta em exigência e progresso face ao que temos e ao que nos é proposto em alternativa, não significa que se aspire a um aumento dos poderes presidenciais. O enfoque é estruturalmente distinto; é um argumento qualitativo.

Como relembra Teodora Cardoso:

«A contradição interessante que resulta desta análise é a que leva a concluir que o real exercício do poder e da influência não é o que advém dos instrumentos de que se dispõe, mas sim da capacidade de reconhecer e identificar as suas restrições e de saber usá-la com vista a influenciar o enquadramento que limita o próprio exercício do poder. »


É neste tipo de enquadramento e exercício de poderes que acredito que Cavaco poderá encaixar, mas não basta. O meu voto em Cavaco deriva ainda da qualidade do seu diagnóstico e da sua consciência da necessidade de reformas - e quais reformas. Acredito que Cavaco saberá colocar o Palácio de Belém como um elemento catalisador das mesmas, e que será uma referência de rigor e exigência, com critério, o que implica selectividade das causas, estudo, silêncio e escolha adequada do momento das intervenções.

E quando as suas posições e as do Governo não forem as mesmas, como, por exemplo, a leitura do FED e das várias Administrações dos EUA nem sempre foram, deverá, com o bom senso e inteligência que já demonstrou ter, evitar crises institucionais, servir como um parceiro tão crítico quanto discreto, e apenas em situações absolutamente extremas funcionar como um bloqueio.

Nada de especialmente original, como se constata na leitura do legado de Greenspan, nem é esse o objectivo. Aliás nestas coisas, como em tantas outras, a primeira fase da tradução inglesa do Anna Karenina do Tolstoi diz tudo:

«Happy families are all alike; every unhappy family is unhappy in its own way

Nestas eleições, podemos acertar com Cavaco, ou errar de várias outras formas.

domingo, novembro 27, 2005

"Gosta-se de o ver"

"Afinal a cavaqueira teve o seu interesse. Estava o Cavaco Silva a presidir ao paleio. Gosta-se de o ver. Tem um ar asséptico, formalizado sem excesso e presta uma atenção desprendida mas ferina a tudo o que se vai dizendo."

Vergilio Ferreira

Via Minha Rica Casinha

O Leopardo

No Super-Mário voltam à carga com a kulturkampf, supondo que isso traz votos a Soares. Não traz, já se viu, mas o João Pinto e Castro insiste que o Presidente da República deve ser "culto" para poder falar com outros chefes de Estado ao almoço, enquanto o Ivan acusa Cavaco de se dar ares por falar do que (não) lê e de mentir (!) quando diz que votou na CEUD em 72.
A gente pasma com estas coisas.
Não tanto com a vocação inquisitorial dos herdeiros do jacobinismo. O exemplo vem de cima. Não foi Soares quem disparou a tirada "nós, os socialistas, que estamos aqui com as nossas legítimas mulheres" para atacar Sá Carneiro? Foi.
O problema não é esse, já estamos habituados. O problema é que eu tenho aqui umas linhas em que o pai da Pátria cita confusamente "uma personagem de Tomazi di Lampedusa no célebre filme de Visconti, O Leopardo" (O Que É Governar à Esquerda?, Gradiva, 1997, p. 12). Se eu não soubesse que Soares é culto, cultíssimo, culto acima de toda a suspeita, quase diria que ele não leu o livro e só viu o filme. Quase. Porque um homem que conhece Os Lusíadas não precisa de se dar ares. Já o estou a ver, no próximo encontro com os representantes das religiões, a contar a vida de Jesus Cristo, uma personagem daquele filme do Pasolini, o Evangelho.

Para não dizerem que abusamos dos gráficos, cá vai um poema

Cavaco Silva baralhou sempre as classificações tradicionais da direita e da esquerda. Admito que isso não seja sempre agradável, mas quem se queixa mais é a esquerda partidária e a esquerda esquerda que nunca digeriram bem que Cavaco Silva lhes invadisse o espaço e retirasse votos. Por acaso, lembrei-me deste poema de Alexandre O'Neill que Cavaco Silva podia declamar, sem música, no dia 22 de Janeiro.

Esquerdireita

À esquerda da minoria da direita a maioria
do centro espia a minoria
da maioria da esquerda
pronta a somar-se a ela
para a minimizar
numa centrista maioria
mas a esquerda esquerda não deixa.
Está à espreita de uma direita, a extrema,
que objectivamente é aliada
da extrema-esquerda.

Entretanto
extra-parlamentar (quase)
o Poder Popular
vai-se reactivar, se...

Das cúpulas (pfff!) nem vale a pena
falar, que hão-de pular!

Quanto à maioria da esquerda
ficará – se ficar – para outro poema.

Alexandre O'Neill, "Anos 70 - poemas dispersos", Assírio e Alvim, 2005

Racionalidade

João Morgado Fernandes (French Kissin', 26.11.05) fala do que escrevi sobre Cavaco, e salta para uns disparates sortidos- "filosofia barata", etc. Não vale a pena comentar.

sábado, novembro 26, 2005

Explicações da irracionalidade

Há uma diferença substancial entre as candidaturas de Soares e de Alegre. Em relação à primeira, a boa pergunta é: “Porque é que ele se candidatou?”. Em relação à segunda: “Porque é que nele vão votar?”. Claro que há explicações. Em ambos os casos explicações da irracionalidade.

Memórias dos 10 Anos


«Human development index

The human development index (HDI) is a simple summary measure of three dimensions of the human development concept: living a long and healthy life, being educated and having a decent standard of living. Thus it combines measures of life expectancy, school enrolment, literacy and income to allow a broader view of a country’s development than using income alone—which is too often equated with well-being.»

Fonte: United Nations, Human Development Reports

Veio o Diabo

O Venha o diabo, novo e bem-vindo blog on the block, acusou-me de abrir a primeira crise na candidatura presidencial de Cavaco ao "fazer humor" sem sentido de Estado. É uma acusação injusta porque... como é que vou dizer isto?... ó meus amigos, citem-me à vontade, até gosto de ser citado por gente famosa e que aparece na televisão e assim, mas... eu não estava a brincar...

Les Beaux Esprits Toujours Se Rencontrent Ou Lá Como É Que Se Diz Em Francês

O meu post de ontem sobre "O Fim do PREC" parece-se perigosamente com a crónica do Pedro Lomba no DN. Não vale a pena acusá-lo de plágio porque o texto dele é muito melhor. Aí fica o link para quem quiser tirar a limpo.

Sondagens

Andamos todos preocupados com as sondagens. Os soaristas porque Soares vem sempre atrás de Alegre. Os cavaquistas porque se têm enganado de adversário. Os alegristas porque não têm dinheiro para a segunda volta.

Mas o que realmente devia preocupar os soaristas é a sondagem do Público de anteontem, sobretudo na parte em que se pergunta pelas qualidades que os portugueses querem ver no Presidente da República:
1ª - honestidade (58%);
2ª - bom senso (41%);
3ª - competência técnica (33%);
4ª - capacidade de liderança (32%);
5ª - experiência (31%);
6ª - sensibilidade aos problemas sociais (31%);
7ª - simpatia (14%).

Simplesmente arrasador. Para Soares.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Mas que rica esfinge

Numa semana, entrevista ao Público, entrevista à Rádio Renascença, entrevista à Atlântico. O que se passa com Cavaco Silva? Devia estar calado.

Mas deve ser uma excelente pessoa

Não creio, como tudo e todos por aí dizem (ou se pressente que estão a dizer apesar de dizerem o contrário), que a silenciosa peregrinação até Belém do professor doutor Aníbal Cavaco Silva venha a ser uma Cerelac de Maçãs. Mesmo no Margens de Erro não se vislumbra cepticismo acentuado perante o cenário de Cavaco ganhar à primeira volta. Apesar de tudo o que o Pedro Magalhães diz sobre a posição relativa das intenções de voto entre Manuel Alegre e Mário Soares, continuo a acreditar (e a desejar) que o combate fundamental de Cavaco Silva, com segunda volta ou sem segunda volta, será com o doutor Mário Soares. Não tenho a mínima e, neste momento (pelo país fora), pandémica condescendência pela actual figura de Manuel Alegre e acho inacreditável, vergonhoso, que os portugueses, mesmo só nas sondagens, estejam a colocá-lo à frente do doutor Mário Soares. Manuel Alegre é uma figura triste, farta, desocupada, que incorpora sozinho todo o conceito de "ultrapassado"; tenho mesmo a arrogância de desprezar o seu discurso em toda a sua inteireza, onde practica o empacotamento denso de palavras grandiloquentes como "liberdade", "portugal", "história", "memória" e, principalmente, "fraternidade". O Portugal de Manuel Alegre ou de quem pretende votar nele é um Portugal que não existe nem que nunca existiu: é um seu pessoalíssimo desejo sonhado, que tratou de criar à sua particular medida, para abastecer a sua autoestima e o seu ego, ainda por cima tudo muito mal rimado. Não se vê por lado nenhum a intenção de colocar esta pequena figura no sitio que merece, que é ao lado de Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa. Viva o doutor Mário Soares.

OTA: a opinião de Cavaco Silva

Cavaco Silva explicou de forma cristalina por que é que ele – e sugerindo que talvez também Governo – não pode ainda ter uma resposta em relação à proposta de um novo aeroporto para a Ota. Faltam os estudos que comparem os benefícios sociais com os custos sociais do projecto. É claro que sem isso o que temos são opiniões. Mas as boas decisões não devem basear-se em opiniões.

O Fim do PREC

Uma - para mim a melhor - das razões para votar Cavaco é que a sua vitória representa a verdadeira normalização democrática do regime. Em Portugal, a democracia tem sido tutelada pelos mais diversos tutores, todos com uma característica comum: a de se imaginarem donos da liberdade dos portugueses. Foi tutelada pela ameaça de uma ditadura do proletariado até ao dia 25 de Novembro de 1975, ameaça vencida pela coragem de Ramalho Eanes e de outros militares. Foi tutelada pelo Conselho da Revolução até à revisão constitucional de 1982, pela qual tanto se bateu Sá Carneiro. Foi tutelada pelo medo de um governo monopartidário, que só a primeira maioria absoluta de Cavaco viria a exorcizar. E foi tutelada até hoje pelo monopólio da virtude democrática que sempre reclamou para si uma certa esquerda, sobretudo à conta da má consciência de uma certa (ou errada) direita.
Basta ter um pouco de memória para recordar como essa esquerda agitou invariavelmente o espantalho do salazarismo quando pressentiu a derrota. Fê-lo contra Freitas do Amaral em 1986. Fê-lo para tentar impedir a segunda maioria absoluta de Cavaco. Fê-lo no congresso "Portugal, que Futuro?", pela boca de Gomes Mota. Fê-lo nas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa que Santana Lopes ganhou.
Nós ou o fascismo: eis o mote do costume. Não surpreende que haja quem o use ainda, passadas três décadas sobre o 25 de Novembro. Mas os portugueses dispensam tutelas. Sabem o que devem a Soares e a Alegre. Sabem o que não devem a Jerónimo de Sousa e a Louçã. E sabem o que querem para o futuro. Cavaco Silva na Presidência da República será a maioridade da democracia portuguesa. O fim do PREC, trinta anos depois. Já não era sem tempo.

quinta-feira, novembro 24, 2005

Podem Fazer as Perguntas Erradas

Cavaco Silva e Manuel Alegre são entrevistados pela revista Atlântico deste mês. O painel de entrevistadores é de primeira água: Helena Matos, Maria de Fátima Bonifácio, Luciano Amaral e Rui Ramos .

Curiosamente nem todos os candidatos aceitaram ser entrevistados. Lê-se no Acidental:

«Mais curioso é ficarmos a saber, através de Helena Matos, que Mário Soares recusou ser entrevistado pela revista, ao contrário de Manuel Alegre. Como símbolo do que já é e do que pode representar no futuro a "Atlântico", não está nada mal: esta é a revista a quem Mário Soares recusou uma entrevista. Será porque teve medo das perguntas?»

Provavelmente. Emitir as habituais vacuidades sobre os perigos da globalização, trocar défices por superavits, sugerir políticas que já levaram países à ruina, baralhar todos os números ou defender diálogos com a al-Qaeda pode ser muito interessante perante a habitual complacência de jornalistas reverentes. Em frente deste painel de entrevistadores, o candidato arriscava-se a ficar em muito maus lençóis...

"Ousar lutar, ousar vencer"

Como julgo que ninguém aqui tem competência específica para "comentar" sondagens, recomendo a leitura do blogue de Pedro Magalhães sobre as mais recentes e sobre todas. Nada do que elas exprimem deve levar-nos a pensar que "já está" ou que "está quase". Nestas matérias, nada como seguir o velho lema que levou tanta gente tão longe: "ousar lutar, ousar vencer".

Bouvard, Pécuchet et Soares

Podia ser uma entrada de Bouvard et Pécuchet: “Sondagens: valem o que valem. Dizer que não nos entusiasmamos quando nos são favoráveis, nem nos abatemos quando não são.” A verdade é que as últimas são mesmo interessantes. Pelas percentagens de Cavaco Silva, é claro. Mas também por Alegre – com o seu lado Capitão Haddock, irremediavelmente sincero e de verbo generoso, a simpatia fazendo a vez do resto - se encontrar à frente de Soares. É verdade que, pelo menos neste último caso, a coisa se pode inverter. A estratégia conflitual de Soares – um work in progress que só Deus sabe onde vai parar – pode ainda dar os seus frutos. E a confiança sanguínea que ele deposita nos debates pode ter alguma razão de ser (sobretudo contra Alegre), embora seja lícito duvidar. Contra Cavaco não vai resultar. Do que não se pode duvidar, no entanto, é da crescente irritação de Soares. E isso é que vale a pena notar, porque provavelmente se vai acentuar. Anteontem, na Escola José Afonso (não foi por acaso que a escolheu, sem dúvida), em Loures, uma pacata pergunta de um aluno sobre o que falhara no 25 de Abril para que a crise presente se instalasse, levou-o, de acordo com o Público, quase “ao rubro”. O 25 de Abril “foi um sucesso mundial” (sic), respondeu - segundo Fernanda Ribeiro, a jornalista do Público - “quase exaltado” (Público, 23.11.05, p. 10). É óptimo que ele, e qualquer político, diga bem do 25 de Abril (os matizes competem aos analistas), mas a tal campanha da “afectividade” não devia passar por estados de alma assim. “Sucesso mundial” também é esquisito, mesmo um bocadito maníaco. Mas enfim: o 25 de Abril foi bom para nós, e é tudo menos censurável insistir nisso. A coisa, no entanto, continuou. Ontem, em Beja, depois de afirmar que, como Jerónimo de Sousa, “não dormiria com Cavaco em Belém” (vindo de quem vem, certamente um exagero), e de dizer que há “malandros” em todo o lado – “nos juristas, economistas e empresários”; e porquê omitir electricistas, garagistas e canalizadores? -, atirou-se à comunicação social e às sondagens “por dizerem coisas que não correspondem à realidade” (Público, 24.11.05, p. 10). A irritação é palpável. Convém lembrar que Soares – por exclusivo mérito próprio, de resto - tem gozado de mais espaço na televisão e nos jornais do que qualquer outro candidato, e que, apesar de uma excelente e perigosamente extravagante falta de complexos, continua em terceiro. Nova entrada de Bouvard et Pécuchet: “Malandros: estão em todo o lado. Votam nos outros e, pouco afectivos, dormem. Complexados. Porque dormem, não ligam à realidade. Dizer que nós não.”
"Est-ce que cela t'amuse?
- Oui! sans doute! va toujours!"

PS. Ler a óptima entrevista de Cavaco Silva a Helena Matos, Luciano Amaral, Maria de Fátima Bonifácio e Rui Ramos na última Atlântico. Boas perguntas, boas respostas.

A comunicação interpares é uma coisa muito bonita.

Fui, entretanto, orgulhosamente surpreendido com um mail do colega de Pulo, João Caetano Dias (jcd), onde sou desafiado para a produção e envio de uma declaração de voto no professor doutor Aníbal Cavaco Silva, que ele, jcd, prontamente postaria aqui no Lobo - coisa que, aliás, tenciona fazer com outros seus convidados de qualidade menor -. Aproveito esta oportunidade não só para informar o jcd e a expectante audiência que a obra está já em avançado estado de dilatação, mas também para levantar um pouco do véu (salvo seja) da mesma: entre outras ideias e conceitos imperecíveis, constam as palavras “votar”, “silva” e, estou certo, um ou outro advérbio de modo. O texto completo, é bonito de ver, chegará em primeira mão à caixa de correio electrónico do jcd, que a ética interpares é uma coisa muito bonita.

O ouvido do lobo: maioridade política

«A, eventual, vitória de Cavaco terá um significado e uma virtude muito importantes. Até hoje, ainda não houve um único Presidente da República eleito com o apoio do centro/centro-direita. Ou seja, há 30 anos que a Presidência da República é um domínio exclusivo da esquerda, o que é um mau sinal para a nossa democracia. Esta espécie de exclusão de metade do espectro político do exercício da mais alta função significa que o País ainda não cresceu o suficiente. Nesse sentido, a eleição de Cavaco - a acontecer - será tão importante como foi a extinção do Conselho da Revolução. Será a prova de que atingimos a maioridade política.»

Henrique Burnay

A Minha Mesinha de Cabeceira

Nas dez alíneas que perfazem o que se poderá chamar de “Pequeno Livro de Estilo do Pulo do Lobo” - em especial atenção a mim, o Pedro Lomba teve a presença de espírito de incluir uma alínea suplementar, que desde já, eu e o povo, agradecemos -, pode ler-se: “Não temos um busto dele em casa“. Mesmo assim, decidi manter a decisão de participar neste magnífico projecto castanho.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Irresponsabilidade

Mário Soares afirmou ontem que se estavam a passar "coisas muito estranhas" na Justiça portuguesa, como as "escutas telefónicas que não se sabe quem as autoriza".
Ou sabe mais do que nós e é sua obrigação denunciar os factos de que tem conhecimento. Ou não conhece a lei: nesse caso recomenda-se a leitura do Código de Processo Penal.
Mas é provável que seja apenas mais um comentário irresponsável e superficial, vindo de um ex-Presidente da República, que quer voltar ao cargo, e não prescinde de enviar uns recados que afundam ainda mais o sistema.

É que a malta não anda aqui a comer gelados com a testa

O estratégia do activismo anti-Cavaco continua a parecer-me incompreensível. Por um lado, releva-se o alegado silêncio do candidato e exige-se que este debite sapiência sobre todos os grandes assuntos nacionais du jour, da Ota à apanha da castanha. Por outro, em todo o lado vemos os mais profundos, objectivos e incontestáveis juízos de intenção sobre o que o homem pensa e pretende ser se for eleito (em resumo: uma espécie mutante de Salazar ultra-liberal. Coisa para alquimistas, portanto). Para facilidade de compreensão, eu propunha que os activistas se decidissem quanto à táctica. Querem ser o célebre hooligan do Herman ou a não menos famosa personagem desocupada do Ricardo de Araújo Pereira? Em que é que ficamos? Na estratégia do "Ah e tal porque não explicam" ou na do "O que tu queres sei eu, pá"?

O folhetim

Por vezes, e ainda que não seja nada comigo, sinto genuíno embaraço ao assistir a situações públicas confrangedoras. O folhetim da escolha do candidato socialista, agora revisitado, volta a embaraçar-me.
Será tão importante saber qual a quarta escolha do Partido Socialista, após Guterres, Vitorino e Gama (creio não me ter esquecido de nenhum)? É este um tema essencial na ordem de trabalhos pretendida para a campanha eleitoral? A ponto do embaraço, deles e meu?
Claro que também não me sinto particularmente confortável pelo facto do Primeiro-Ministro do meu país insistir em posar nesta fotografia. Na qual nenhum dos intervenientes fica bem e o sentido de Estado nem sequer aparece.
Gosto de acreditar que, por muito que os jornalistas esperneiem, nunca se ouvirá de Cavaco Silva qualquer aproveitamento político deste estimulante folhetim. Por muito que custe aos histéricos do costume, também nos silêncios se conhece os candidatos.
No post inicial deste blogue afirmou-se um duplo desejo: que “os outro candidatos percam as eleições. Com dignidade”. Compreendo que não estejam disponíveis a contribuir para o primeiro, mas vejam lá se nos dão uma ajuda no segundo.

terça-feira, novembro 22, 2005

Um homem com qualidades (III)

Cavaco Silva, embora não emita muitas opiniões, já mostrou que tem qualidades. Continuamos a discutir os mesmos problemas, mas as condições que hoje temos para os enfrentar são melhores do que eram nos anos 80. Apesar de todas as insuficiências do sistema de ensino português, as gerações mais novas estão mais bem preparadas do que as anteriores. As infra-estruturas são incomensuravelmente melhores. António Barreto no livro que organizou, A Situação Social em Portugal, 1969-1999, descreve a dimensão dessa mudança. Portugal mudou.
As qualidades de Cavaco Silva ajudaram à mudança. Embora isso não signifique que tenha sido Cavaco Silva o único responsável pela mudança (ou das mudanças que ficaram por fazer). A abertura da economia e da sociedade portuguesa, a exposição à concorrência internacional, as privatizações, a abertura das televisões aos privados terão sido os grandes factores de mudança (voltarei a este tema). Houve uma liberalização da sociedade portuguesa com os Governos de Cavaco Silva. Por isso, ele soube, e não é pouco, como saberá hoje, enviar os sinais correctos para a sociedade portuguesa.
Eu sei que isto estará longe do mito de salvador da pátria que insistem em colar a Cavaco Silva. Infelizmente, não há, nem haverá nunca, um homem ou uma ideia que salvem Portugal. Isto não vai lá com uma ‘grande ideia’, porque essa não existe.
E, por isso, nem um homem com as qualidades de Vasco Pulido Valente a podia conhecer.

Conversas

O Pulo do Lobo decidiu- ou alguns dos seus colaboradores decidiram - "conversar" com blogues "afectos" a outras candidaturas, designadamente com o "comics" Super-Mário. E, vai daí, deu-se início a uma espécie de jogos florais "inter-blogues" que, salvo o devido respeito, não acrescentam nada de substancial às candidaturas "apoiadas". Eu prefiro "conversar" com apoiantes de outras candidaturas por causa da política e não propriamente à luz de uma espécie de "gato fedorento" das eleições presidenciais ou do "quem quer ser milionário" à conta de citações pretéritas dos candidatos. Não me parece que Cavaco Silva sinta necessidade de andar por aí, tagarela, a massajar diariamente o ego de ninguém. Nem sequer que precise de recorrer à mera "shop talk" tão em uso noutras bandas. Não é para eles que ele fala. E é isso que fará toda a diferença.

Dez Razões de Política Internacional Para Não Votar em Alegre

1. Se encontrar Zapatero, chama-lhe Quixote.
2. Se encontrar Chirac, chama-lhe De Gaulle.
3. Se encontrar Sarkozy, chama-lhe Napoleão.
4. Se encontrar Blair, chama-lhe Churchill.
5. Se encontrar Angela Merkel, declara-lhe que "as mulheres do meu país não leram Brecht, mas são bandeiras desfraldadas ao vento do futuro", ou qualquer coisa igualmente embaraçosa.
6. Se encontrar Berlusconi, chama-lhe Garibaldi.
7. Se encontrar Bush, chama-lhe Kennedy.
8. Se encontrar alguém do Pentágono, pergunta-lhe como é que vai essa coisa do blog.
9. Se encontrar José Eduardo dos Santos, chama-lhe Mandela.
10. Se encontrar Bento XVI, diz-lhe "ouve lá pá, comigo, de branco, só o Figo no Real Madrid".

Dez Razões de Política Internacional Para Não Votar em Soares

1. Se encontrar Zapatero, chama-lhe Gonzalez.
2. Se encontrar Chirac, chama-lhe Mitterrand.
3. Se encontrar Sarkozy, chama-lhe De Gaulle.
4. Se encontrar Blair, chama-lhe Tatcher.
5. Se encontrar Angela Merkel, pergunta-lhe "Frau Kohl, o seu marido não veio?"
6. Se encontrar Berlusconi, chama-lhe Craxi.
7. Se encontrar Lula, chama-lhe Porto Alegre.
8. Se encontrar Bush, chama-lhe Bush, mas pergunta-lhe porque é que resolveu invadir outra vez o Iraque.
9. Se encontrar Bento XVI, chama-lhe Paulo VI.
10. Se encontrar Figo, chama-lhe Eusébio.

Um homem com qualidades (II)

Recentemente dei uma aula de economia portuguesa. O tema era a convergência do PIB português em relação aos países mais ricos da Europa. Como motivação para o tema, dei aos meus alunos o texto ‘Modernos e modernizados’ de Vasco Pulido Valente (Às Avessas, 1990), originariamente publicado, em 1988, no Independente.
Os meus alunos nasceram em meados dos anos 80. Ou seja, viveram, até à sua entrada na Universidade, num dos dois períodos de maior crescimento e convergência da história da economia portuguesa. Portugal era um país de “sucesso”. Éramos tão bons como os melhores – ou, se não éramos para lá caminhávamos. No entanto, depois de alguns anos de estagnação e divergência, os meus alunos estão preocupados. Querem soluções.
Expliquei-lhes que partilhava com eles esse sentimento e que senti o mesmo nos anos 80 – só não lhes disse que foi isso que fez de mim naquela altura, e faz de mim hoje, um cavaquista (confesso que houve um período pelo meio em que deixei de o ser).
Com a leitura do texto de Pulido Valente, procurei mostrar-lhes que o problema não é novo. Os problemas que a economia portuguesa enfrenta já existiam e eram discutidos há pelo menos 200 anos – também demonstrei com dados, porque os que Pulido Valente refere não são os mais correctos. E que as dificuldades que discutíamos no final dos anos 80 – o défice, a educação, a investigação e as novas tecnologias, o défice comercial, a eficiência do sistema de saúde – são em grande medida as mesmas que discutimos hoje. Mais, e essa era principal ideia do texto, a coisa não se resolve por decreto nem com imitações – ontem a Bélgica e a França, hoje a Irlanda e a Finlândia. É preciso mudar Portugal a partir daquilo que somos. Vasco Pulido Valente tem ajudado a compreender aquilo que somos. Mas essa qualidade, embora necessária, não chega para mudar Portugal. É aqui que entram as qualidades de Cavaco Silva.

Também Eu Tenho Uma Citação Polida e Valente no Congelador

Agora toda a gente cita Vasco Pulido Valente para atacar Cavaco. É justo. Nada melhor do que servir-se de um ex-deputado nogueirista para lembrar a pesada herança do patriarca. No Público de Domingo passado, além do mais, o homem esmerou-se. Depois de incluir o Dr. Soares no naufrágio universal a que semanalmente condena a humanidade, parece que terá dito qualquer coisa como "mas é bom que ele exista" . Grande entusiasmo nas hostes soaristas.
Compreende-se. Um elogio do terrível Vasco é um fenómeno da natureza, algo a meio caminho entre uma aurora boreal e a vida amorosa do escorpião-fêmea, que tem o hábito de matar o macho após os dez segundos necessários à perpetuação da espécie. Podiam era ter citado a prosa toda, e não apenas a aurora boreal.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Fintas e placagens

O Ivan Nunes, cedendo às metáforas, compara-me a um jogador de râguebi que se recusa a jogar para não ser aleijado. Como não tenho a mesma vocação para a metáfora, diria apenas que o Ivan me lembra um jogador de futebol que, nestas eleições presidenciais, só tem jogado râguebi. Em vez de fintas, faz placagens.

Uma crítica a Vital Moreira

Tenho estima intelectual e académica por Vital Moreira. Estou quase sempre em desacordo com os seus textos políticos, mas reconheço no que escreve uma responsabilidade, uma seriedade e um institucionalismo que me deixam satisfeito. Depois, conheço o contributo de Vital Moreira para a implantação da democracia: quando se fizer um dia a História da Constituição de 1976, alguém perceberá a importância que teve Vital Moreira em trazer o PCP para o terreno da disputa constitucional, retirando-o da disputa revolucionária. É um mérito histórico que não devemos negligenciar. Vital Moreira deixou entretanto de ser comunista, mas continua a defender a Constituição que ajudou a fazer, o que só lhe fica bem. No que ao semipresidencialismo diz respeito, não conheço quem mais assídua e energicamente defenda as virtudes do semipresidencialismo e de uma versão deste sistema em que o Presidente da República se assume como órgão político, não como um cargo protocolar, como um órgão que conta, não como um fútil organizador de banquetes. Ora, é por isso mesmo que não compreendo esta atitude de vigilância que Vital Moreira tem revelado sobre o comportamento constitucional dos outros candidatos, denunciando qualquer manifestação daquilo a que chamou de «deriva presidencialista». O meu problema não é tanto Vital Moreira esquecer as vezes que Cavaco Silva já disse que respeitará o equilíbrio de poderes ou a óbvia circunstância de alguns apelos à presidencialização do regime terem surgido na forma de presentes envenenados ao candidato. O meu problema é que Vital Moreira tem sido há muito um legítimo e excelente defensor da faceta presidencial do nosso regime político. Se eu tivesse que encontrar um teórico do semipresidencialismo vigente que, deslocando-se para além do texto da Constituição, conferiu ao cargo presidencial um amplo direito à palavra e à liberdade de exteriorização, uma função de orientação política sobre outros poderes democráticos e, na prática, a possibilidade (sublinho: a possibilidade) de um poder de oposição contramaioritária ao Governo, eu escolheria Vital Moreira. Não por acaso, foram Vital Moreira e Gomes Canotilho quem, em 1991, a pedido do então Presidente Mário Soares, elaboraram um parecer sobre os poderes do Presidente da República, mais tarde publicado em livro, que assentou como uma luva às pretensões de maior intervencionismo que Mário Soares tinha para o seu segundo mandato presidencial. Os argumentos de Vital Moreira e Gomes Canotilho forneceram a Soares a legitimação jurídica de que este precisava para os seus desejos de um maior protagonismo político e de um reforço dos seus poderes nas áreas da defesa e da política externa (aqui com curiosas aproximações ao semipresidencialismo francês). Os políticos são os primeiros a trair os juristas e, contra o que os próprios Moreira e Canotilho haviam escrito, o dr. Soares fez do seu segundo mandato presidencial o que bem se conhece. Vital Moreira é um dos teóricos desta função presidencial de orientação política, de que Cavaco Silva tenciona justamente servir-se. É certo que essa orientação política, como Vital Moreira e Gomes Canotilho a conceberam e concebem, não pode ultrapassar zonas de intervenção genérica e limitada. Os presidentes não se podem substituir aos governos. Mas orientar significa dar instruções ou fazer recomendações. Se Cavaco Silva usar o seu poder para dar instruções e fazer recomendações, estará a respeitar integralmente quer a Constituição, quer o pensamento de Vital Moreira. Para ele, isso devia ser suficiente.

Um homem com qualidades (I)

Num país em que as opiniões contra a corrente são sempre mal recebidas (é assim em todo o lado, mas em Portugal é pior por razões mais ou menos evidentes), sempre considerei muito importantes as opiniões de Vasco Pulido Valente. Quem lê Vasco Pulido Valente sabe que o que ele diz, ainda que possamos discordar, corresponde a uma visão que ele tem do nosso país e de algumas personagens que o habitam. É sem dúvida um homem com qualidades. Portugal precisa de si.

Continuamos por bom caminho (II)

Soares, em Freixo de Espada à Cinta, faz promessa eleitoral de defesa do regresso ao funcionamento da linha de combóio que atravessa aquela vila transmontana. Deriva presidencial ou campanha presidencial à deriva?

Homem com opiniões (II)

“Só que eu não escolho um Primeiro-Ministro pela cor das meias (hoje, aliás, admirável) ou pelo seu perfeito conhecimento dos amores de Swann (...) pessoalmente, como a esmagadora maioria dos portugueses, não tenho razões de queixa do dr. Cavaco (pelo contrário) e não ambiciono passar os próximos quatro anos numa trapalhada acéfala, presidida pela inveja, pelo ressentimento e por Mário Soares. O regime de Cavaco Silva permite-me conduzir a minha vida privada, sem sobressaltos, nem acidentes públicos. Não lhe peço mais e não me propõem nada de melhor”.
(VASCO PULIDO VALENTE, Retratos e Auto-Retratos, p. 180; artigo originariamente publicado no semanário O Independente, 19 de Julho de 1991)

A importância de ser humilde

domingo, novembro 20, 2005

Diz-me com quem andas

Bem sei que as sondagens valem o que valem e que faltam dois meses para as eleições. Mas sei também que os políticos se guiam, mais do que ninguém, pelas sondagens. Ora as sondagens que têm vindo a público colocam um grave problema a Soares.

Soares não é hoje o candidato «transversal» que foi (em certa medida) em 1986 e (incontestavelmente) em 1991. Soares está numa situação desconfortável, em que se vê obrigado a lutar pelos votos da esquerda e do centro-esquerda. Mas, por culpa de Alegre ou do próprio, Soares está também numa situação que se pode caracterizar como, no mínimo, irónica - não consegue perfazer sequer os votos do eleitorado socialista fiel. E aqui coloca-se uma interessante questão estratégica: a gestão do grau de independência partidária da candidatura.

As intervenções dos últimos dias vêm sublinhar aquilo que já toda a gente devia saber: a candidatura de Mário Soares é embaraçosamente partidária. Num dia, Mário Soares perde-se em elogios a Sócrates e Guterres. No dia seguinte é a vez de Sócrates retribuir copiosamente, ao afirmar, entre outros recortes de antologia, que Soares esteve «sempre do lado certo da História». Por outras palavras, Soares namora os ícones do PS moderno, e o PS do momento namora Soares. Para que o eleitorado tradicionalmente socialista perceba que, apesar de devermos eleger para Presidente um candidato independente, tem mesmo é de votar Soares. Mais que isto, só fazendo o desenho.

Apesar de ter o apoio do PSD, a candidatura de Cavaco Silva não tenta fazer um aproveitamento político do facto. Nem o PSD se quer colar excessivamente à candidatura de Cavaco Silva. E o fundamental é que isto não acontece por uma questão circunstancial. Seria fácil a Cavaco colar-se ao PSD. Lembremo-nos que a popularidade do governo é fraca e que o PS acabou de sofrer uma pesada derrota eleitoral. A opção por uma marcada independência suprapartidária é tomada por meras razões de princípio e respeito pelo enquadramento constitucional. Claro que para os apoiantes do candidato que tem por hábito ostentar as insígnias do republicanismo, esta explicação é insuficiente. E logo avançam para as costumeiras teses do populismo e da tecnocracia. Nada que surpreenda.

Campanhas tagarelas

Prosseguem, a todo o vapor, as campanhas tagarelas. Manuel Alegre foi o último a aderir ao exercício. Copiando. Acontece que acaba-se sempre por preferir os originais.

Facilidades

É fácil, falando muito, fazer crer que os outros estão calados. É fácil, dizendo tudo o que nos vem à cabeça e mais alguma coisa, lançar a suspeita que os outros não têm ideias. É fácil, produzindo doses extraordinárias de ruído, sugerir que à volta só há silêncio. É fácil, banalizando o ataque pessoal, fazer com que pareça natural. Por outro lado, é igualmente fácil ver só desespero onde há também estratégia. E é fácil pensar que o cansaço acaba por vencer o cansativo, quando o cansativo só a nós nos cansa. É facílimo supor apenas racionalidade e bom-senso quando as pessoas não menos se acomodam, compreensivelmente, ao que se repete ad nauseam. E é mais fácil construir mitos do que destruí-los. Tenho visto televisão e lido o Público e o Diário de Notícias.

sábado, novembro 19, 2005

Humanismo

Homem com opiniões

Esta semana, pelos mais desvairados motivos, vários prosélitos recorreram a Vasco Pulido Valente. Fosse por causa do dr. Soares, fosse por causa do dr. Cavaco, Pulido Valente foi invocado alternadamente como "apoiante" e "crítico" do primeiro e, com maior constância, como impiedoso "desmistificador" do segundo. Até VPV, por fim, recorreu a ele mesmo. Pela natureza das coisas, a começar pela dele, Pulido Valente não pode "gostar" do dr. Cavaco, pese a circunstância de achar que ele deve ganhar. Numa prosa reproduzida na Grande Loja, VPV opina sobre o "homem sem opiniões" que supostamente seria Cavaco Silva. O "mote" é a entrevista da TVI que eu, numa escala de 0 a 20, classificaria com um 12/13. Já pouca gente se deve lembrar dela mas, por exemplo, não custava nada ao dr. Cavaco ter admitido que a dissolução do Parlamento foi correcta e que a emergência do austero Sócrates não fez mal a ninguém. O eleitorado da "direita" sabe isso perfeitamente e não era por lho ouvir de viva voz que ia agora fugir, indignado com a evidência. Quanto ao resto, Cavaco fez bem em evitar a pequena peripécia e em centrar a sua "mensagem" como "pré-presidente", a concorrer para os 51%, como disse Pacheco Pereira na SIC Notícias, e não em masssajar o ego de oponentes que concorrem para os 20 ou para os 30, ou, de resto, para defenderem "territórios". Para não destoar e a benefício de inventário, eu também recorro a VPV, a um VPV de 19 de Julho de 1991, em O Independente, a título meramente ilustrativo de uma "opinião" como outra qualquer. "Os inimigos do dr. Cavaco nunca perceberam que a obstinação dele o punha firmemente no centro das coisas e os podia coagir, como coagiu, a tomá-lo como único ponto de referência. Cavaco sabia o que queria; os inimigos de Cavaco limitavam-se a saber que não queriam Cavaco." Isto, lido agora, não lembra nada?

sexta-feira, novembro 18, 2005

Hayek, Salma, e Cavaco, Silva

O nosso coblogger JCD publicou aqui as declarações de voto de dois conhecidos liberais da blogosfera, o Miguel Noronha e o Rodrigo Adão da Fonseca. Li-as, gostei e parece não fui o único. Confesso, porém, que me custa um pouco entender certos problemas de consciência em votar Cavaco Silva.
Os liberais dizem que o homem não é um deles, já sei. E não será.
Mas não votar Cavaco por não ser um liberal é como não jantar com a Salma Hayek porque nunca leu Dostoievsky. Se calhar até leu.
Ou porque ela não sabe cozinhar. Who cares?
Ou porque se prefere jantar com Soares, Alegre, Jerónimo, Louçã...
E se estão à espera de uma fotografia da senhora, então vão ter com eles, os liberais.
Eu cá sou um conservador. Comigo, só Cavaco e a Sofia Loren.

Aí está

Eu, que tinha achado que a entrevista de Cavaco Silva à TVI foi fraca, vejo que ele se redimiu com estas declarações.

Dúvida

Curiosas as declarações de Manuel Alegre sobre os poderes presidenciais de demissão do Primeiro-Ministro/dissolução da Assembleia da República. Será que Vital Moreira, ao defender as suas teses antecipatórias de (ab)uso dos poderes presidenciais por parte de Cavaco, se terá enganado no candidato?

Problemas de identidade

Há fortíssimos problemas de identidade e posicionamento na candidatura de Mário Soares. Só não vê quem não quer ou quem não pode. Primeiro, Soares devia explicar às pessoas porque é que alguém que já foi Presidente da República o quer ser outra vez. Esta é uma pergunta que anda nas ruas e Soares não a consegue resolver. Segundo, Soares começou esta pré-campanha agitando o fantasma da ameaça de Cavaco Silva para a estabilidade do regime. Mais uma vez, há aqui um problema de identidade, porque Soares não só ignora que Cavaco não é um político subversivo como se esqueceu de uma entrevista sua à TSF, em Maio de 2003, em que reconheceu o "peso político" de uma candidatura de Cavaco, sem ter dito nada então sobre essa ameaça. Terceiro, Soares tem um problema de tom. As suas alusões ao candidato "complexado" ou ao "boletim clínico" mostram a dificuldade em encontrar o tom certo para uma campanha mais positiva que pudesse mobilizar os eleitores. Quarto, Soares tem Alegre e Alegre não desapareceu de cena. Por mais que Soares queira bipolarizar estas eleições, as sondagens não reflectem essa bipolarização. Alegre evitou atacar de chofre Cavaco, admitiu que a eleição deste não seria nenhum golpe de Estado, o que o coloca numa posição menos negativa e mais próxima de um eleitorado com "causas". Quinto, há um problema de identidade no discurso ideológico. Nos últimos anos, Soares foi-se encostando tanto à esquerda, na política externa, na reacção à globalização, na defesa do "modelo social" que, ao avançar agora com um candidatura presidencial, tem o problema de não saber o que fazer a todo aquele discurso. Não é por acaso que o seu manifesto eleitoral buscou uma moderação e um recentramento ideológico, muito claro por exemplo nas suas referências completamente novas a um Estado social adequado ao desenvolvimento económico de Portugal. Isto é um Soares que não existia há um ano, que foi criado agora à pressa para um campanha eleitoral em que ele está de facto notoriamente com a identidade perdida (DN de hoje).

Zero Para a Caixa

Telhados de Vidro

Quem tem candidatos que se desdizem num ano, não atira pedras para a década passada.

"Basta! Basta!"
Mário Soares, Dezembro de 2004

«Mário Soares sem vontade de voltar à política activa.
No dia em que faz 80 anos, Mário Soares, confessa à TSF que não voltará à vida política activa. O histórico socialista diz que já dedicou demasiado tempo a este sector e por isso coloca de lado uma candidatura à presidência da República.»
TSF, Dezembro de 2004

quinta-feira, novembro 17, 2005

Por isso é que nem sequer aparece nas sondagens

Apesar de muito referido e espicaçado por Mário Soares, Salazar não aceitou nenhum frente-a-frente.

How many special people change, how many lives are living strange

Vai-me custar, acreditem. Mas devo, hoje e aqui, confessar o seguinte:

Foi num dos primeiros dias de Agosto do ano 2000. Dirigi-me à Zambujeira do Mar, da qual me separavam cerca de quinhentos quilómetros, com o único propósito de assistir, no célebre certame musical que a localidade em questão alberga, ao concerto de um determinado agrupamento composto por uns quantos rufias de Manchester muito dados ao insulto criativo, à ingestão de bebidas alcólicas e à entusiasmante vida selvagem dos pubs de subúrbio industrial e das bancadas dos estádios de futebol.

Tendo em conta a imensa relação de afectividade juvenil que me liga e para sempre ligará ao combo em questão, muito desiludido fiquei quando, num incidente que marcou a história de todas as edições do evento, os músicos se viram obrigados a abandonar o palco passada apenas cerca de meia-hora dos primeiros acordes, em virtude de se encontrarem ameaçados na sua integridade física por uma chuva de pedras e demais objectos sólidos arremessados pelos admiradores do agrupamento que o cartaz do dia anunciava como a atracção seguinte.

Como a frustração era grande e me esperavam ainda outros quinhentos quilómetros de regresso nocturno, comecei a disparatar e a disparar em todas as direcções. Os principais visados foram, obviamente, os admiradores dessa tal banda seguinte, a qual, por ser de origem alemã e ter um nome alusivo a qualquer coisa símia, me fez invocar e verbalizar um certo espírito 1939-1944, para o que muito contribuiu a Union Jack que normalmente transporto para determinados concertos.

Chegado à zona da saída e das bilheteiras, reparei que não estava sozinho nesta angústia. Aí, tinha-se já formado uma considerável turba, em fúria contra o desleixo e irresponsabilidade da organização do tal certame, exigindo o retorno do dinheiro do bilhete. Considerando que a liderar a dita organização se encontrava um famoso gestor que é genro do Senhor Professor Cavaco Silva, admito que me possa ter saído uma ou outra palavra de menor correcção para com a obra do Senhor Professor e a capacidade organizativa do esposo de sua filha.

Pronto, há que ser um homenzinho. Disse sim. Disse coisas do piorio sobre ambos. Por isso, para além do dinheiro do bilhete propriamente dito, recebi ainda um outro bilhete, daqueles de mão bem aberta, desferido por um outro responsável da organização, que alegava ser familiar do genro do Senhor Professor. E foi muito bem feito.

Confesso tudo isto porque me constou que o Super Mário, na sua sanha moralizante, se preparava para revelar os factos acima aduzidos. E a melhor forma de minimizar os estragos à minha reputação, evitando até maldosas deturpações da realidade, seria eu mesmo contar o que se passou.

Espero, contudo, que o Senhor Professor me perdoe e que o tal chequezinho sempre me seja remetido com o valor generosamente acordado.

Como canta a tal banda inglesa, "how many special people change, how many lives are living strange"

Primeiros-Ministros

«Goste-se ou não de Cavaco Silva, o antigo primeiro-ministro mudou Portugal. Embalado pela entrada na União Europeia, legou um país bem diferente na mentalidade, na riqueza, na organização do Estado e da economia, daquele que encontrou. O mesmo não pode, por enquanto, ser dito de Guterres. Cavaco Silva normalizou e infra-estruturou um país atrasado, meio salazarista, meio revolucionário, e recolocou-o na senda da Europa. O desafio de Guterres é colocá-lo ao nível da Europa. Isso exige mudar práticas e mudar mentalidades, muito mais do que continuar a regar abundantemente este pequeno quintal com uma chuva de euros.»

José Manuel Fernandes, Editorial do Público, 12 de Dezembro de 1999

Critérios

José Pacheco Pereira chama hoje a atenção para os "critérios jornalísticos" que determinam a ausência de quaisquer comentários ou editoriais sobre a forma como um ex- chefe de Estado, de novo candidato à "mais alta Magistratura da Nação", tem andado a conduzir a sua alegre campanha. Trata-se de um curioso silêncio que não vejo ninguém pôr em causa, sobretudo as púdicas musas que tanto se amofinam com o alegado silêncio de outros. Presume-se que o candidato em causa aspira legitimamente regressar a um lugar onde parece que foi feliz. E que, atentas as circunstâncias, será o segundo ou o terceiro na "lista de espera" para o efeito. Isso devia dar um diferente sentido de responsabilidade à sua candidatura. Pelo contrário, o candidato faz os possíveis para a radicalizar todos os dias um pouco mais, banalizando a sua relevância "nacional" e emprestando-lhe uma desagradável conotação de marginalidade. À falta de melhor, a generalidade dos órgãos de comunicação social dá a estas prestações o nome de "pré-campanha", levando-as a sério, e alinhando acriticamente pelo preconceito sobranceiro- e, porque não dizê-lo, reaccionário - que lhes está subjacente. O temor reverencial e a perspectiva cortesã não permitem ir mais longe. E a imensa "superioridade moral" e "intelectual" da figura também não.

Constança Chega Para Todos, Mas Alguns São Mais Iguais do Que Outros

Como seria de esperar, a entrevista de Cavaco Silva à TVI tem sido abundantemente citada na blogosfera (não faço links para não esquecer ninguém). O mais curioso são os remoques sobre o que aqui se devia ter dito e não se disse a propósito da dita. O Super-Mário nota que escrevemos "pouco" no dia seguinte. É verdade: seis posts. Por lá escreveu-se mais: 18. Três vezes mais, e com direito a duas fotografias, a lista de nomes da Comissão Política de Cavaco, uma citação de Thomas Macaulay (em espanhol), meia centena de linhas da bíblia de Maria João Avillez, uma citação do Pacheco Pereira, uma citação do Pedro Lomba, um ataque ao Mar Salgado e outro ao Arte da Fuga. É obra. Quando vir o Lomba e o Pacheco Pereira, vão ter de me ouvir. Entretanto, o Glória Fácil descobriu, com estrondo e escândalo, que não somos "isentos". Are you f. talking to me (como diria a f.)? Qualquer dia descobrem que alguns de nós somos do PSD, do CDS e até do FCP, e cai o f. Carmo e a f. Trindade. Preparem-se, sff.
Até lá, não tenho problemas em reconhecer que a entrevista da TVI "correu mal" a Cavaco. Faço-o por cinismo, claro. Segundo o soarista Medeiros Ferreira, não correu melhor aos outros. Constança Cunha e Sá mostrou-se temível, com uma memória de bisturi, aquela frieza sádica capaz de enervar um lorde saído das crónicas do João Carlos Espada e sobretudo dois acessórios raros no jornalismo português: tempo e vontade para dar cabo de lugares comuns.
Só lamento que estes luxos não se tenham repartido por igual entre todos os candidatos. Se Cavaco foi confrontado com o seu passado, os demais foram confrontados com a sombra de Cavaco. Constança recordou o lamento do Professor, perante a ameaça da "bomba atómica", de que a dissolução da Assembleia estivesse sujeita aos humores do Presidente. Fez bem. Mas porque é que não lembrou o mesmo episódio a Soares, que agora se apresenta como pilar da estabilidade? Depois, há a guerra do Iraque. Cavaco não falou sobre o assunto, se falou não foi o suficiente, se foi o suficiente não foi na televisão. Mas, há uns tempos, eu e largos milhares de portugueses assistimos à diatribe de Fernando Rosas, em directo na RTP, contra a presença de Portugal na NATO. Não seria boa ideia perguntar a Louçã, a Alegre e a Jerónimo de Sousa que lhes parece? Ou Constança não vê a RTP?
Os exemplos podiam multiplicar-se. Se isto fosse um jogo de futebol, os comentadores viriam a terreiro indignar-se com a dualidade de critérios do árbitro. Não é, por isso Cavaco vai ganhar na mesma.

Declaração de interesses

É muito provável – inteiramente provável, aliás – que tenhamos ideias diferentes sobre muitas opções da nossa vida. Da minha e da dele, Cavaco Silva, que são muito diferentes. São diferentes em muitas coisas: no sentido que eu acho que a vida tem, na minha desorganização geral, nos gostos literários, no meu quase desinteresse por questões de economia e até no seu desinteresse por futebol, por exemplo.
Provavelmente, eu gostaria de ir pescar com Manuel Alegre, de ir com ele às touradas (de que não percebo nada) ou de discutir com ele o mistério da poesia (o que já fizemos, aliás). Mas um presidente da República não se elege (ou se vota nele) porque é igual a nós, semelhante a mim, com os meus gostos, as minhas obsessões literárias. Escolhe-se um presidente para que ele garanta a liberdade das nossas opções, a estabilidade que permita que eu não tenha de pensar como ele para ser considerado cidadão de pleno direito. Acredito, além do mais, nos valores republicanos de seriedade, responsabilidade individual, estudo, lealdade às leis e à vontade dos eleitores, respeito pelas contas do Estado.
Eu não sou cavaquista. Limito-me a achar que Cavaco Silva será melhor presidente do que qualquer um dos seus opositores. Que o seu tipo de presidência permitirá que os governos governem e que os cidadãos sejam cidadãos de pleno direito – e que actuará com tranquilidade. E que Portugal precisa dessa margem de tranquilidade para se repensar e reorganizar sem lugares-comuns nem apêndices burlescos, pequenas lutas protocolares pelos holofotes da glória. E que, portanto, precisa de alguém compreensivo na presidência – não de quem tenha todas as respostas. De alguém que esteja atento aos outros e que pergunte e saiba fazer as perguntas; e mais: que permita que as perguntas se façam. Esse é o principal currículo que eu exijo a um presidente. Mas há mais.
O combate nestas eleições presidenciais é, por isso, entre diferentes modos de entender a vida de um país. Não entre modos de entender a minha vida ou a vida de cada um. O objectivo da política não é o de garantir a felicidade – mas o de possibilitar que cada um possa procurá-la como entender. Não acho, por isso, que tudo pertença à esfera da política ou, sequer, que um político profissional esteja em melhores condições para compreender a sociedade e o mundo actual. A pequena polémica criada em redor da designação de “político profissional” revela até que ponto essa perspectiva pode empobrecer a própria vida civil, limitando o “espaço político” a um exercício de linguagem (e de vigilância sobre ela), e ao inventário de propósitos sobre o que deve ser a vida dos outros – por mais largo e vasto que se imagine esse “arco de interesses” da própria política, construído à maneira de um catálogo de saberes ou de referências. Cada um de nós tem uma dignidade e uma vida que não se dissolvem na intervenção permanente na comunidade política. Para que isso seja possível, julgo que é necessário pensar na governabilidade do país e na sua estabilidade. Só isso pode garantir a nossa liberdade, que é um valor precioso e que deve estar a salvo de todos os ressentimentos e de todos os ressentidos. E de todos os malabarismos. [Crónica na edição de hoje do JN.]

quarta-feira, novembro 16, 2005

So long, farewell, auf Wiedersehen, adieu

Ritmo de convergência para a UE:


(Clique para ver em detalhe. Gráfico por Abel Mateus, ISEGI-UNL)

É à volta da realidade que este gráfico espelha de forma simples que Cavaco tem centrado o seu discurso económico. Faz bem. Não sendo o único, ele é o mais importante desafio económico e político que o país enfrenta.

Porque é que ele é o mais importante desafio? E o que pode/deve fazer um Presidente face a ele? Duas boas perguntas para as quais ensaio duas respostas:

1. Se as economias de vários países forem genericamente iguais, à excepção do montante de capital disponível em cada uma, os países com menor dotação de capital terão taxas de crescimento da sua riqueza superiores às dos países mais ricos. A tendência de longo prazo é então para os países pobres igualarem os níveis de PIB per capita dos países mais ricos.

Esta evidência empírica, relatada em detalhe no trabalho do economista Robert Barro, torna a convergência um processo quase inevitável. Larry Summers, primeiro, e Rudi Dornbusch, depois, chegaram a apelidar esta constatação empírica de Barro como a "iron law of convergence". Nos países da OCDE, a aproximação para os níveis de riqueza dos países mais ricos pelos países menos ricos é de cerca de 2 a 3% ao ano.

Que Portugal tenha sido capaz de quebrar esta tendência de convergência acelerada ao ponto de atingir o actual estado de divergência diz bem do nível de erro em que incorrem as políticas adoptadas. É urgente a inversão dos factores estruturantes que determinam esta divergência e é de todo impossível que quem defenda como prioridade o crescimento económico venha insistir na defesa de políticas cuja natureza e resultados o gráfico tão cruelmente expõe.

Não é com agrado que vejo Portugal servir de exemplo para explicar como um país pode ser tão mal gerido ao ponto de quebrar de forma tão forte a tendência de convergência média expectável para um país OCDE.

Habituem-se, poderão dizer alguns, abusivamente citando António Vitorino. Talvez, mas a verdade é que quem nunca se desabituou do excelente ritmo de convergência nos tempos do pelotão da frente, do bom aluno da Europa, tem agora alguma dificuldade em resignar-se a servir de case-study contrário.

E quem leu e acreditou em algum panfleto desinformativo argumentando que a prosperidade desses anos derivou apenas da injecção de fundos comunitários, aconselho o seguinte: consulte o volume de dinheiro injectado via UE em Portugal nos anos em que a desaceleração e divergência aconteceram. Conselho adicional: esteja sentado.

Perder a ambição de alcançar o nível de vida que a Europa mais rica possibilita, de uma maneira geral, ao seus cidadãos, é a resignação à inviabilidade do projecto de Portugal como um espaço identitário com futuro. É a resignação à inferioridade.

E mesmo para quem não se importe especialmente com isso, a verdade é que a evolução esperada da globalidade dos indicadores económicos e financeiros aponta para a impossibilidade da manutenção do status quo tal como hoje o conhecemos. A não reforma não implica apenas a impossibilidade da melhoria. Implica a impossibilidade de manter o pouco que temos.

2. E onde entra um Presidente neste cenário? Entra num post amanhã.

A entrevista

Cavaco Silva disse o que tinha que dizer na entrevista à TVI. Insistiu e voltou a insistir no que era, do ponto de vista dele, importante. E fez bem em insistir, porque era a maneira de acentuar o essencial e de o distinguir do acessório. Saltou por cima de algumas questões para o conseguir? Saltou. Note-se, no entanto, que eram questões menores, que um qualquer vivaço versado em casuística não teria a mínima dificuldade em responder, como por exemplo a putativa contradição entre duas posições suas sobre a relação entre as eleições autárquicas e as legislativas. Somando tudo, o que é surpreendente é que uma óptima entrevistadora como Constança Cunha e Sá não tenha arranjado nada de mais problemático para explorar. Porque aqueles detalhes podem interessar apenas a meia dúzia de aficionados. Muito legitimamente, não interessam aos eleitores em geral. Nada têm de substantivo.

Cavaco recusou igualmente pronunciar-se sobre questões como a dissolução da A.R. por Jorge Sampaio ou a sua posição face ao actual governo. Mais uma vez fez bem, e os argumentos que invocou eram de peso. A diferença é que aqui as questões eram substantivas. E, por impecáveis que tenham sido as razões apontadas para a omissão, por mais peregrina que fosse a ideia de o pôr a criticar ou a apoiar Sócrates e Sampaio, há a curiosidade que fica insatisfeita. E a curiosidade, danada, arranha, sobretudo quando se esperam milagres da sua satisfação. Mas é nos debates que Cavaco terá de lidar com a curiosidade. E nos debates ele pode ganhar muito mais do que se pretende fazer crer. Porque as suas ideias são muito mais consistentes do que as dos seus adversários, que, oscilando jovialmente entre o vago e o impreciso, ultrapassam o limite aceitável nestas coisas. Porque não precisa de estar constantemente a chamar para si a atenção, já que dela dispõe naturalmente - um trunfo imenso, que faz perder a cabeça a Mário Soares, que o toma como uma ofensa pessoal. Porque não vai ter de arranjar explicações dificilmente aceitáveis para quezílias intestinas pouco lindas de ver E porque, desculpe-se, inspira mesmo mais confiança do que os outros.

Dito isto, convém acrescentar uma coisa. Cavaco goza da inestimável vantagem de acordo que suscita não ser feito de um compromisso com o hábito de perdoar. Vem-lhe daí um problema que é só dele, um problema que nenhum dos outros candidatos tem: é que, sendo eleito, se arrisca mais do que eles. Em tese geral, podemos perdoar àqueles em quem não confiamos. Mais dificilmente o fazemos àqueles em quem confiamos. Soares e Alegre (não vale a pena falar dos outros) contam antecipadamente com o nosso perdão. De uma forma ou de outra, pedem-no. O problema de Cavaco é que, ele, não: não o pede nem o deseja. Por outro lado, é esse risco – que faz as pessoas levarem-no, como a nenhum outro, a sério – que mais o recomenda. E, nestes tempos, recomenda-o excepcionalmente. As pessoas sabem. Toda a gente. Cada frase de Mário Soares, que o percebe perfeitamente, o prova.

As vantagens de saber economia (V)

A economia é geralmente definida como a ciência que procura explicar o comportamento dos indivíduos a partir da sua reacção aos incentivos existentes na sociedade.
Ora um dos problemas endémicos de Portugal é precisamente o dos incentivos darem muitas vezes os sinais errados. Os portugueses precisam de outros incentivos. Incentivos que estimulem a cultura do trabalho, do mérito, do gosto pelo risco, do rigor e da disciplina.
Cavaco Silva é o candidato mais bem colocado para transmitir os sinais/incentivos que podem ajudar Portugal a sair da actual crise. Desde logo a sua formação em economia permite-lhe perceber mais facilmente o funcionamento destes mecanismos de sinalização.
O melhor exemplo dessa atitude é, desde logo, o slogan dos seus cartazes: ‘Portugal precisa de si’, que transmite a ideia de que Portugal só pode melhorar se todos nos empenharmos nisso – não se vai lá com soluções mágicas ou discursos sobre mudança que não passam de retórica balofa.
Mas Cavaco Silva transmite também sinais correctos aos portugueses quando diz que não nos podemos resignar a ser os mais pobres da UE a 15 (número com tendência para aumentar) e que não devemos ter medo da globalização. Por muito que se fale na necessidade de mudança, muitos continuam a viver comprazidos no Portugal de hoje. Outros acreditam numa espécie de determinismo histórico que não nos permite ultrapassar a barreira dos 70% da riqueza média da União Europeia.
São também sinais positivos para a sociedade portuguesa os que resultam do percurso pessoal de Cavaco Silva. Este ainda nos faz acreditar que o mérito em Portugal também pode ser recompensado. A sua imagem de sobriedade, competência e honestidade são também um sinal muito importante para os portugueses.
Não será preciso ser economista para dar aqueles sinais aos portugueses. Mas será certamente uma vantagem ter formação económica para melhor compreender e transmitir os sinais de que Portugal precisa para se adaptar ao mundo em que vivemos.

As vantagens de saber economia (IV)

A economia e os economistas são muitas vezes mal tratados, não só por políticos humanistas, mas também por alguma intelectualidade portuguesa.
Em Portugal o economista ainda aparece associado ao especialista em finanças públicas. Essa associação resulta de aquela disciplina da economia ser, por razões bem conhecidas, das mais requisitadas na economia portuguesa. Aparentemente, ao fim de muitas décadas, de várias ocasiões de insolvência ou quase insolvência internacional e de muitas crises políticas, os políticos portugueses começam a perceber (não sem alguma pressão do exterior, diga-se) que o equilíbrio das contas públicas é uma condição necessária para o desenvolvimento.
Mas os economistas sabem que não é uma condição suficiente. E não há uma condição suficiente para o desenvolvimento dos países (lamento se desapontei alguém). Cavaco Silva sabe que é assim – a este propósito, ver post abaixo do Tiago. E explicar isso aos portugueses, isto é, que não há soluções mágicas para sairmos da cauda da Europa, será uma das funções mais importantes do Presidente da República. Saber economia só pode ser uma vantagem no cumprimento dessa função. Procurarei explicar porquê no próximo post.

O anti-ideólogo

O DN, numa referência a este blog, definiu Pacheco Pereira como um «ideólogo do cavaquismo» (link não disponível). Acredito que o jornalista em causa tivesse as melhores intenções e que o dístico encerre uma tentativa insuspeita de reconhecimento. Mas há um problema de fundo: considerar o «cavaquismo» uma ideologia quando um dos traços identitários da matriz política de Cavaco Silva é precisamente a ideia de um «anti-ideologismo». A própria imagem que Cavaco projecta, de competência técnica, gosto pelo rigor e pelas contas que batem certo, síntese geral de um pragmatismo judicioso, é radicalmente contrária a esta suposição.
Passo a explicar: Cavaco não foi e nunca será um político prêt-à-porter. Não traz soluções decoradas e coligidas em manual. Não tem cartilha nem anda com livros-de-bolso. Cavaco não é um ideólogo. As ideologias são por natureza perigosas. Quando os ideologues chegaram ao poder no séc. XVIII a guilhotina passou a decidir pelo Parlamento. Hoje já ninguém corre o risco de morrer guilhotinado mas as ideologias continuam perigosas. Tendem a cristalizar-se e a perpetuar o erro quando a acção política dos novos tempos vive fundamentalmente da capacidade de adaptação. Cavaco Silva sabe disso. Da mesma forma que o alfaiate que veste à medida, a cada problema concreto e singular deve corresponder uma solução conforme e actual. A política moderna não vive de uma solução ideal para os diferentes problemas que afectam as sociedades humanas. Não existem soluções ideais nem receitas a priori para todos os males do Mundo. Existem várias soluções, determinadas pelo tempo e pelas circunstâncias, e é o pulsar de cada momento que determina a orientação concitadora de esforços para o agir político.
A recusa das ideologias e do idealismo em geral é a atitude mais certa perante a ganância cega dos que querem acertar sempre. Não sou eu que o digo. É o século XX. E nestas eleições, Cavaco parece ter sido o único a perceber a moral da história.

terça-feira, novembro 15, 2005

Declarações de Voto (II)

A minha declaração de voto, por Rodrigo Adão da Fonseca

I. Numa sociedade como a nossa, excessivamente estatizada, um liberal que se preze vive em sistemático sobressalto, desassossegado com a desmedida concentração de poderes na esfera pública; neste quadro, a limitação do executivo é sempre um primeiro passo para a salvaguarda das liberdades. Hoje, o Poder está todo ele concentrado nas mãos de um pequeno grupo de pessoas que gravitam em redor de José Sócrates (que controla uma maioria absoluta no Parlamento, o Banco de Portugal, o Tribunal de Contas e diversas empresas públicas); neste contexto político, um voto liberal será aquele que permita evitar a parlamentarização do regime, isto é, a submissão ao executivo dos poderes presidenciais de fiscalização, moderação e arbítrio, tornando monocromático o exercício do Poder em Portugal.

Mário Soares é o candidato dos poderes concentrados.
Cavaco Silva é o candidato dos poderes limitados.

II. A atmosfera política e económica deixou de ser nacional; hoje, somos portugueses, sim, com orgulho da nossa língua, da nossa cultura, da nossa história e do nosso passado; mas se queremos respirar como Nação teremos de ser – rapidamente – cidadãos do mundo; capazes de acompanhar a complexidade, a mudança, de sobreviver neste ambiente global que diariamente se reconfigura, em que se vivem tensões e rupturas, onde é exigida uma forte capacidade de adaptação e criatividade. Características que sempre foram as nossas, mas que parecem estar adormecidas. Portugal precisa de um Presidente que seja capaz de acompanhar o novo ritmo dos tempos, que compreenda a globalização, os desafios e as oportunidades que ela representa. Portugal não precisa de um Presidente da República que esteja alienado da realidade, agarrado a velhos sonhos e a utopias ultrapassadas, tentando fazer renascer das cinzas a sua particular visão do mundo.

Cavaco Silva, de todos os candidatos, é aquele cujo perfil melhor se enquadra nas exigências deste novo tempo.

Mário Soares não tem o defeito da idade: a juventude pode viver-se até à morte; Mário Soares está cheio de vida, sim, mas quer viver de novo tempos passados, quando se sabe que o tempo não volta atrás.

Mário Soares pode dizer-se «Humanista», mas é o candidato da Saudade.
Cavaco Silva pode ser «Economista», mas é o candidato da Modernidade.

Declaração de Voto: Cavaco Silva pode não ser um candidato liberal; mas é o único que garante sem reservas uma efectiva limitação de poderes; é o que melhor compreende o mundo moderno, sendo o mais capaz para ajudar Portugal a alinhar-se na rota do progresso.


Rodrigo Adão da Fonseca

Pa bo entende me pala ba

Para Miguel Sousa Tavares, serão precisas todas as palavras para lhe explicar que não foi grande ideia recomendar a Mário Soares que ataque Cavaco Silva com base na performance económica dos seus governos.




Nota: PIPpc Portugal / PIBpc UE em Dez 1986: 55,5%
PIPpc Portugal / PIBpc UE em Dez 1996: 70,9% (Convergência com a UE: 27,8%)
PIPpc Portugal / PIBpc UE em Dez 2002: 74,4% (Convergância com a UE : 4,9%)
Desde o fim de 1999 que o crescimento da economia portuguesa é inferior ao crescimento da economia da UE15. Fonte: Eurostat

Questões moles, questões duras

Nestas eleições presidenciais há quem só se preocupe com aquilo a que poderíamos chamar as "questões moles", assentes em binómios de extraordinária relevância nacional tais como "fala/silêncio", "humanísticas/economia" ou "debates/monólogos". Ao lado destas "questões", porém, existem as verdadeiras, as "duras". Como as aqui enunciadas.

As vantagens de saber economia (III)

Manuel Alegre é um poeta, com grande cultura humanística, e não consta que, tal como Jesus Cristo, saiba de finanças. O que talvez explique o apoio que Mário Soares terá, inicialmente, manifestado à sua candidatura à Presidência da República.

A entrevista de ontem de Cavaco Silva à TVI já ajudou a perceber as vantagens de termos um Presidente que saiba economia. Voltarei a este tema no próximo post.