Pulo do Lobo

quarta-feira, novembro 16, 2005

So long, farewell, auf Wiedersehen, adieu

Ritmo de convergência para a UE:


(Clique para ver em detalhe. Gráfico por Abel Mateus, ISEGI-UNL)

É à volta da realidade que este gráfico espelha de forma simples que Cavaco tem centrado o seu discurso económico. Faz bem. Não sendo o único, ele é o mais importante desafio económico e político que o país enfrenta.

Porque é que ele é o mais importante desafio? E o que pode/deve fazer um Presidente face a ele? Duas boas perguntas para as quais ensaio duas respostas:

1. Se as economias de vários países forem genericamente iguais, à excepção do montante de capital disponível em cada uma, os países com menor dotação de capital terão taxas de crescimento da sua riqueza superiores às dos países mais ricos. A tendência de longo prazo é então para os países pobres igualarem os níveis de PIB per capita dos países mais ricos.

Esta evidência empírica, relatada em detalhe no trabalho do economista Robert Barro, torna a convergência um processo quase inevitável. Larry Summers, primeiro, e Rudi Dornbusch, depois, chegaram a apelidar esta constatação empírica de Barro como a "iron law of convergence". Nos países da OCDE, a aproximação para os níveis de riqueza dos países mais ricos pelos países menos ricos é de cerca de 2 a 3% ao ano.

Que Portugal tenha sido capaz de quebrar esta tendência de convergência acelerada ao ponto de atingir o actual estado de divergência diz bem do nível de erro em que incorrem as políticas adoptadas. É urgente a inversão dos factores estruturantes que determinam esta divergência e é de todo impossível que quem defenda como prioridade o crescimento económico venha insistir na defesa de políticas cuja natureza e resultados o gráfico tão cruelmente expõe.

Não é com agrado que vejo Portugal servir de exemplo para explicar como um país pode ser tão mal gerido ao ponto de quebrar de forma tão forte a tendência de convergência média expectável para um país OCDE.

Habituem-se, poderão dizer alguns, abusivamente citando António Vitorino. Talvez, mas a verdade é que quem nunca se desabituou do excelente ritmo de convergência nos tempos do pelotão da frente, do bom aluno da Europa, tem agora alguma dificuldade em resignar-se a servir de case-study contrário.

E quem leu e acreditou em algum panfleto desinformativo argumentando que a prosperidade desses anos derivou apenas da injecção de fundos comunitários, aconselho o seguinte: consulte o volume de dinheiro injectado via UE em Portugal nos anos em que a desaceleração e divergência aconteceram. Conselho adicional: esteja sentado.

Perder a ambição de alcançar o nível de vida que a Europa mais rica possibilita, de uma maneira geral, ao seus cidadãos, é a resignação à inviabilidade do projecto de Portugal como um espaço identitário com futuro. É a resignação à inferioridade.

E mesmo para quem não se importe especialmente com isso, a verdade é que a evolução esperada da globalidade dos indicadores económicos e financeiros aponta para a impossibilidade da manutenção do status quo tal como hoje o conhecemos. A não reforma não implica apenas a impossibilidade da melhoria. Implica a impossibilidade de manter o pouco que temos.

2. E onde entra um Presidente neste cenário? Entra num post amanhã.

4 Comments:

  • At 6:09 da tarde, Blogger Tiago Mendes said…

    Excelente, Manuel. Sobretudo a "gestão do leitor" com esse culminar no ponto 2. Diria mesmo que poderias esperar uns dias (ou deixar em aberto a questão) mas bem sei que a blogosfera não pára.

    Sugeria só uma coisa: que explicitasses o que são as percentagens do gráfico. Imagino que sejam as taxas de crescimento do PIB per capita face à média europeia, em percentagens e não em pontos percentuais.

    A minha sugestão seria mesmo que passasses a escala para a % do nosso PIB per capita relativamente à média europeia. TIpo de 60% a 70%, etc. Acho que fica mais claro. Melhor ainda, seria acrescentar a Espanha, Grécia e Irlanda... aí sim poderíamos ver o comboio a andar para trás.

    Abraço,

     
  • At 10:20 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    teste

     
  • At 11:55 da tarde, Blogger Arrebenta said…

    Metadiálogos de Boliqueime (XII)

    -- Ó, avó...

    -- Sim, meu amor?...

    -- Sabe o que aconteceu hoje no colégio?...

    -- Não, querido, conta lá à avó...

    -- Então, viraram-se para mim,e disseram: "és tu que és o neto do Cavaco, não és?..."

    -- E?...

    -- ... e...

    -- ... e tu disseste logo que SIM, que eras um dos netinhos do homem que pôs Portugal no Pelotão da Frente dos países da C.E.E., do homem que deu a Portugal a melhor rede de estradas da Europa, do homem que transformou cada português num licenciado, no homem que transformou a Agricultura, a Indústria e os Serviços nacionais num exemplo para toda a Europa, no homem que agarrou nos hospitais e fez deles centros de repouso e lazer, do homem que limou o peso do Estado até ele ter o peso de uma pluma, do Grande Timoneiro, do amigo dos mais desfavorecidos, dos que sofriam, dos que nada tinham, daquele grande homem que tributou as fortunas para que os miseráveis não fossem tão miseráveis, que impediu que houvesse sem-abrigo, desempregados, gente sem esperança pelo país inteiro, do homem que fez do urbanismo português uma regra mundial, do Exterminador dos Corruptos, do Caçador dos Não-Pagadores de Impostos, do homem que era capaz de mandar fechar um Banco para instalar lá um lar da Terceira Idade, do HOMEM que levou a Cultura Portuguesa ainda Além da Taprobana...

    -- Ai, não, vó, nada disso!!!...

    -- Então, amor?...

    -- (silêncio) ... eu disse que...

    -- ... que...

    -- ... que não conhecia, que era dos Cavacos, sim mas dos Cavacos de Fornos de Algodres... (chora) Ai, vó, eu tive tanto medo!... Se a avó visse o ar com que eles me perguntaram se era eu que era o netinho do Cavaco!!!!!!... (chora)

    (cai o "naperon")

     
  • At 4:29 da tarde, Anonymous LV said…

    A propósito de Fundos comunitários transferidos para Portugal:

    - 1º pacote (1989-1993): 9.400 M€
    - 2º pacote (1994-1999):17.600 M€
    - 3º pacote (2000-2006):22.800 M€

    Por períodos de governação, portanto (valores aproximados):

    - governos Cavaco Silva: 12.300 M€
    - governos Guterres : 22.795 M€
    - governos Barroso/Santana: 9.750 M€
    - governo actual (até 2006):5.000 M€

    Médias anuais por Governos:

    - Cavaco Silva: 1.230 M€
    - Guterres: 3.800 M€
    - Barroso/Santana: 3.270
    - Sócrates (22 meses): 2.275 M€

    Para os dados das transferências, ver site EUROPA: "The impact and added value of Cohesion Policy"

    Guterres dispôs assim de cerca de três vezes mais fundos comunitários, em média anual, do que Cavaco Silva!!!Quem ficou bem sentado?

     

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