Pulo do Lobo

quarta-feira, novembro 30, 2005

Pessoano e Transmissível

Embora por cá andemos a ler os Lusíadas - e a Odisseia -, assim preparando a sucessão do Prof. Cavaco, vale a pena lembrar que passam hoje 70 anos sobre a morte de Fernando Pessoa. Aqui fica um poema pessoano (descansem, não é o do Dr. Soares...), que aproveito para dedicar a adversários com sentido de humor.

CHUVA OBLÍQUA (III)

A Grande Esfinge do Egipto sonha por este papel dentro
Escrevo - e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides

Escrevo - perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Cheops
De repente paro
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egipto me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena

Ouço a esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do tecto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Cheops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso

Funerais do rei Cheops em ouro velho e mim...

3 Comments:

  • At 8:13 da manhã, Anonymous Para Sintra, no meu Cadillac said…

    Sentido de humor?!!
    Onde?! Onde?!...

     
  • At 3:10 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    'Cultura Geral':
    Tenho reparado que nesta pré-campanha se discute muito esta questão.
    Apenas queria fazer ver aos contendores que estão a combater numa 'guerra' do passado, de 'tempos que não voltam mais'.
    Com a queda do Muro e a 'explosão' das TIC na última década do século passado, que não são tão indissociáveis assim, 'um erro mudou de nome' - definitivamente.
    Um novo mundo começou a tomar forma, desde essa altura.
    Até pode ser que ele nada tenha de admirável - mas existe...
    E a cultura que tem de ser estudada e debatida é a desse mundo novo, e a que alguns até chamam de incultura...
    Mas será que assim fazem porque não conseguem adaptar-se, ou será incultura mesmo?
    Não tenho a veleidade de esgotar o assunto aqui e agora. Só quero 'mandar uma malha'...

     
  • At 10:54 da tarde, Blogger Pedro Picoito said…

    Ó Cadillac, leia outra vez, sff.
    Esfinge...
    Funeral do rei Queops...
    Got it?

     

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