Pulo do Lobo

terça-feira, novembro 29, 2005

Liberais e Crucifixos

É sempre assim: fala-se em laicidade e os órfãos da República vêm reclamar a herança. Fazem bem. Qualquer dia os revisionistas ainda se lembram de dizer que o Afonso Costa não foi o maior português desde Robespierre, e lá temos de novo a Inquisição, o Holocausto e o Bagão Félix no governo. Não pode ser. Desta vez, Pedro Adão e Silva acusa Cavaco de "iliberal" por este se mostrar "muito surpreendido" com a polémica dos crucifixos nas escolas e achar "que não é certamente este o problema que preocupa os portugueses".
Confesso que algo me escapa.
Em primeiro lugar, subscrevo as palavras de Cavaco - tal como faria se Soares ou Alegre afirmassem o mesmo. (A propósito, porque será que dois tão notórios republicanos ainda não se pronunciaram sobre a questão? Terão medo de perder votos?) Mais: como pai e professor, lamento profundamente que a educação só apareça na campanha para embrulhar um rebuçado que o PS dá ao povo de esquerda enquanto faz políticas de direita.
Depois, o "liberalismo" invocado é apenas uma das variantes históricas democracia, e nem sequer a de melhor memória - a jacobina. Há mais mundos além da França. Nos EUA e em Inglaterra podem ver-se crucifixos nas salas de aula. Em Cuba e na Coreia do Norte não. Qual dos regimes será mais liberal aos olhos de Pedro Adão e Silva?
Note-se que não estou a desvalorizar o "problema". Pelo contrário, acho que ajudará a distinguir (por exemplo, na blogosfera...) os verdadeiros liberais dos jacobinos. Mas a minha posição é a de Burke e Tocqueville, que viam a essência do liberalismo mais nas liberdades tradicionais dos indivíduos e das comunidades perante o Estado do que na defesa formal da liberdade em abstracto pela lei. Os pais e os professores de uma escola querem o crufixo? Deixe-se o crucifixo. Os de uma outra querem um retrato do Che Guevara? Dê-se-lhes o retrato. Os de uma terceira não querem nada? Nada, então.
Posto isto, também eu tenho algumas perguntas a fazer.
1 - Qual o direito, liberdade ou garantia que os crucifixos ameaçam?
2 - O que pensam Soares e Alegre do assunto?
3 - Porque não dá o Estado português às comunidades o direito de escolherem?
4 - Os partidários da regionalização não querem a descentralização educativa?
5 - Os defensores da autodeterminação dos povos não aceitam a autonomia das escolas?
6 - Os paladinos da liberdade não lutam pela liberdade de ensino?
São estes os "problemas" que me preocupam. Nas presidenciais e fora delas.

11 Comments:

  • At 7:17 da tarde, Blogger el__sniper said…

    Posso responder a algumas das tuas questões:
    1 - Qual o direito, liberdade ou garantia que os crucifixos ameaçam?
    Ameaçam o direito a um estado laico, a liberdade de religião. Não o crucifixo em si, mas amanhã quando uma comunidade muçulmana pedir que se instalem colunas de som no minarete da sua mesquita para q toda Lx oiça o chamar para a oração com q legitimidade tem de se indignar se defende o crucifixo nas escolas.
    2 - O que pensam Soares e Alegre do assunto?
    Não Sei.
    3 - Porque não dá o Estado português às comunidades o direito de escolherem?
    Porque isso implicava a escolha da maioria, as democracias não devem ser a tirania da maioria mas a pretecção da minoria. Imagine que numa escola a comunidade local votava maioritarimanete por por uma cópia do Mein Kampf em exposição permanente ...

    4 - Os partidários da regionalização não querem a descentralização educativa?

    Não. Eu não quero e sou pela regionalização (somos o país mais atrasado dos 15 e somos o único não regionalizado, somos mais espertos?)

    5 - Os defensores da autodeterminação dos povos não aceitam a autonomia das escolas?

    Autodeterminação dos povos significa que usem os seus recursos para se auto-sustentarem, as escolas usam os recursos de todos, se querem ser autónomas arranjem os seus recursos (nas privadas por mim até podem ter o Cristo a correr e aos pulos...)

    6 - Os paladinos da liberdade não lutam pela liberdade de ensino?

    Não. Lutam que o ensino ensine a liberdade e a tolerância, ver em http://blogdelsniper.blogspot.com/2005/11/liberdade.html que lutar pela liberdade todos lutam, depende é do que se tolera.
    exemplo: Proibo a escravatura.
    Não tolero que haja escravos, mas assim proíbo a existência de ter um escravo, ou seja proibe-se essa liberdade a alguém

     
  • At 2:03 da tarde, Blogger DCP said…

    Concordo plenamente com a retirada de todos os símbolos religiosos, sejam eles quais forem, das escolas e outros espaços públicos do estado.
    Agora, com tanto que tratar e resolver, não me parece ser esta, ou não o deveria ser, uma questão central do debate político em Portugal.

     
  • At 2:15 da tarde, Blogger zazie said…

    é, tesn toda a razão e já estava a ficar inquieta que com tanto lobo te esquecias dos cordeiros, ou ao contário...
    Mas deixa lá que parece que a ministra já fez um manguito aos sete ateuzinhos laicos, tadinhos... e olha que sete até é um bom quorum para um despacho resolvido em 6 meses...
    Mas pronto, devemos ser democráticos e tolerantes e pluralistas e ateístas laicos e tudo o mais e por isso o Cocanha já adoptou a mascote do "ateu desconhecido que trazemos dentro de nós". Espero que o Cavaco quando ganhar tenha em conta este esforço e o proponha como medidada politicamente correcta a colocar por cima do quadro das escolinhas primárias...

    beijocas

     
  • At 1:02 da manhã, Blogger Pedro Picoito said…

    Sniper, o crucifixo não põe em causa a liberdade religiosa de ninguém justamente porque não é obrigatório. E convém não confundir o Estado laico (ou seja, neutro em religião) com laicista (ou seja, adversário da religião). O exemplo do Mein Kampf não faz sentido porque a Constituição já interdita a difusão de ideias fascistas: não é preciso uma nova lei para isso. Mas é curioso que equipare os crucifixos ao Mein Kampf, enquanto não diz nada sobre o hipotético retrato do Che Guevara, símbolo de uma ideologia tirânica e responsável pela morte de milhõs de pessoas... Acho que percebi qual é a neutralidade do Estado que tem em mente.
    Quanto às escolas e aos "recursos de todos", também defendo que as escolas possam gerar as suas próprias receitas. Mas que tenham igualmente a liberdade de as usar com o mínimo de interferência do Estado. E que aqueles que preferem o ensino privado (por muitas razões, algumas óptimas) não tenham que pagar os impostos correspondentes ao sustento do ensino público. Não é isso a aiutodeterminação, pelo menos como a define?

     
  • At 1:03 da manhã, Blogger Pedro Picoito said…

    Olá Zazie! Já fui ver o Cocanha... dá-lhes!

     
  • At 8:07 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Enjoyed a lot!
    » » »

     
  • At 12:47 da tarde, Anonymous Anónimo said…

  • At 12:29 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Keep up the good work » » »

     
  • At 7:21 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Very cool design! Useful information. Go on! » »

     
  • At 9:54 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Best regards from NY! »

     
  • At 10:52 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Excellent, love it! » »

     

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