Pulo do Lobo

domingo, novembro 20, 2005

Diz-me com quem andas

Bem sei que as sondagens valem o que valem e que faltam dois meses para as eleições. Mas sei também que os políticos se guiam, mais do que ninguém, pelas sondagens. Ora as sondagens que têm vindo a público colocam um grave problema a Soares.

Soares não é hoje o candidato «transversal» que foi (em certa medida) em 1986 e (incontestavelmente) em 1991. Soares está numa situação desconfortável, em que se vê obrigado a lutar pelos votos da esquerda e do centro-esquerda. Mas, por culpa de Alegre ou do próprio, Soares está também numa situação que se pode caracterizar como, no mínimo, irónica - não consegue perfazer sequer os votos do eleitorado socialista fiel. E aqui coloca-se uma interessante questão estratégica: a gestão do grau de independência partidária da candidatura.

As intervenções dos últimos dias vêm sublinhar aquilo que já toda a gente devia saber: a candidatura de Mário Soares é embaraçosamente partidária. Num dia, Mário Soares perde-se em elogios a Sócrates e Guterres. No dia seguinte é a vez de Sócrates retribuir copiosamente, ao afirmar, entre outros recortes de antologia, que Soares esteve «sempre do lado certo da História». Por outras palavras, Soares namora os ícones do PS moderno, e o PS do momento namora Soares. Para que o eleitorado tradicionalmente socialista perceba que, apesar de devermos eleger para Presidente um candidato independente, tem mesmo é de votar Soares. Mais que isto, só fazendo o desenho.

Apesar de ter o apoio do PSD, a candidatura de Cavaco Silva não tenta fazer um aproveitamento político do facto. Nem o PSD se quer colar excessivamente à candidatura de Cavaco Silva. E o fundamental é que isto não acontece por uma questão circunstancial. Seria fácil a Cavaco colar-se ao PSD. Lembremo-nos que a popularidade do governo é fraca e que o PS acabou de sofrer uma pesada derrota eleitoral. A opção por uma marcada independência suprapartidária é tomada por meras razões de princípio e respeito pelo enquadramento constitucional. Claro que para os apoiantes do candidato que tem por hábito ostentar as insígnias do republicanismo, esta explicação é insuficiente. E logo avançam para as costumeiras teses do populismo e da tecnocracia. Nada que surpreenda.

2 Comments:

  • At 4:48 da manhã, Blogger Pedro Robalo said…

    Li agora no Abrupto um texto de JPP que versa o mesmo assunto, embora expresse opinião diferente:
    http://abrupto.blogspot.com/2005_11_01_abrupto_archive.html#113248553891070576

     
  • At 6:19 da tarde, Anonymous Luís Mota said…

    Dizer que o Mário Soares costuma perder-se em elogios ao Guterres é ser ignorante ou estar a dormir.

     

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