Pulo do Lobo

quinta-feira, novembro 10, 2005

O "político profissional"

1.
Aceitamos muito facilmente que os termos da linguagem da democracia são os da tradição da Revolução Francesa e do iluminismo. Compreende-se, estão mais próximos da nossa tradição filtrada pelo republicanismo e pela oposição ao Estado Novo, que é dominante no nosso vocabulário. Mas as palavras têm história e transportam ideias, não são unívocas. No vocabulário político anglo-saxónico as mesmas palavras tem outro sentido e outra tradição.

2 .
A ideia da política como actividade total, que está implícita no pressuposto da cidadania, deriva dessa tradição do político como cidadão, fazendo política como quem respira, subsumindo todas as dimensões da “felicidade terrestre” que, desde a Revolução Francesa, é o objectivo da política. Mário Soares (como Alegre, mas já não como Louçã ou Jerónimo que remetem para outro universo político mais teleológico) representa bem esta tradição e é natural que se apresente como “político profissional” neste sentido e não compreenda que outros não o possam ser. Para ele, o exercício da cidadania não tem hiatos, nem está para além de nada, é a vida no espaço público da cidade.

3.
Mas há outra dimensão da política, assente em outras tradições, que consideram que a acção cívica (a intervenção política) é apenas uma parte limitada da vida, a que se acede mais por emergência do que por normalidade. Outros valores, como o do trabalho como instrumento de realização, ou da procura da “riqueza” no sentido weberiano da tradição protestante, partilham com a acção política a totalidade da vida. Na tradição do personalismo cristão é bem claro que nem tudo se subsume na política , e que há dimensões meta-políticas da vida que tornariam impossível, ou improvável, ou incómodo que alguém dissesse que era “político profissional” sem se sentir reduzido no seu ideal de vida.

4.
Cavaco não sabe de filosofia, como disse Mário Soares. Talvez. Mas já o vi discutir esta questão quando no PSD se fez a revisão do Programa, exactamente nestes termos que acima expus na parte relativa ao sentido da “dignidade” da pessoa humana, que nesse Programa tem como fonte o personalismo cristão e não a tradição republicana e jacobina. Cavaco não só participou com minúcia, como, quando se sentia não preparado perguntava sem complexos. Uma coisa não esqueço, em toda a discussão destes pontos e doutros conexos, como o da laicidade do partido (que Cavaco defendeu e bem), manteve sempre uma grande atenção nas muitas horas que durou a discussão. “Tecnocrata”? Duvido, interessava-se com genuína curiosidade.

3 Comments:

  • At 9:07 da tarde, Blogger FNV said…

    Exacto. Como Aron leu, e bem, Weber demonstrou que a oposição entre a explicação pelo interesse e a explicação pelas ideias é despropositada, porque são precisamente as ideias que governam a percepção que cada um de nós tem dos seus interesses: o próprio comportamento económico é função de uma visão geral do mundo.

     
  • At 11:49 da manhã, Anonymous Luis M. Jorge said…

    Depois de ler o seu post, o professor Cavaco Silva há-de sentir-se como aquele homem que se admirava por escrever "prosa" de cada vez que pegava em papel e caneta.

    Já estou a imaginar o seu candidato à hora da refeição, num pequeno diálogo doméstico, provocado pela leitura deste blog:

    - Querida...
    - Diz, Aníbal.
    - Lembras-te quando eu disse àqueles malandros dos jornalistas que não era como aqueles malandros dos políticos?
    - Claro que lembro, amor. Olha, come mais esta fatiazinha de bolo rei...
    - Obrigado... Pois hoje mesmo fiquei a saber pelo Pacheco Pereira que...
    - Esse Pacheco não era deputado?
    - Sim, mas nunca foi malandro, como os outros que andam por lá. Fez uma grande biografia do doutor Álvaro Cunhal.
    - Ah, o doutor Cunhal! Um grande homem...
    - Pois hoje eu percebi porque é que embirro solenemente com aqueles malandros todos. É porque eles fizeram a Revolução Francesa e o Iluminismo, enquanto eu...
    - O Doutor Soares?! Não sabia que ele era tão velho...
    - ...enquanto eu, procurei a política como complemento da riqueza, ou melhor da "riqueza", no sentido weberiano da tradição protestante.
    - Ó Anibal mas nós somos católicos, não somos?
    - Sim, filha, mas o personalismo cristão também concorda comigo.
    - O senhor Bispo tem sido muito simpático para a nossa candidatura...
    - Eu tenho uma dimensão meta-política, enquanto o doutor Soares é teleológico.
    - Não, Anibal, o doutor Soares é ateu... Agora a doutora Maria Barroso, talvez...
    - O Pacheco explicou tudo muito bem. E até pusemos isso no programa do PSD.
    - Mas Anibal, nós não somos independentes?
    - Somos, querida. Dá-me mais uma fatia, por favor.

     
  • At 12:38 da tarde, Anonymous André Militão said…

    LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

     

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