Pulo do Lobo

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Presidente Cavaco

Dez anos depois, no passado domingo, Aníbal Cavaco Silva desceu as escadas do número 13 da Travessa do Possolo como Presidente eleito de Portugal. A sua eleição teve um significado pedagógico importante. Cavaco sofreu uma derrota e não desistiu. Esperou metodicamente por esta vitória. É curioso que tenha sido um homem da não esquerda a dar este exemplo de paciência democrática. A sua eleição pôs termo à falaciosa e fantasiosa ideia de que determinadas funções do Estado têm donos. Não têm. Têm eleitos. Todavia há sinais de que muita gente persiste em não deixar entrar o mundo na sua formosa cabeça. Ilustres catedráticos falaram em “despromoção” do lugar presidencial, anónimas e semi-anónimas luminárias abespinharam-se contra o “rústico” vencedor e o conselheiro Acácio de Mário Soares, Vitor Ramalho, chegou mesmo a afirmar que os portugueses se enganaram na análise da realidade. Ouve-se isto e percebe-se, pelo menos parcialmente, por que Soares acabou como acabou, às mãos do seu equívoco político e dos seus cortesãos. A vitória de Cavaco foi a derrota deste insuportável paternalismo jacobino e dos propósitos de infantilização do eleitorado através das ameaças, dos sustos e dos insultos. A sobranceria das esquerdas acerca de tudo e de todos, particularmente em matéria de subtileza "cultural", teve a resposta que merecia. E o voluntarismo revanchista de outros, tais como Santana Lopes ou Miguel Cadilhe, também. Quatro criaturas fizeram do combate a Cavaco Silva o respectivo programa de candidatura, alternando apenas no primarismo, na "imaginação" e no "tempo" de apresentação desse programa. Muitas vaidades e muitos preconceitos foram ultrapassados no domingo. Numa eleição presidencial, perde-se ou ganha-se absolutamente. Cavaco ganhou absolutamente. Todos os outros perderam absolutamente.


Adenda: Publicado no Independente. Esta prosa encerra a participação no Pulo do Lobo. Missão cumprida.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Para discutir

O aspecto mais lamentável da noite eleitoral é o resultado de Manuel Alegre. Eu sei que a direita está quase toda radiante com a humilhação de Soares. Mas a humilhação de Soares é preocupante para o candidato e para o seu partido. O resultado de Alegre é preocupante para o país.

Um milhão de votos premiaram o pior dos seis candidatos, o mais impreparado e o menos alicerçado num projecto coerente. Alegre avançou por orgulho ferido e pouco mais. Demonstrou uma aflitiva falta de conhecimento de todas as matérias. Nem sequer sabia ao certo como tinha votado certas leis. E fez uma campanha que reuniu o pior da direita (o tradicionalismo bacoco) e o pior da esquerda (a retórica grandiloquente). (...)


Pedro Mexia

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Um desejo

Gostava que o Pulo do Lobo estivesse "em linha" até ao dia 9 de Março. Foi para esse dia que ele foi criado.

A Esquerda não aprende

Lido Vital Moreira ou Vicente Jorge Silva, cheguei à conclusão, que algumas pessoas precisam mais que recordem o seu passado do que serem informadas sobre o que acontecerá no futuro.

Uma esquerda que olhando para os factos os distorce propositadamente esperando que quem os leia confunda o conhecimento de um assunto com o facto de ouvir falar nele. Não é a mesma coisa e nada tem de novo, é receita velha.

Os factos são claros, a vitória de Cavaco Silva foi enorme, com uma diferença de 30% para o candidato Manuel Alegre. Procurar confundir este simples facto com a obtenção de uma maioria à primeira volta de apenas de 0,6% é a prova de que a esquerda não aprendeu nada.

Não aprendeu a diferença entre ser crédulo e estar ao serviço de uma causa. Até nisso falharam. É quase comovente verificar a forma como pintaram o mundo para o adaptar aos seus próprios preconceitos. Mas o mundo é real e já tem outras cores.

Curioso, ver o uso da noção de aristocrata, no seu verdadeiro sentido, ao nome de Sampaio, já que o seu uso não é aqui mais do que uma avaliação de competência. O bom uso do poder.

Jorge Sampaio foi um Presidente que dificilmente será recordado para além do seu último ano de mandato. Vital Moreira considera Sampaio um exemplo do bom exercício do poder? Não, confunde.

Vital Moreira não sabe o verdadeiro sentido de aristocrata, confunde com o costumeiro preconceito de esquerda sobre a noção e a prova de tal confusão está na sua apreciação sobre a falta de cultura que ele adivinha em Cavaco Silva e a comparação feita com os seus antecessores.

Tal como a esquerda derrotada, retiram-se das palavras de Vital Moreira ou Vicente Jorge Silva o que realmente os apoquenta, a ofensa que a eleição de Cavaco Silva causa aos seus delicados e empinados narizes.

Esta gente não é de esquerda é snob.

(publicado na Razão das Coisas)

Sacudir a Água do Capote

Não venham dizer que a culpa é de Manuel Alegre.
Mas será que ainda não perceberam que sem Alegre, do milhão de votos "descontentes", muitos passavam directamente para a abstenção, e até alguns para Cavaco Silva.
Sem Alegre, em vez dos 0,6% ganhávamos por muito mais de 6%.
Este não era o tempo de Mário Soares.
É o tempo de Cavaco Silva.
Espero que seja o tempo de Portugal.
Até sempre.

terça-feira, janeiro 24, 2006

O PdL e a Vitória

Dear dead Victoria
Rotted cosily;
In excelsis gloria,
And R. I. P.*



Foi uma grande vitória, uma senhora vitória, mas, tal como a senhora do poema, ela pertence já aos livros de história. O tempo não está para festejos, e o que aí vem é tudo menos fácil. Espera-se agora do Presidente Cavaco que acrescente em qualidade o que mais nenhum dos outros candidatos poderia acrescentar de igual ou de todo. É este o seu mandato, ou pelo menos foi nesta base que lhe conferi o meu.


Do Primeiro-Ministro espera-se que continue a governar com a legitimidade de sempre, e que tenha a sabedoria de capitalizar os seus dois agentes políticos mais potenciadores de reformas da actualidade: o Presidente Cavaco e o Pacto de Estabilidade. Desperdiçar os dois é atirar-nos com mais força para o lugar onde neste preciso momento ainda caminhamos: o fundo da Europa dos pobres.


Do Pulo do Lobo espera-se que se sente à mesa, não sem antes agradecer publicamente ao Pedro Lomba pelo convite e pela criação do blogue, e ao Tiago Geraldo, o Alexandre Relvas deste blogue.


Um abraço para todos.


(* Excerto de poema de Dorothy Parker)

Presidenciais 2006: Cheques e Balanços

E prontos: Cavaco está em Belém. Seguem-se os cheques e balanços da campanha.
O primeiro cheque vai para o Pedro Lomba, o nosso demiurgo. Quem não souber o que significa demiurgo, pode perguntar ao dr. Soares.
O segundo cheque vai para o Super-Mário, que nos deu sempre um belo troco e agora os parabéns como vencedores. (Embora eu não me sinta um vencedor. Pelo contrário: no Domingo, perdi a oportunidade de dizer mal do Presidente nos próximos dez anos.)
O terceiro cheque vai para o próprio Cavaco, o melhor pretexto para fazermos um blog. Ainda não percebi se ganhou as eleições ou não. Por enquanto, tenho a impressão de que foi o Alegre.
O quarto cheque vai para Vital Moreira, que me ajudou a perceber finalmente quem tinha ganho. Foi mesmo o Cavaco - com a menor margem de sempre em todas as presidenciais. (Ele diz isto só para retirar essa pequena glória ao dr. Soares.) O comissário Vital merece ainda o afecto de todos os cavaquistas porque vai preparar, durante os próximos anos, as comemorações do centenário da República... com o nosso candidato na Presidência.
O quinto cheque vai para Santana Lopes. O seu desapoio garantiu-nos a vitória à primeira volta. Na semana em que ele não foi à televisão dizer mal do Professor, descemos dez pontos nas sondagens.
O sexto cheque vai para o bom povo de Casas Novas (Soure), onde tivemos 100% dos votos. Para Covão do Lobo (Aveiro), com 93% de votos cavaquistas, segue a óbvia proposta de geminação. Quanto a Campo Maior, o único concelho que deu a vitória ao dr. Soares, estamos a tratar do decreto que rebaptiza a cidade de Campo Grande.
O sétimo cheque vai direitinho para o eng. Sócrates, que conseguiu arranjar dois candidatos do PS, lançá-los um contra o outro, impedir a aliança da esquerda, atrair o ódio de Jerónimo e Louçã, não dizer mal de Cavaco, quase não participar na campanha de Soares e tirar Alegre do ar na noite das eleições. É obra. Sobretudo de muletas.
Nos balanços, direi só que a campanha de Cavaco foi a melhor. Muita gente dirá que não, que o homem não abriu a boca, que não disse nada, que não teve ideias, que perdeu os debates. Mas ganhou as eleições. Logo, a campanha do homem foi a melhor.
Daqui a cinco anos há mais. A quem me convidou, a quem me acompanhou, a quem me leu, a quem me comentou e a quem se deu ao trabalho de discordar de mim - muito obrigado.

Ganhámos

Mário Soares pediu por eleições limpas e o pedido foi atendido. Maioria absoluta à primeira. Foi limpinho. Resta-me dar conta do orgulho que sinto por ter feito parte do PdL, o blog que, numa campanha raramente centrada na substância, manteve a calma, o humor, a civilidade e, pese embora as muitas provocações, não ousou nunca puxar do Rui Mateus. Como diz o poeta Dias Loureiro, rompemos a bruma, saltámos o muro e fizémos um Portugal Maior. Agradeço, como é óbvio, ao Pedro Lomba o convite para integrar - nas palavras de Jorge Madeira - "este magnífico projecto castanho".

Marquem lá a jantarada.

Antes da despedida, fica a publicidade institucional.

Até 2011

Pela minha parte, a minha participação neste blogue termina aqui. Foi a primeira vez que apoiei empenhadamente um candidato presidencial e a primeira vez que integrei um órgão político de uma candidatura. Tive muito gosto nisso. Aprendi alguma coisa. Não foi o cavaquismo que ganhou estas eleições. O que acabou por pesar foi algo infinitamente mais simples: o cargo de Presidente da República deve ser reservado aos melhores. O melhor era inequivocamente Cavaco Silva. Fizemos o que devíamos fazer. Podemos dormir bem. Um abraço a todos.

Nada será como dantes

Um dia ainda se irá escrever sobre a importância dos pulo lobistas para o sucesso desta eleição. Não foi só Manuel Alegre que criou um movimento cívico. Este blogue, meus amigos, foi um movimento cívico. Não foi só Manuel Alegre a deixar um aviso aos partidos. Este blogue foi um aviso aos partidos. Em três meses ultrapassámos as cem mil visitas. Quase todos os nossos posts foram comentados e alguns até copiados. Se nos perguntarem o que faremos nós com as nossas cem mil visitas e com os nossos posts comentados, eu respondo que o mesmo que fará Manuel Alegre com o seu milhão de votos: nada. Não vamos fazer nada. Mas que não haja dúvidas que este blogue lança um movimento, uma esperança, um caminho. Há qualquer coisa aqui a germinar. Esperem que nós avançaremos. Fomos nós que retirámos a Manuel Alegre as décimas que o afastaram da segunda volta. Fizemos a diferença. Cada post deste blogue multiplicou-se em votos nas urnas. O Pedro Picoito, que escreveu sozinho mais do que todos juntos, foi o nosso cacique eleitoralista. Agora, é tempo de reflectir. Vamos reflectir. Mas não vamos reflectir por muito tempo; vamos só reflectir um bocadinho, talvez hoje, talvez amanhã. A seguir vamos agir. Mas lentamente, para as mudanças não serem muito bruscas. Isto é um aviso.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

O povo lê as Farpas

«Temos ouvido cantar a democracia, berrá-la, soluçá-la: é tempo de a vermos demonstrar. Deixemos no bengaleiro a nossa perpétua inclinação nacional de escutar odes - e entremos só com a tendência humana de resolver problemas».

Eça de Queirós, Maio 1871.

Um abraço e muitos parabéns a todos os que por aqui escreveram. Um cumprimento especial ao Pedro Lomba, que teve a ideia deste blog, a quem aproveito para agradecer o convite e o privilégio de integrar esta equipa tão especial.

Oooops, he did it again

Vital Moreira, em 2004, durante a campanha presidencial americana:

«Perante a patente superioridade do candidato democrata, os eleitores norte-americanos serão estúpidos



Suponho que hoje, depois da despromoção, a maioria dos portugueses que ontem votaram são estúpidos como os Americanos.

Meus caros, ainda Cavaco não tomou posse e já estamos de novo em rota de convergência!

Causa não só deles como extraordinária

Tinha decidido, agora que tudo está decidido, não escrever uma só mais linha no blog. Mas a leitura dos últimos comentários de Vital Moreira no blog "Causa Nossa" obriga, com grande espírito de dedicação à investigação científica, a abrir uma excepção. Se querem saber como se pode reconstruir a realidade a partir do mais profundo mergulho na irrealidade, vão lá. É um case study dos bons. Dos bons? Dos melhores.

Contamos contigo, Cavaco Silva

Mesmo sem citroen, já temos o nosso homem em Belém.
O mais díficil começa agora.
Viva Portugal!

Ilações e elações

Eis que chega o dia da reflexão. Sobre os resultados, sobre os vencedores e sobre os vencidos.
Em primeiro lugar, o resultado. O dia de hoje é um dia histórico, por variadíssimas razões. A primeira das quais será Portugal ter elegido, pela primeira vez na sua história democrática, um Presidente não proveniente da área da esquerda. Não por uma questão de mero orgulho clubístico, mas porque hoje se inicia um novo ciclo político em Portugal. Com consequências visíveis, e de efeito crucial, no longo-prazo. Ao longo dos meses que antecederam a eleição, foi tentação fácil crer que a vitória estava perto e que era acessível. A noite eleitoral suada a que assistimos demonstrou o contrário: eleger um candidato contra o qual todos os outros se mobilizaram e contra o qual todos os argumentos, dos mais plausíveis aos mais rasteiros, foram esgrimidos, demonstrou ser uma tarefa hercúlea. Só agora nos é dado perceber o porquê da espartana campanha de Cavaco Silva, que não enstusiasmou pelos argumentos (ainda que tenha sido a única a apontar as linhas de rumo essenciais) e que não se recorreu daquilo que tantas vezes poderia ter feito, dizendo as coisas preto no branco. O planeamento estratégico da candidatura de Cavaco Silva foi arguciosa, e os dividendos chegaram na altura certa. De se lhe tirar o chapéu.
O grande vencedor da noite, sussurrou-me o senhor de la Palisse, foi ele mesmo, Cavaco Silva. Penso que o país escolheu um grande Presidente da República. Alguém que está sensibilizado para os grandes desafios que se avizinham. Alguém que tem uma posição descomplexada e pragmática quanto à posição que Portugal tem a ocupar no quadro internacional. Um político razoável e potencialmente catalisador das decisões políticas que teremos impreterivelmente de tomar. Mas também alguém dotado do bom-senso necessário para intervir construtivamente quando estas se afastarem daquilo que é o interesse nacional. Para além de todas as outras qualidades mencionáveis, há em Cavaco Silva uma pose de estado serena e discreta, como convém ao magistrado máximo da Nação.
Em relação aos vencidos, poucas palavras a proferir. Manuel Alegre é, tão somente, um putativo vencedor da noite. A retórica do movimento de cidadania, fora dos partidos, é, de todo em todo, uma tremenda inanição. Sobretudo se tivermos em conta o profundo oportunismo da coisa, em nenhuma medida atenuado pelo passado ultra-partidário do próprio. Com Alegre, a esquerda moderada não ficou apenas dividida - ficou desencorajada.
Mário Soares é, indubitavelmente, o grande derrotado da noite. Não tanto pela percentagem que os anais hão-de registar, mas mais pela autista, cega e arrogante caminhada que o conduziu a este resultado. O capital político de Soares, acumulado ao longo das décadas do Portugal democrático, não sofrerá danos de maior. Desaparecerá, porém, a aura mística do decano-mor da democracia, da qual a esquerda faz recorrentemente alarde exagerado. Soares é fixe e será fixe para todo o sempre. Um neologismo vago como epíteto não é o máximo que se pode ambicionar.
Para Louçã e para o Bloco, este foi o final de um ciclo. O partido é jovem e não descola do seu pendor volátil. O futuro é uma incógnita. Louçã mostrou-se um político com profundos conhecimentos na discussão das matérias fundamentais. No entanto, o seu modelo de discurso, entre o radicalismo beato e a moral de pacotilha, que tornou em grande parte possível o espantoso crescimento eleitoral do Bloco, está irrevogavelmente esgotado.
Jerónimo, o outro candidato apropriadamente apelidado de tribunício, sai reforçado e com ele o Partido Comunista. Desenganem-se aqueles que viam em Jerónimo o líder que afundaria, a prazo, o PCP. O prazo é bem maior do que possamos julgar. O PCP continua e continuará a ser opção. Mas há muito que deixou de ser solução.

Posto isto, resta-me rematar com um that's all folks, como diz a bonecada da televisão. Amanhã é um novo dia. O futuro a Portugal pertence.

P.S. - Mesmo para finalizar, uma palavra de inteiro reconhecimento ao Pedro Lomba, que teve a coragem e o discernimento de reunir esta equipa all star. Parabéns a ele, a todos e a cada um.

Durmam descansados



Valium, Lorenin & Mandrax. Eram estes os principais financiadores da candidatura de Cavaco. Percebe-se porquê.

Um abraço

Ao Pedro Lomba, que teve a ideia do blog.

Tontices que se desvanecerão

Uma. A das gentes que nunca foram, de perto ou de longe, "de esquerda", antes do 25 de Abril - tendo idadíssima para o ser -, e que não votaram em Cavaco porque é "de direita". Que quem o foi e sofreu, de maneira vária, com isso, possa votar hoje em dia Cavaco, não lhes diz nada.
Duas. A das pessoas que, com a costumeira tontice, inteligentíssimas que sejam, acham, só se dando conta muito vagamente do que dizem, que Cavaco não tem "classe" para dar de nós "boa imagem" no "estrangeiro". A intrínseca e radical parolice da coisa (que eu tive que aguentar em conversas telefónicas respondidas à bruta) suavemente eclipsar-se-á. Até a parolice de esquerda - mesmo quando não é intrinsecamente de esquerda - é biodegradável.
Juro que estes problemas não pesarão muito ao nosso próximo Presidente da República.

domingo, janeiro 22, 2006

«Quem é este tipo?» *

É o Presidente da República.



* Dr. Mário Soares, depois da vitória de Cavaco no Congresso da Figueira Foz.

Mesmo sem Citroën



Chegámos lá.

Missão Cumprida

Parabéns a Todos.

Eurosondagem

Quero tudo menos dizer que o funcionamento da "Eurosondagem" seja esquisito. Mas que a coisa, comparada com outras empresas, no que diz repeito à relação Alegre/Soares, falhou redondamente - falhou. Deve ter sido só azar, ou critérios, ou outra coisa assim. Mas é estranho - "estranho" no sentido da incoincidência entre a expectativa e a realidade -, de qualquer maneira.

Coisas óbvias

Cavaco Silva mereceu inteiramente ganhar. As contas vão-lhe ser pedidas dia sim, dia sim.
A derrota do corrente magnata da virtude (Louçã), a par da de Soares, é de sublinhar.
Uma coisa que, de uma forma ou de outra, deve ficar associada à substancial derrota de Mário Soares, e que os media tenderão fatalmente a subestimar: o seu formidável esquerdismo dos últimos anos (desde, pelo menos, o 11 de Setembro). Mesmo aí (em relação a Israel, por exemplo), ele falava (contentísssimo) para um pequeno grupo.
Secundariamente, a conversa sobre o "homem de outros tempos" falha tudo na realidade. O problema de Soares não foi o de pertencer a tempos melhores, ou mais sofisticados: foi o de ter errado sem apelo nem agravo. O que é perdoável, mas não justificável daquela maneira.

Hoje não há trânsito na Av. Liberdade

Cada voto conta

Apetece-me, hoje, agradecer a Cavaco Silva, a Mário Soares, Manuel Alegre, Jerónimo de Sousa, Louçã e Garcia Pereira pela excelente oportunidade para perder a pinha com quase todos, discutir pormenores, no fundo e como Churchill, prever as desgraças que advém da eleição do nosso adversário para depois explicar porque é que elas não sucederam. Desde cedo achei que o meu candidato era e é o homem certo para o lugar, como eu, acha que é melhor garantir que se saiba hoje de economia para que os nossos filhos se preocupem mais tarde com o seu curso de pintura abstracta.

O meu voto não é segredo, nem a minha ambição para o dia de hoje.

No entanto, há que tirar o chapéu às marionetas que, abusando da paciência de um santo, se desunharam para tornar este debate mais vivo e interessante.

Resta-me dizer a todos os que porventura lerem isto e ainda não votaram para se levantarem, sacudirem a preguiça e eventual desinteresse. Se não querem saber quem nos representará a todos nos próximos anos, levantem-se na mesma e vão lá mostrar esse desinteresse.

Cada voto conta.

sábado, janeiro 21, 2006

De uma vez por todas

Sucumbo à tentação do ilícito para declarar, a plenos pulmões, o meu sentido de voto: Cavaco à primeira.

Cavaco à primeira - 2

A lei fez-se para também ser violada. Sobretudo quando não tem razão de ser e trata os cidadãos eleitores como menores de idade. Assim sendo e tal como o Pedro Lomba, fica feita a declaração de voto: Cavaco à primeira.

Fui ao Comício do Cavaco

Sendo hoje dia de reflexão, vou contar-vos o comício do Cavaco ontem à noite. Comício e reflexão são incompatíveis. Além disso, quando entrei no Metro apinhado de malta rumante à noite na Expo e tentei dizer aos dois herdeiros onde íamos, uma discreta mas incisiva pressão nas costelas acabou-me com a campanha: "Barracas é que não!" Esqueci o Cavaco, claro. Na minha família, as mulheres são sempre mais práticas.
Entrados no Atlântico, deparámos com várias bichas/filas/linhas humanas de orientação indefinida, correspondentes a outras tantas portas. A tranquilidade reinava (o povo cavaquista é sereno). Só havia dois problemas. Primeiro: ninguém sabia onde começava ou acabava cada uma das ditas. Segundo: para quem não participava no jantar, as portas só abriam às dez. Ficámos à espera no meio do já jantado povo cavaquista, enquanto o Pedro dizia que queria ver "o Cavaco Sílvia" e a Leonor perguntava pela porta que dava lá para baixo (nesta família as mulheres são sempre mais práticas). De guarda, alguns JSDs e respectivas JSDeias mostravam a sua vontade de trabalhar pelo futuro da pátria - despachando energicamente sucessivas cervejolas. Aí pelo quinto copo, perdão às dez em ponto, umas meninas com ar profissional, de certeza não pertencentes à JSD nem preocupadas com o futuro da pátria, abriram as portas. As bichas/filas laboriosamente esculpidas durante uma hora desvaneceram-se de imediato, e entrámos todos ao sereno molho.
Lá dentro, a luta de classes em versão cavaquista: o povo jantador estava em baixo e povo não jantador em cima. A Kátia Guerreiro subiu ao palco e os dois povos uniram-se. Bela voz, sim senhor. "Isto é que a outra não faz...", disse eu para quem quis ouvir. Um velhinho dado ao fado, mesmo atrás de nós, concordou em absoluto. O speaker falava em pátria, portugueses, Portugal de lés a lés, os nossos valores, os nossos filhos, pátria, portugueses, Portugal, os nossos valores... Lembrei-me, de repente, porque é que tinha deixado de ir a comícios.
Temi o pior quando o Tiago Bethencourt, dos Toranja, conseguiu pôr meio Atlântico a cantar aos berros "e a folha de papel é a minha bola de cristal/ onde te pinto nua/ nuuuuuuuuua/ numa chama/ minha e tuuuuuuuuua..." Mas não aconteceu nada a ninguém e, se acontecesse, o Prof. Lobo Antunes estava lá.
Seguiu-se a apoteose com a Isabel Silvestre: "Ó Rama ó que Linda Rama" entoado, com segunda voz e tudo, por vinte mil cavaquistas. Ainda pensei que muita gente não iria gostar porque o Cavaco não é alentejano, mas, quando vi o velhinho do fado eufórico, confesso que prometi a mim mesmo não ler o Mário Mesquita nem o Vital Moreira este Domingo.
Entretanto, o povo e o Pedro gritavam furiosamente "Cavaco à primeira", pressentindo o grand finale. A Leonor adormeceu ao meu colo (as mulheres da família são sempre mais práticas) e no fim falou o Cavaco. Mas isso já não posso contar porque estou em reflexão.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Cavaco à primeira

Num mês absurdo de trabalho, que me fez faltar a tudo o que foi campanha, rua ou comício, quero deixar aqui uma simples declaração de voto: Cavaco à primeira.

Quem ganha?

Declaração de Voto

por Carlos de Abreu Amorim

No Domingo vou votar porque sou republicano. Não quero deixar nas mãos do fado ou da (má) sorte a escolha do titular do mais alto órgão de soberania do meu país.No Domingo vou votar Cavaco Silva.Não porque me reconheça cabalmente naquilo que a sua candidatura defende - não sou social-democrata e nunca fui "cavaquista". Mas, em Democracia, é difícil, até desrazoável, pedir a qualquer eleitor uma identificação completa com uma proposta política.Os demais candidatos, afinal, nunca o foram. Perderam-se em tricas de partidos, desbarataram toda a campanha em afrontas inconsequentes. Falaram sempre de si, dos seus interesses e dos seus partidos, esqueceram os problemas concretos das pessoas.

Cavaco Silva tem as qualidades pessoais e políticas essenciais para ser um excelente presidente da república. Tem a experiência, os conhecimentos e a personalidade, desejáveis. Foi - hoje é inegável - o melhor primeiro-ministro que Portugal conheceu desde o 25 de Abril. Num momento de crise profunda, em que a identidade e o futuro do país são quotidianamente postos em causa, Cavaco Silva emerge bem acima da endémica mediania dos nossos políticos como alguém capaz de emprestar robustez e optimismo a esta nação demasiado acabrunhada.

Domingo vou votar Cavaco Silva porque estou farto de ver medíocres em lugares que nunca mereceram.Domingo vou votar Cavaco Silva porque não quero que os homens e mulheres da próxima geração me acusem de não ter feito o que estava ao meu alcance para lhes melhorar um pouco o caminho.

Carlos de Abreu Amorim

Reflexão em Ranholas (não se pede nada aqui, exige-se!)

Escrevo, apesar de tudo, consciente de que, se em Castanheira de Pêra há gajos que não são capazes de fazer um passe de jeito, existem em Ranholas laterais capazes de fazer um cruzamento decente e que torne inteligível, para comuns mortais, o que certa gente tem a mania de complicar.

Enfim, a intenção é boa mas peca por ser escrita por quem só percebe metade da estratégia.

Sendo certo, certíssimo mesmo, que o Dr. Mário Soares se meteu numa alhada, é absolutamente errado que o ‘cavaquista’ se assemelhe à tentativa do Professor em não se rir. Sim, tentativa. Convenhamos que não faltam razões para o Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva se rir. Mas não faz e bem. É muito feio rir da desgraça alheia, sobretudo quando essa desgraça não é mais que o efeito lógico da estratégia do senhor Professor.

Como o seu histórico homónimo em Cannae, este nosso Aníbal sabia sobre os seus adversários umas coisitas importantes. A primeira coisita, era que todo o exército de esquerda é muitíssimo disciplinado, independentemente dos chefes, estavam todos unidos em torno de um objectivo e para tal esperariam até ao último segundo uma brecha no exército de Aníbal. A segunda coisita, era que a esquerda anda a exigir acção desde que percebeu que o Senhor Primeiro-ministro tem feito sérios esforços para se imolar nas futuras eleições legislativas.

Aníbal, como o outro, desceu ao terreno da contenda e atacou forte e feio, dizimou os pontos fortes dos adversários e depois recuou. Agora vem a parte de génio, mostrou o flanco ao adversário! Uma sugestão ali, um esgar acolá e a sempre presente ameaça de comer um bolo-rei ou ainda pior um pastel de Tentúgal.

Os Generais de esquerda, sendo humanos, não eram dotados das capacidades prescientes dos escribas do Super-Mário e de um ou dois deste blogue, atiraram-se (é esse o termo) aos pontos fracos de Aníbal. Como os antigos romanos, esqueceram a disciplina e foram de arrasto para o local da refrega. Aníbal previra e depois dele acho que só eu é que percebi.

Foi tanto o entusiasmo que, mesmo dotados de um exército bem maior, os vários Generais se viram cercados e atacados pelo exército bem menor de Aníbal. Lá no meio reinou a confusão, ao ponto de os Generais perderem tempo a acusarem-se entre si de terríveis traições.

Ora, diz-se muita coisa de Aníbal mas não se diz o essencial. Aníbal não ri porque é muitíssimo bem-educado e porque sabe bem melhor que nós como são tristes as derrotas. Sabe bem que devemos ser humildes na vitória, mesmo quando a vitória resulta de incomparável génio.

Os ‘cavaquistas’ de Jorge Madeira são os pobres desgraçados que foram dizimados na primeira leva do ataque esquerdista, mas os outros ‘cavaquistas’, os que irão arreganhar a dentadura no domingo, estão a atacar pelos flancos a pobre infantaria soarista e alegrista. Todos quererão marchar sobre Soares e Alegre.
Os outros Generais, Louça e Gerónimo, depois de disputas mesquinhas por coisas estranhas aos valores mais extremados de esquerda, fugirão como em Arausio. Azar o deles e se só sobrarem 13 ainda me vou rir.

No fim, agora vem a parte que vai deliciar os sempre atentos super-marionetes, convirá lembrar a este Aníbal o que se disse do outro. “os deuses não deram todas as qualidades a um só homem. Tu, Aníbal, sabes como ganhar uma batalha, não sabes como explorar uma vitória”.

Alternância

Todos os sinais apontam para isso.
Portugal vai ter, pela primeira vez em democracia, um presidente que não vem do espaço político da esquerda.
A alternância chega ao palácio de Belém.
O facto nada tem de extraordinário.
Mas é um sinal da normalização da democracia portuguesa.

A Reflexão em Castanheira de Pêra (pede-se alguma tolerância para a repetição da palavra "deve")

Penso, apesar de tudo, que o 'cavaquista' deve sê-lo com cuidado. Mais: acho que o 'cavaquista' deve gostar, respeitar, amar, querer o bem do Doutor Mário Soares. Podemos mesmo dizer que, no limite, defendo que o 'cavaquista' goste mais do Doutor Mário Soares que do Professor Doutor Cavaco Silva. O dominó de parvoíces a que se pode resumir a campanha do Doutor Soares não nos pode distrair do facto de que os nossos maiores inimigos são Louçã, Jerónimo de Sousa e, até me custa a escrever o nome, Manuel Alegre. Apaguemos da nossa memória o inesquecível aviso de que as sondagens são feitas por "telefones fixos" ou o incrível desplante de se queixar da imprensa. Levemos com ligeireza o Super-Mário, que à parte umas fotos, fizeram desta campanha por Soares um discurso contínuo de análise freudiana sobre a trapalhada oral em que se pode transformar sempre e cada uma das intervenções do Doutor Cavaco Silva. Nem o Doutor Pacheco Pereira escapa à auto-publicitada omnisciência do Super-Mário. Imaginemos o que seria o Pulo-do-Lobo se nos tivéssemos dado ao trabalho de extrair sentidos ocultos ou evidentes a cada frase do Doutor Soares? Teríamos que, no mínimo, contratar centena e meia de escribas que se revezassem por turnos as 24 horas do dia, o que, valha a verdade, não seria difícil, dado termos, como diz Soares, o grande capital, os grandes banqueiros e as grandes empresas todas atrás de nós, mesmo agora está aqui um senhor com brilhantina no cabelo a mandar-me carregar nestas teclas. Sugeria, pois, esquecermos tudo isto em favor da memória. Quem leu, recortou, guardou, leu, releu, rereleu, rerereleu e rererereleu o artigo de Vasco Pulido Valente sobre os três Presidentes da República não pode ficar indiferente ao que foi e ao que representa o Doutor Mário Soares para Portugal. Todo o texto é uma elegia a Soares e, quer-me parecer, uma elegia merecida. Quase chorei quando a certa altura, Pulido Valente (o melhor escritor português vivo) diz sobre Soares, a propósito da segunda volta de 86: "Estava livre e, além disso, feliz". Conseguimos imaginar Cavaco "feliz"? O 'cavaquista' tem que assumir e não pode rejeitar esta diferença essencial, esta herança. Não se deve, no fundo é isto, colocar contra ela. O 'cavaquista' deve ser aquela pessoa que, como um Santo Agostinho invertido (ou inverso, sei lá), gostava de ser e ter o Doutor Soares, mas agora ainda não. O tempo está mais para pessoas que percebem, para pessoas que se preocupam e tratam da vidinha de cada um: do autocarro, da estrada, do esgoto, do imposto disto e daquilo, do papel, na empresa, do lixo, da ordem, da ambição, do querer ser rico passando por cima de tudo e todos (mas com cuidado), no fundo, tempos para as pessoas que gostam de mexer na merda. O papel do Presidente da República por estes dias é o de fazer ver aos portugueses que esse é o trabalho mais espinhoso, mais irritante, o que tem mais hipóteses de nos desmoralizar e deixar enterrar sem que nos apercebamos numa modorra assassina e que, portanto, é o que deve requerer de nós a maior motivação e esforço. A imagem de Cavaco, a sua pose seca, mirrada, picuinhas, aquele semblante de contabilista afogado em trabalho e que chega a casa e ainda faz umas "continhas para amanhã" contrasta aqui a seu favor e de modo decisivo com a "felicidade" de Soares, com a alegria de uma vida inteira para onde a carreira de "político profissional" foi a sua maneira de ser feliz. O 'cavaquista' deve perceber que o cavaquismo se é neste momento perferível ao Portugal de hoje, não é o essencial, e que para o essencial temos ali o Doutor Mário Soares, acarinhado por nós todos, sem excepção. Defendo um Doutor Mário Soares derrotado mas dignificado. Ajudemos o Doutor Mário Soares a sair desta trapalhada em que se meteu e em que o meteram, com a dignidade que ele e nós merecemos. Se para isso for preciso votar nele na primeira volta....

Still the Economy, Stupid

Portugal vai ter, pela primeira vez, um economista como Presidente da República.
Depois de nove militares, dois matemáticos, um médico e quatro juristas, incluindo Mário Soares e Jorge Sampaio, chegou a vez da economia.
Em épocas de crise as pessoas querem menos utopia e mais dinheiro na carteira.
Esta ideia está no subconsciente colectivo, apesar dos limitados poderes presidenciais.
A credibilidade económica de Cavaco é um dos seus trunfos.

O argumento da máquina de lavar

Não precisamos de um presidente humanista. Precisamos de uma máquina de lavar pré-programada para cinco anos.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

O escândalo veio pelos fariseus

Pacheco Pereira tinha razão quando afirmou que a arrogância estava muito mal distribuída nestas eleições.
Gosto de ganhar mas também gosto que os meus adversários saibam perder com dignidade. E isso o João Pinto e Castro não aprendeu na escola.
À imagem do candidato que dizem apoiar, a assuada e o charivari cresceram tão vincadamente no Super-Mário que de blog de protesto rapidamente se converteu numa alarve comunhão de ressentidos.
Quando digo que acredito no despotismo dos factos digo que não acredito em crenças catedrais que acabaram em ruínas. Não acredito em vozes convictas de que o mundo pode esperar por nós. Nem acredito naqueles que remexem perigosamente no passado à procura de soluções para o futuro. O curso bruto das coisas deitou muros e mitos abaixo. Mas a poeira, infelizmente, tarda em assentar. O João Pinto e Castro anda lá pelo meio.
Francisco José Viegas, oportunamente lembrado no DN de hoje, falou-nos há tempos de um complexo, de «um trauma de classe», de «um medo da vida que não cabe na memória, um medo de que a vida escape.» São assim as cabeças medrosas e obtusas do chamado «socialismo democrático», algures entre as birras de infância e as primeiras crises da meia-idade.
Soares conseguiu chamar a si algumas curiosidades simpáticas. Mas não estamos em 86. Os fantasmas de 74 já não assustam ninguém. A retórica anti-fascista está esvaziada de sentido. Os soaristas experimentaram todas as variedades sonoras de um projecto que se queria eloquente e comovedor. Não deu resultado. É que esta aventura, como todas as que contrariam a corrente da História tinha, à partida, muito poucas probabilidades de sucesso.
É uma candidatura talhada para a derrota - ou para a humilhação.

Será da barba

Anda por aí muita gente espantada com o sucesso da campanha alegre. Ora acontece que por muitas explicações que se arranje a verdade é que, objectivamente, Alegre não devia estar à frente de Soares. Não faz sentido.
Alegre nem sequer merece o esforço de o ouvir com atenção, é vazio, é simpático mas é vazio.
A dada altura parece que só ele descobriu a função do Universo. Pára tudo e oferece a explicação do mistério. Depois fica espantado porque o Universo que ele explicou desapareceu e foi substituído por coisa diversa.
Na ausência de explicações para estas partidas que o Universo lhe fez, faz voz de locutor e repete a ladainha que o acompanha desde o início; que é livre, que vai onde quer, que diz o que quer.
Isto é uma infelicidade para todos, o que ele diz não é nada que Soares não pudesse dizer só que não tem paciência.
Então porquê tem sucesso. Eu acho que é por causa da barba. Não vejo outra explicação.

O Dilema de Sócrates

Perto da recta final, Sócrates entrou na campanha. Pegou nas muletas e apareceu em dois comícios para apoiar Soares.
Sócrates tem um dilema. Não se pode colar demasiado a Soares e à sua provável derrota. Mas tem de fazer tudo para evitar a vitória de Alegre. Isto ajuda a explicar o seu aparecimento, no final campanha, e o tom inflamado dos discursos de alguns dos seus ministros.
Sócrates cumpre o seu dever. Mas sabe que o inimigo não é Cavaco Silva. Cavaco é o adversário que está do outro lado da barricada. O verdadeiro inimigo está bem mais perto: é um PS dividido e revoltado, de que Manuel Alegre é a face mais visível.
Um partido que pode questionar a sua autoridade e as políticas impopulares do seu governo, se o candidato “rebelde” tiver mais votos do que candidato “oficial”.
Este é o cenário mais temível para a direcção do PS: ter de admitir o erro estratégico. Conseguem imaginar Sócrates e os dirigentes do PS, numa segunda volta, a bater no peito e a apelar ao voto em Manuel Alegre?
Suspeito que, no Largo do Rato, se torce para que tudo se decida já este Domingo.

Uma explicação

Falo, é verdade, com pouquíssima gente. Mas falo, apesar de tudo, com vária gente que vai votar Cavaco, com algumas pessoas que vão votar Alegre, com pessoas que não vão votar em ninguém, e com uma pessoa (com quem, por acaso, não falo há algum tempo) que vai votar Soares (pelo menos, fazendo parte da respectiva Comissão de Honra, tem obrigação de o fazer). Sobre as pessoas que vão votar Cavaco, não me pronuncio. Sobre a pessoa que vai votar Soares (irá?), também não. Sobre abstencionistas, o mesmo. O interessante são os votantes de Alegre.

Porquê Alegre? Desde que as candidaturas foram declaradas que me confrontei com um enigma. Percebe-se porque Cavaco se candidata, e percebe-se porque é que as pessoas vão votar nele. Percebe-se porque é que as pessoas vão votar em Soares, mas não se percebe porque é que ele se candidata (a explicação psicológica é, por força das coisas, redutora). Percebe-se porque é que Alegre se candidata, mas não se percebe porque vão votar nele.

Porque é que se vota em Alegre? A custo, a ideia entra na cabeça, com um bocadinho de observação do mundo em volta, ajudada por conversas sortidas. Porque é um alívio. Soares gera uma detestação militante: está, pura e simplesmente, fora de questão. Os outros, tirando Cavaco, não contam (Jerónimo é comprometedor, e Louçã vai perdendo a graça (?)). De Cavaco, muita gente, por falta de imaginação para sair de si – ou, se se quiser, por “preconceito” -, não gosta, e a sua notória insensibilidade à questão ajuda a ofender quem vive do dúbio privilégio da atenção, por mais remota e indirecta que seja, do poder. Sobra Alegre. Alegre, magnificamente, tem aquilo que, por exemplo, Louçã não tem. O quê? Uma espécie de capacidade de sublimar reivindicações avulsas em símbolos que tradicionalmente são considerados “poéticos”.

Um exemplo modesto e aparentemente extravagante: a página 3 da lista telefónica. Como muitos portugueses, sem dúvida, para encontrar o número do “Despertar”, perdi tempos e tempos a debater-me com vários outros números: da igualdade e direitos das mulheres, de apoio às “vítimas”, das grávidas, das crianças (maltratadas ou não), dos idosos, dos deficientes, dos alcoólicos, dos anti-alcoólicos, dos drogados, da “sexualidade”, da SIDA, dos estudantes, dos fumadores, da “voz amiga”, etc. Vejamos Louçã. Louçã estabelece conexões impecáveis entre estas coisas, e as outras todas – imaginem um discurso dele: não é difícil -, mas acaba, no seu insano afã, por aborrecer. É demasiado inteligente (leia-se: tem uma fluência verbal impecável, a roçar o patológico), e, humildes, os portugueses, tirando o grosso dos jornalistas (por defeito profissional: não ter opinião sobre tudo é crime de lesa-majestade), não se revêem nele. Aquando dos debates televisivos, mal saía do carro e um jornalista, à entrada do estúdio, o interrogava, começava logo a desbobinar. É isso. Alegre, pelo contrário, sublima. E de que maneira! Fraqueja, engasga-se, mas logo salta, imperativo, um símbolo. Ou dois, ou três. Todos os que a "pátria" e a "rapaziada nova" comportarem. É ele a verdadeira “voz amiga”. Como Louçã, liga tudo - mas fá-lo com uma tranquilizadora vacuidade, tanto mais tranquilizadora e vácua quanto grave: é o anti-Marcelo da RTP. Até na voz. Não saltita: liga à terra e aos antepassados todos. A gente vê Viriato. E, vendo Viriato, perdoamos. É a versão política de José Hermano Saraiva (tirando que este, com todos os defeitos, instrui). Um beijinho de comunhão espiritual no busto de Torga não ofende ninguém. É um afecto que não compromete. Em matéria de voto telúrico, não há melhor. Porque Alegre não tem, ao fim e ao cabo, doutrina. Convenientemente, substituiu-a pela pessoal biografia, que, para a nossa paz, e a dele – porque foi certamente, em muita coisa, corajosa e difícil -, pertence ao passado. Alegre é um alívio.

E o alívio é simpático. Mais do que isso: elimina a irritação. Em eleições, é uma vantagem em nada despicienda. Sobretudo num aspecto. É a maneira de ser de esquerda sem consequência, que é a maneira naturalmente preferida da gente que, por tradição (votar PS, como os pais) ou imperativo corporativo (ser “agente cultural”), tem de ser de esquerda sem ser, ou alguma vez ter sido, de esquerda. É o “princípio do Nirvana” aplicado à política. Não querem que os chateiem. Um pequeno afago utópico chega, e a má poesia, como de costume, ajuda. Sem cinismo, para algumas pessoas que a acham boa. Com imenso cinismo, misturado com a tontice da praxe, para aqueles que a sabem rotundamente insignificante e que no verbo de Alegre acharam a escapatória possível para o seu impasse político.

Também por causa destes últimos – e não apenas por os méritos da candidatura de Cavaco serem indiscutivelmente superiores -, convinha que Alegre não tivesse tantos votos assim. A radical inanidade do grosso dos letrados portugueses não merece sequer uma vitória sobre a presente catástrofe chamada Mário Soares, que se prestam a trair de forma indecorosa.

Dito isto, prefiro que Alegre fique à frente de Soares. E muito, muito, atrás de Cavaco. Porque o caso de Soares é mais grave. E, sobretudo, porque Cavaco, como relembrou recentemente Diogo Pires Aurélio no Diário de Notícias, é, por muito, a “melhor das seis alminhas”. É a única que se arrisca verdadeiramente, e merece ganhar. À primeira.

Alegre À Pesca

Sem ironias, confesso que não percebo Paulo Gorjão ou Constança Cunha e Sá quando dizem não perceber o sucesso de Alegre nas sondagens. É que as razões são relativamente simples. Alegre pesca à linha e os outros pescam de arrasto (excepto Cavaco, que mistura as duas). Em princípio, a pesca de arrasto rende mais porque traz tudo na rede, mas a sua área é limitada. Soares, Jerónimo ou Louçã arrastam na rede os cardumes compactos - em princípio... - do PS, do PCP e do BE, mas nada mais. Ainda por cima, há muito peixe miúdo que foge pelos buracos da rede e é pescado por Alegre. Eis a sua vantagem: pesca os eleitores um a um, mas tem a liberdade de pescar em todas as águas - ao contrário dos outros (excepto Cavaco, repito, que usa a linha à esquerda e o arrasto à direita).
Alegre pesca, em primeiro lugar, no próprio PS. Todas as sondagens o mostram: o voto socialista está fortemente dividido entre Soares e Alegre. Porquê, se a maioria absoluta de Sócrates foi há escassos meses? Porque há muitos eleitores socialistas, ou votantes no PS, que estão descontentes com as medidas impopulares do Governo e querem castigá-lo. Ora, justamente por causa da maioria absoluta, não têm medo do papão da instabilidade nem do papão do presidencialismo. Votam mais com o coração do que com a razão. E Alegre tem um grande capital de simpatia nas bases do PS, que se revêem mais na sua retórica dos direitos adquiridos do que no centrismo reformador de Sócrates. Além de terem visto na campanha, sobretudo graças à clamorosa ausência deste, que o pai Soares foi meramente instrumental na estratégia de um Primeiro-Ministro que já se resignou a conviver com o Presidente Cavaco.
Alegre pesca também no centrão pouco ideológico que oscila entre o PS e o PSD e está genuinamente farto dos partidos. É um eleitorado decisivo que se prepara para votar nos "suprapartidários" Alegre e Cavaco, nada ou pouco deixando para Soares. Aqui, o grande trunfo de Alegre é sem dúvida o cheirinho a pólvora da sua candidatura "fora do sistema", mesmo que os comentadores achem isso um pouco risível. O povão não acha e é o povão que vota - como já votou em Eanes e no PRD.
À esquerda, a pesca à linha de Alegre faz igualmente estragos, embora mais no PCP do que no BE. Os comunistas não esquecem - e ele não deixa de lembrar - o seu passado antifascista, sempre alimentado por uma oratória cheia de palavras como "liberdade", "resistência", "luta", "cidadania" e, claro, "Abril". Sobretudo "conquistas de Abril". E até "pátria". A extrema-esquerda é sensível a todas elas: há uma velha esquerda republicana e radical muito mais patriótica do que julgam as elites de Lisboa.
Por fim, a direita. E esta é talvez a maior surpresa, mas basta falar com alguns conservadores à antiga para se ver que Alegre pesca mesmo em todas as águas. O verdadeiro desprezo de alguns deles tanto por Soares, o traidor da pátria, como por Cavaco, o saloio da província, pode explicar o enigma. Ajudam o figurino de aristocrata (dizia Chesterton que a afinidade de classe é o único sentimento dos ricos...) e o papel de coitadinho maltratado pelo PS, que lhe vale insuspeitas simpatias. Parece-me, no entanto, que a principal razão está mesmo na campanha. Ao contrário de Soares, Alegre manteve a pose de estadista, recordou quem ia em segundo nas sondagens, pôs Louçã no devido lugar e levantou a voz a Jerónimo quando foi preciso. Ganhou assim o único atributo que a direita pede aos homens do poder: a respeitabilidade. E ganhou-a na exacta proporção em que Soares a foi perdendo com os ataques irrazoáveis a Cavaco e a deriva esquerdista. A exaltação da portugalidade, da CPLP e do desígnio nacional fizeram o resto.
Será tudo isto suficiente para chegar aos 20% que algumas sondagens lhe dão? Veremos no Domingo.

Democracia e Tabus

Leonídio Paulo Ferreira, no DN de hoje:
"Se Cavaco Silva ganhar as presidenciais, seja logo à primeira volta ou apenas à segunda, nem tudo serão forçosamente más notícias para aqueles que tiverem votado nos outros candidatos. Ou mesmo para aqueles que nem sequer votaram. É que uma vitória de cavaco Silva constituirá o fim de mais um tabu da jovem democracia portuguesa - o de que a Presidência da República está reservada exclusivamente a políticos de esquerda."

Passado e Presente



Nesta campanha, alguns escolheram fechar todas as portas ao futuro e viver o presente com a cabeça no passado. E o passado, não será despiciendo repetir, teve já o seu tempo. O momento é sério e o momento é de Cavaco. É o momento de chegar à Presidência alguém capaz de perceber politicamente o que é a modernidade, alguém capaz de perceber que os problemas de hoje se prendem com a crescente convergência económica dos Estados e a relação cada vez mais próxima entre agentes económicos globais e as respectivas razões de troca, os mercados. Nenhum dos outros candidatos parece disposto a perceber isto. Com eles a política deixa de fazer sentido e transforma-se num admirável exercício ficcional. Com Cavaco a política sempre pareceu fazer sentido. E eu, que acredito sumamente no curso bruto e inevitável das coisas e no despotismo dos factos, estou saturado de exercícios orais de literatura fantástica. É tempo de fazer política e é tempo de perceber a política que se faz.

Choque Tecnológico

Garcia Pereira mandou uma carta ao Primeiro-Ministro a pedir explicações sobre o futuro da Caixa Geral de Depósitos. Garcia Pereira tem um problema com a história: ainda vive no tempo em que se mandavam cartas.
Alguém é capaz de lhe dizer que agora se pergunta ao dr. Soares?

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Serviço de Tradução Assistida

Irra... será que já não se pode apelar ao voto e à participação, com o argumento de não deixar que outros decidam por nós?

Segundo o Super Mário, quando Cavaco diz "Não deixem que a parte escolha pelo todo" é caso para utilizar a seguinte caracterização, cito: «velho, autoritário, maus, falseiam, menor, divisionista, maniqueísta, manipuladora, incapacidade, aflitiva, não tem condições, nem perfil». Tudo isto em 12 linhas, é obra e é rara, excepto no universo de participantes do Fórum da TSF, onde podemos encontrar outras obras do género.

Segundo o autor do post, Miguel Cabrita, esta caracterização «Entra pelos olhos a dentro, todos os dias».

Pois, já percebemos que em alguns entra, pena que não entre só um pouco mais à frente.

Teatrinho

Entrámos no fim da campanha e nota-se. Estando o Primeiro-Ministro impedido de dizer umas coisas, em virtude de um aparatoso acidente que lhe diminuiu o joelho e a língua, lá vieram alguns ministros, à vez, proferir coisas graves e pesadonas.
Passámos à fase do teatro e os olhos dos apoiantes de Soares encheram-se de lágrimas.
Em desespero de causa, Soares faz de porta-voz do Governo.
Tudo serve e nada dá resultado.

Encontro de Irmãos

"Cavaco perde mais 2% nas sondagens", anunciava ontem , eufórico, o DN: estava nos 54,6.
"Cavaco desce oito pontos numa semana", proclama hoje, triunfal, o DN: está nos 53, 2.
A blogosfera soarista não diz uma palavra.
Compreende-se.
Depois de tudo o que lhe chamaram, estão a ver estes, estes e estes senhores a fazer campanha por Alegre em segundas voltas?

A Imaginação ao Poder

E se fosse ao contrário?
E se Santana Lopes fosse ainda Primeiro-Ministro e Cavaco, em campanha por Viana do Castelo, tivesse recebido um "SOS" de Paulo Portas a garantir que os estaleiros não seriam privatizados?
Que tal: golpe de Estado constitucional, instabilidade à vista, intromissão na esfera do Governo, aproveitamento político, ameaça de presidencialismo, sarilho institucional, assim os portugueses não sabem quem manda realmente no país...?

O Moinho Errado

Eduardo Lourenço, no Público de hoje:

"Dizem-me que os dados há muito estão lançados. Não o duvido. Em termos meramente eleitorais, tudo estará consumado. Mas seja qual for o resultado desta campanha - à parte a cruzada póstuma de Mário Soares, levada a cabo como se o combate fosse ainda, como nos idos de 75 ou na década de 80, entre os fantasmas bem vivos de uma direita e uma esquerda míticas -, não houve realmente um prélio eleitoral digno de memória. Talvez errando, Mário Soares fez mais do que era necessário para inventar uma direita que merecesse o seu combate de cavaleiro da esquerda. Mas o adversário concreto não correspondia já ao modelo ideal (e histórico) da direita contra a qual, toda a vida, Mário Soares combateu. Esse adversário é também e, em certo sentido mais do que ninguém, como antes dele Ramalho Eanes, um "filho de Abril". Pela força das coisas, ou a mudança dos tempos, é de temer que Mário Soares se tenha enganado de moinho."

O Natal É Onde Um Socialista Quiser

Afinal, o candidato socialista ganhou as presidenciais. No Chile.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Declarações de Voto

Recta Final
por Carlos do Carmo Carapinha

“Anunciei a candidatura e fui visitar os emigrantes. Quando voltei tinha passado de pai da pátria a mau da fita”

Pouco há dizer sobre a corrida presidencial que não tenha já sido dito. Na noite em que Cavaco Silva anunciou a candidatura, foi dado o mote desta campanha quando Louçã aceitou comentar, para um canal de televisão, o discurso de Cavaco. Assim se caracterizou esta bizarra corrida presidencial: apenas um (verdadeiro) candidato, acompanhado à guitarra por três ou quatro pseudo-candidatos transfigurados em comentadores e sentenciadores de pacotilha. Apostados, claro está, em fazer ruído. Nada mais. Bem espremida, da alegre campanha se conclui que os candidatos de esquerda se limitaram a:
1) denegrir o passado de Cavaco (quem aqui chegasse pela primeira vez e os ouvisse, julgaria Cavaco um autocrata e um incompetente que tinha, no passado, conduzido o país à bancarrota);
2) ridicularizar a austera figura de Cavaco;
3) desferir sórdidos ataques ad homine a Cavaco;
4) comentar o que dizia Cavaco.
Acima de tudo, os candidatos da bendita esquerda limitaram-se a disfarçar o vazio e a indigência das suas próprias propostas acusando Cavaco Silva de falar de assuntos indizíveis e estranhos a um presidente da república. Esta foi, aliás, a grande farsa desta campanha, protagonizada sobretudo por Soares e Louçã: à incapacidade destes para apontar um rumo ou uma estratégia de longo prazo para o país - sobretudo para além das suas mui queridas questões «fracturantes» e do empenho em cultivar um estilo «cosmopolita» e «moderno» que agradasse à sofisticada classe média urbana - juntou-se a vontade de deslegitimar quem o fizesse, através da acusação de intromissão em assuntos «tabu», leia-se «governativos». Como se falar da economia, do sistema nacional de saúde, do emprego ou da educação fosse assunto proibido para candidatos ou indiferente na aferição das suas propostas. No fundo, o que esta gente estava a dizer era mais ou menos isto: “nós, que somos importantes e fundamentais, propomo-nos para bibelot pois não temos opinião sobre nada”. Obviamente bullshit.

Mas importa falar de Soares. A frase em epígrafe, de sua autoria, diz praticamente tudo. Vem de longe a tendência de Soares em confundir a realidade pessoal da realidade objectiva. Ingenuamente, Soares estava convencido de que era o «pai da pátria» (ou, pelo menos, que o olhavam como tal). E ingenuamente, também, observou o desinteresse pela sua candidatura como um sinal de o terem passado a olhar como o «mau da fita» (segundo o próprio, até a comunicação social esteve metida na trama). Com este desabafo, Soares revelou estar fora do mundo. O facto de Soares não ter percebido que não detinha um estatuto que lhe permitia dizer e fazer tudo, e que a partir do momento em que se tornasse um «mero» candidato estaria, obviamente, ao mesmo «nível» dos outros, espelha bem a puerilidade aliada à soberba que habita há muito a mente do «senador». Mais: é incrível como Soares foi incapaz de perceber as repercussões do seu percurso político nos últimos anos. A ida para a «Europa», a viragem à esquerda, as birras públicas, a radicalização do seu discurso - pontuado de ressabiamentos políticos e assomos de cólera ideológica –, tudo concorreu para manchar indelevelmente a imagem de homem conciliador e moderado, reserva última da sua própria criação, isto é, da democracia portuguesa. Não foi por acaso que a campanha de Soares resultou numa coisa feia, sem norte, a espaços patética, que pôs a nu o desgaste mental (aparentemente não físico) de um candidato ancião e o velado desapego do próprio partido que formalmente o apoiou. Os pressupostos sempre estiveram errados. A realidade não era aquela que suponha. O próprio ex-compagnon de route, que se candidatou sobretudo contra Soares, beneficiou desta desorientação porque, de resto, Alegre, o poeta-político, pouco disse e nada acrescentou, a não ser uma meia dúzia de líricas alusões à «pátria» e à «língua». Ou muito me engano ou Soares acabará amargurado, cansado e, muito provavelmente, a julgar-se vitima da ingratidão dos «filhos» perante o «pai».

E o «rígido» Cavaco? Como político, Cavaco Silva não é propriamente uma figura «interessante». A «grande» sofisticação não mora ali. Também não se adivinham conversas de antologia sobre os mais apaixonados temas (Oakeshott, Scarlett Johanson, Francis Bacon, física quântica, etc.). Ou seja, dou de barato que Cavaco dá ares de ser aquilo a que comummente designamos de «chato» ou «cinzentão». Mas seria bom percebermos que o que faz falta não é animar a malta. Portugal não precisa de aparências nem de salamaleques. Muito menos de auto-estima. Portugal não precisa de líderes porreiraços, adeptos da bonomia e das suaves «influências». Portugal não precisa de malabaristas da palavra ou do «social». ». Não precisa de presidentes corta-fitas que se limitam a «chamar gente a Belém» quando qualquer coisa corre mal. Não, não estou a preconizar um sistema presidencialista. Estou apenas a dizer que o que faz falta é sacudir a malta, esbofetear a malta, chatear a malta.

Por detrás do estoicismo e da suposta inabilidade política de Cavaco Silva, esconde-se um homem sério (duma seriedade fatal para exercícios de retórica e de demagogia), adepto do rigor e da competência, empenhado e motivado em contribuir, dentro das limitações institucionais, para a reforma do país. Cavaco Silva foi, de longe, o candidato que melhor demonstrou saber o que está em causa. Cavaco mostrou estar totalmente consciente da realidade do país, fazendo por isso uma campanha centrada em questões concretas mas sempre pela positiva. Ficarei, por isso, mais descansado se souber que em Belém está um homem que, não se tendo resignado, está disposto a trabalhar. Ou, se quiserem, a «chatear».

Carlos do Carmo Carapinha
(aka MacGuffin)

E talvez não II

O Pedro Magalhães esclarece aqui que terá havido mal entendidos na interpretação deste seu post.

Assim sendo, reafirmo o argumento, deixando no entanto este de ter como destinatária a argumentação do Pedro Magalhães.

S.O.S.

Mário Soares, num significativo lapso freudiano, contou que mandou um "S.O.S." para um ministro que estava na China (se isto não é desespero, não sei o que é desespero). Manuel Alegre, num intervalo da sua campanha anamnésica, comentou que se Soares queria ser porta-voz do governo era lá com ele.
As coisas no P.S. vão-se animar imenso nos próximos tempos.
Alexandre Dumas conta, na Reine Margot, como Carlos IX, dias depois da Saint-Barthélemy, organizou um passeio a cavalo, acompanhado da côrte quase inteira, à árvore onde se encontrava dependurado o cadáver putrefacto (e decapitado) de Coligny (a quem Carlos tinha dias antes proclamado a maior das amizades). O dissimulado Henrique de Navarra queixou-se do cheiro. Eh bien, je ne suis pas de ton avis, moi... le corps d'un ennemi mort sent toujours bon, respondeu-lhe o excelente Carlos.

Dessacralização

A vitória de Cavaco Silva trará, pelo menos, uma coisa boa à política portuguesa, com a qual até a esquerda concordará: a normalização, a "dessacralização" da figura do Presidente da República. Com Cavaco em Belém, a esquerda, até aqui sempre tão susceptível com "a figura do PR" e "o respeito que lhe é devido" (como alguém tido como acima da política, ou fora da política), mudará imediatamente de atitude. Cavaco será imediatamente visto como aquilo que um PR também é: um agente político, como os outros titulares de órgãos de soberania. O PR passará a ser objecto de duros ataques quotidianos, o que não afectará Cavaco, que já está habituado e nunca se deu mal com isso.
Com Cavaco não assistiremos de certeza a queixas de Belém à Procuradoria-Geral da República contra Ministros que o critiquem: queixas como a que Soares protagonizou, em 1993, no decurso da sua famosa Presidência Aberta de Lisboa, por entender que as críticas políticas que o então Ministro do Mar lhe tinha dirigido podiam configurar a prática de um crime de "ofensa à honra do PR" (art. 328º do Código Penal).

Cavaco e os partidos

Alguma esquerda gosta de invocar uma suposta aversão de Cavaco pelos partidos. É verdade que, desde o 25/4, de todos os líderes partidários (de todos os partidos), Cavaco é o político português cuja trajectória mais foi conduzida de fora para dentro (do partido), e não do partido para fora. Nesse sentido, pode dizer-se que Cavaco nunca manifestou grande simpatia pela chamada "vida (interna) partidária". Esse certo distanciamento de Cavaco não se confunde, no entanto, com uma qualquer aversão ao papel dos partidos no regime democrático português.
Mas o que não tem sido salientado é que esse distanciamento, nomeadamente em relação ao seu próprio partido, dá a Cavaco uma autoridade para o exercício do cargo de PR que os outros candidatos não têm (nomeadamente Soares e Alegre): com Cavaco em Belém, Marques Mendes pode, ele também, "dormir descansado", já que Cavaco não andará a conspirar contra a sua liderança, ao contrário do que Soares fez a Constâncio (e, com o congresso "Portugal, que Futuro", também a Guterres).

Os ovos, os cestos e a humildade de Mário Soares

Para Mário Soares, no entanto, a teoria dos ovos e dos cestos estava errada:
"Sábado: Porque devem os portugueses desta vez pôr os ovos todos dentro do mesmo cesto? Mário Soares: Já antes os puseram todos no mesmo cesto e as coisas até funcionaram bem. O Dr. Jorge Sampaio demonstrou, com um Governo do PS, que eu não tinha razão com essa teoria. E ficaram os ovos todos no mesmo cesto. Não veio nenhuma desgraça ao País, antes pelo contrário, veio um período de boa estabilidade e entendimento" (revista Sábado, 6/1/2006).
Soares esquece, no entanto, que o PS não tinha maioria absoluta nem em 1996 nem em 2001 (momentos da eleição de Sampaio), e que, na época (nomeadamente em 1996), foi abundantemente salientado pela campanha de Sampaio, e pela esquerda em geral, que a eleição de Sampaio não provocava nenhuma concentração exagerada do poder, justamente porque que António Guterres não tinha maioria absoluta.
Seja como for, deve agradecer-se ao candidato do PS, ao assumir a sua mudança de posição, este profundo, tão raro e tão desinteressado acto de humildade...

Os ovos, os cestos e Mário Mesquita

Mário Mesquita tem repetido, na sua coluna dominical do Público, um argumento que alerta para um alegado "plano" de Cavaco. No Público de 8/1/2006, sintetiza-o da seguinte forma: a intenção de Cavaco seria facilitar a vida a Sócrates, numa primeira fase, enquanto este tomasse as medidas difíceis e impopulares; numa segunda fase, Cavaco impediria Sócrates de tomar as medidas populares previstas para o fim da Legislatura, preparando assim o terreno para entregar o poder ao PSD, "reconfigurado o seu rosto": desta forma, acrescenta Mário Mesquita, "os votos estarão todos 'no mesmo cesto' e a Direita ficará hegemónica em Portugal, pela primeira vez após o 25 de Abril, sem contra-pesos ou 'forças de bloqueio'".
Para além de revelar uma profunda desconfiança da capacidade de Sócrates em renovar a sua maioria, este é um argumento espantoso. No fundo, significa o seguinte: Portugueses (ou melhor, Portugueses de esquerda), não votem em Cavaco porque, em 2009, isso significará o perigo de "pôr todos os ovos no mesmo cesto"!
Para Mário Mesquita, no entanto, o facto de agora, no cesto de 2006, os ovos poderem ser todos "cor-de-rosa" ou "de esquerda", sem quaisquer "contra-pesos", é absolutamente irrelevante: a eterna arrogância moral da esquerda (que se auto-atribui uma superioridade sobre os outros e um papel de tutela ideológica sobre o regime democrático) está sempre a vir ao de cima...

O desespero

Para além de desconfiar de sondagens feitas através de telefones fixos, Soares (ou os seus apoiantes) também encontrou outros motivos originais para desvalorizar as sondagens: "membros da comitiva de Soares desvalorizaram a recente sondagem da Universidade Católica para a RTP-Público-Antena 1, que lhe deu 13% dos votos, atrás de Cavaco Silva (60%) e Manuel Alegre (16%), por ter sido feita pela instituição onde Cavaco é professor" (DN, 8/1/2006). À atenção das margens-de-erro ...

E talvez não

No Margens de Erro, o Pedro Magalhães escreve que este post talvez seja "o post mais importante deste blogue nos últimos meses". No Super-Mário, Ivan Nunes concorda.

Pois eu discordo. Quer-me parecer que nesta campanha há aspectos bem mais determinantes e sólidos do que a interacção do sentido das escolhas das pessoas com os resultados das várias sondagens:

Aspectos como a divergência para com os países mais ricos da UE, a evolução do desemprego, a estagnação económica, a pouca confiança nas instituições públicas, a relativa e crescente consciência da necessidade de algumas mudanças no enquadramento em que este país funciona.

Aspectos como o conhecimento das funções de Presidente da República e dos respectivos candidatos, dos seus perfis e mais-valias face ao momento actual, aos desafios que são (e serão) colocados não só ao Governo, mas a todos nós.

Que face a este quadro estruturante se atribua uma tal importância ao efeito de interacção das sondagens, é caso para recordar um artigo recentemente recomendado pelos dois bloggers acima citados; terminava assim:

«Oh the fantasies these people have about the difference they can make»

Grândola, Furet e Outras Heresias: Resposta ao André Belo (II)

Caro André
Antes que eu tivesse conseguido acabar este post em duas remessas, já respondeste "a fim de me poupar o teclado a discursos mais longos". Lamento contrariar-te (mais uma vez), mas não vou perder a oportunidade de levar à exaustão a primeira polémica cavaco-soarista que não versa a Kátia Guerreiro ou o Helesponto. Além disso, já tinha o discurso preparado - ficou um pouco longo, é verdade - e não se manda assim embora um discurso.
Dizes que não representas a esquerda "em abstracto". Eu sei, mas eu também não represento a direita em abstracto e muito menos a direita "que não engole Grândola". O que está em causa "não é a mitologia da esquerda e da direita". Tu detestas rótulos simplistas, o que constitui uma das razões pelas quais vale a pena conversar contigo. Escapa-me, por isso, que "não se possa cantar aquela cantiga e fingir que ela não é um hino à igualdade, à fraternidade social e ao poder popular. Ainda hoje, não apenas ontem. Para lá da memória afectiva, a mensagem está lá." Ou seja, não há tribos mas há totems exclusivos das tribos - pelo menos da "mensagem" e da "memória afectiva" das tribos.
Se não estás a falar em nome próprio, este argumento tem uma falha. Quem foi que disse que Cavaco não é a favor de uma maior igualdade e de uma maior fraternidade social, mesmo que não seja, certamente, da igualdade e da fraternidade "em abstracto"? E quem foi que disse que todos aqueles que criticam Cavaco por se "apropriar" do imaginário de Abril são defensores do "poder popular"? Mário Mesquita, Vital Moreira, Joana Amaral Dias, até Constança Cunha e Sá são os novos arautos do revolução proletária? Ou Soares, Alegre e Louçã? Valha-nos Deus! Para usar uma frase muito na moda - se o Zeca fosse vivo... Meu caro André, tu não representarás a esquerda, mas há tiques inconfundíveis. Por exemplo, proclamar contra toda a evidência que a esquerda tem o "monopólio do coração", como Giscard d`Estaing objectou uma vez a Mitterrand num debate célebre (em presidenciais que Giscard venceu, se não me falha a memória afectiva.)
O que está em causa, isso sim, e tu sabes tão bem como eu - aliás melhor, porque estudas o assunto e eu não passo de um vago medievalista -, é a velha discussão do bicentenário da Revolução Francesa. Em 1978, François Furet escreveu num livrinho brilhante (Penser la Révolution Française) uma frase que incendiou a França: "a Revolução Francesa terminou". Queria ele dizer que, duzentos anos depois, toda a sociedade francesa via placidamente nos acontecimentos de 1789 a narrativa canónica das suas origens. A Revolução passara a ser invocada por todas as forças políticas e, portanto, tornara-se conservadora: já não era, excepto no nome, revolucionária. Apesar do escândalo (e que em nada se compara com o doméstico episódio grandolense), parece difícil não concordar com Furet. A liberdade tornou-se democracia, a igualdade Estado social e a fraternidade ética republicana. Não há em França partido que não tenha a boca cheia delas, à esquerda e à direita. E o bicentenário foi celebrado como o maior evento nacional desde a Libertação, com pompa, circunstância e Mitterrrand na Presidência.
Por outras palavras, a Revolução Francesa acabou por ser vítima do seu próprio sucesso. Arrisco-me a acrescentar que o mesmo se passa hoje com o 25 de Abril. Tirando alguns líricos à esquerda, que queriam outra revolução, e à direita, que não queriam revolução nenhuma, os portugueses acreditam esmagadoramente que 1974 é o momento fundador do regime. "O primeiro dia do resto das suas vidas", se assim posso dizer - caso os censores me permitam. A democracia aí está e, apesar dos medos de alguns (os mesmos que agora agitam o espantalho da instabilidade com Cavaco em Belém...), até já houve maiorias absolutas da AD e do PSD sem que o dr. Salazar voltasse do remanso de Santa Comba para reclamar a cadeira. A questão do regime pura e simplesmente não se põe. Max Weber diria que estamos em plena rotinização do 25 de Abril, o melhor sinal do "regular funcionamento das instituições democráticas". Tu preferes a carismática "mensagem" do "poder popular" ou, para citar o cartaz do Bloco, a revolução que "ainda é uma criança".
O mais surpreeendente, porém, é que este consenso já não nos surpreenda, ao contrário das crianças. Basta lembrar a Revolução Liberal de 1820, com uma guerra civil, três Constituições, várias guerrilhas regionais (do Algarve ao Minho) e trinta anos de golpes de Estado até ao pouco carismático rotativismo, ou os dezasseis anos de overdose de carisma da República, que levaram directamente à bancarrota e ao dr. Salazar, para se perceber que as coisa podiam ter corrido mal. Não correram e é justo que agradeçamos a Soares e à Europa, mas também aos portugueses que ajudaram a consolidar a democracia com a vitória da AD, o execrável Bloco Central e as maiorias absolutas de Cavaco. Será isso suficiente para acreditar na sua "sinceridade" quando cantam "Grândola"? Não sei. Só sei que, no próximo Domingo, não vou eleger uma sinceridade, mas uma realidade: o primeiro Presidente da República de uma cor diferente do dr. Sampaio. Se isto não é a democracia, então o que é?
Um abraço
Pedro

O Lago de Constança

Constança Cunha e Sá teve a dúbia amabilidade de me dedicar algumas linhas no Espectro. Diz ela, a propósito da minha defesa de Cavaco no caso Grândola, que fui buscar Raymond Aron "para dar outra dignidade à tese". Nos tempos que correm, é sempre bonito descobrir alguém que nos compreende. Mesmo que tenha lido Aron há muito, muito tempo...

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Grândola, Furet e Outras Heresias: Resposta ao André Belo (I)

E à 25ª hora, uma polémica ideológica.
Quis a sorte que a crítica a este meu post tenha levado o André Belo de volta ao Super-Mário. A sorte, sim, porque sou um (dos) devoto(s) da bela prosa, desde os tempos da FCSH. Depois ele foi fazer um brilhante doutoramento a Paris, ao mesmo tempo que fazia por cá o brilhante Barnabé. Eu nem uma coisa nem outra: a vitória de Cavaco é mesmo a minha última hipótese de redenção. Eis-nos, pois, de novo juntos em campo e de novo em campos opostos.
E que diz o André? (Nota: vale a pena ler o post todo.)
Diz que "o que se critica em Cavaco é só cantar "Grândola" para as televisões e em campanha eleitoral, nunca antes e nunca mais depois. Cavaco não quer saber de "Grândola" para nada." Que canção de Zeca Afonso seria uma mera estratégia para conquistar o eleitorado de centro-esquerda, estratégia que a própria obra não permite. Se Cavaco usa a frase "o povo é quem mais ordena" está a ser populista porque "o povo revolucionário de José Afonso" não é "o povo eleitoral de Cavaco". Que sem democracia, o povo cantado em "Grândola" nada ordenava, a não ser "dentro de ti ó cidade", e por isso lutava pela revolução. Que o "povo" de Cavaco nunca alinharia com uma "terra da fraternidade" e onde houvesse "em cada rosto igualdade". Em resumo, que Cavaco "se apropria de um hino da oposição a um regime que ele próprio não combateu. Mas não é tanto isso que é grave. O que é grave é ele querer agora, cantando e rindo, ocultar-nos isso."
De acordo: talvez Cavaco nunca tenha cantado Zeca Afonso "antes", apesar de não ser propriamente um salazarista. A comparação absurda entre Cavaco e Salazar, que o André tem a fineza de não repetir, deriva mais do estilo de governo cavaquista - aquilo a que ele chama "o pior cavaquismo" - do que de qualquer prova de desafecto de Cavaco à democracia, antes ou depois do 25 de Abril. Não sou tão ingénuo ou tão perverso que vá negar a intencionalidade política de cantar "Grândola" em campanha, mas a questão não é essa. A questão é saber se o imaginário do 25 de Abril tem intérpretes autorizados. A esquerda utópica acha que sim. Lamento descobrir que o André também.
E lamento porque isso é confiscar a memória de Abril em proveito de alguns. Um erro, se me permitem. O que deu ao 25 de Abril o consenso esmagador de que hoje goza entre a maioria dos portugueses (o "povo eleitoral") foi a percepção de que a democracia nasceu para todos e não apenas para o povo de Grândola. Se essa percepção corresponde ou não ao pensamento do Zeca Afonso não interessa muito porque os símbolos, quando duram, vão além do seu contexto. A memória de Abril que os órfãos das utopias nos propõem, e o povo de Cavaco não poderia partilhar, é sem dúvida heróica, mas terrivelmente redutora. Divide sem reinar. É semidemocrática - atribui a essência da democracia só a um dos lados.
Ora, por muito que custe ao André e aos viúvos dos amanhãs que cantam, o imaginário de Abril mudou nestes trinta anos. Onde antes todos viam a pureza de um ideal revolucionário com origem na esquerda - "Portugal a caminho do socialismo", etc. -, a maioria vê agora as várias faces de uma democracia pluralista com três décadas de história: Spínola e Salgueiro Maia, Otelo e o Palácio de Cristal, Vasco Gonçalves e Sá Carneiro, Cunhal e o 25 de Novembro, Soares e Ramalho Eanes, a adesão à CEE e... as maiorias absolutas de Cavaco Silva. Porque Cavaco, goste-se ou não, pertence sem favor à história da democracia portuguesa. Nem com bolo-rei o podem apagar da fotografia. E assim, não tendo sido um militante da oposição à ditadura, tem toda a legitimidade para cantar "Grândola" e fazer de tal acto um argumento eleitoral. E assim, não tendo percebido isso, a esquerda verá muitos dos seus votos passarem a fronteira a salto no próximo Domingo. (cont.)

E Por Que Motivo os Gajos da Meteorologia Não Avisaram, Hã?

Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado:

"A neve fez cancelar as acções de campanha de Mário Soares em Bragança stop mas o povo tal como no tempo da ditadura não se deixa enganar stop ou neva para todos ou não neva para nenhum stop"

Quarta-feira de Cinzas

Eduardo Prado Coelho, no Público de hoje:

"Mário Soares já veio proclamar que a sua eventual derrota é apenas culpa sua. E se conseguiu algum apoio de Sócrates, que aliás não poderia fazer outra coisa, foi embrulhado num argumento de uma extraordinária sofisticação: quem tem um candidato desta qualidade não precisa de dizer mal dos adversários. Claro que não. Mas Soares, num acesso de modéstia, não tem feito outra coisa..."

Uma modesta cabana, um tecto de colmo

Aparentemente, as coisas vão-se passar como tinham obrigação de se passar. Cavaco ganhará (à primeira). Fez uma pré-campanha praticamente sem erros, e a campanha está a seguir o mesmo caminho. Soares, ajudado por finos estrategas e por apoiantes que usaram e abusaram de uma deprimente puerilidade, fez de conta que pertence àquela metade da humanidade que ignora o que pensam os restantes quatro quintos. Na luta fratricida entre a "Praça da Canção" e o "Pátio das Cantigas", o simpático "deputado-poeta", pelo seu lado, esteve, sem se incomodar, ao nível dos seus versos, e até Joana Amaral Dias sobre ele escreveu coisa com sentido. Se ficar à frente de Soares, não o merece - mas Soares, inconcebivelmente, merece-o, entre outras coisas por não ter sabido aperceber-se da muito generalizada detestação pela sua pessoa, uma detestação cujas razões - boas, más e ambíguas - Paulo Varela Gomes explica (muito bem) às quartas na RTPN. No PS, todos se perdoarão tudo, mas à maneira de Heine: "Tenho as disposições mais pacíficas. Eis os meus desejos: uma modesta cabana, um tecto de colmo, mas uma boa cama, boa comida, leite e manteiga bem frescos, flores em frente à janela, face à porta algumas belas árvores, e, se Deus me quiser tornar perfeitamente feliz, far-me-á conhecer a alegria de ver seis ou sete dos meus inimigos pendurados nessas árvores (...) Devemos, sem dúvida, perdoar aos nossos inimigos, mas não antes de os ver enforcados". Estas coisas, no entanto, não interessam, ou interessam pouco, como pouquíssimo interessa o patético sentimento de irrealidade, e não apenas de vacuidade, a que a campanha de Soares fatalmente o força - a ele e aos seus apoiantes, como, por exemplo, a um homem cordato como Augusto Santos Silva que deu por si a falar, a propósito da presumível eleição de Cavaco, de "golpe de estado constitucional". Ou o costumeiro delírio de virtude de Louçã. Ou o que se quiser. A única coisa que verdadeiramente interessa é saber o que fará Cavaco Silva com a vitória - uma vitória a que o facto de ser o único candidato com um comprometimento efectivo e a quem depois poderemos pedir contas praticamente o condena. Interessa saber se vai valer ou não a pena: sobretudo a dele. Esperemos bem que sim.
Estou a falar antes do tempo? Claro que estou: nos dias que faltam podem acontecer imensas coisas. Mas é improvável que joguem contra Cavaco.

A pré-história da Democracia


Sei de rapaziada, uns inconscientes com certeza, a quem já podemos chamar de trintões, que pela primeira vez na vida vai votar com toda a convicção. Por uma vez não é o voto de protesto, não é um voto no mal menor. É o voto que foram desejando protagonizar à medida que iam crescendo com O Independente religiosamente às sextas-feiras sobre a mesa do café com o respectivo baldanço à aula de geografia do 10ºano. Entre os primeiros cigarros e as últimas tacadas de snooker viveram um tempos que os marcou. Foram a primeira geração que viveu a democracia plena. Normalizada. Que ainda se lembravam das discussões domésticas sobre a escalada vertiginosa das taxas de juro e a necessária intervenção do FMI, ao tempo do Bloco Central, (a que nunca acharam muita graça pois diminuía os níveis de pancadaria na classe). Lia-se Miguel Esteves Cardoso e achava-se piada às coisas do eixo Manchester-Guincho-Carrazeda de Ansiães. Paulo Portas fazia estragos no governo, tratava do acessório enquanto o essencial era a descida da inflação e o acesso à “Europa”. Vasco Pulido Valente cilindrava a Picareta Falante. Os primeiros rasgos de modernidade, os BMW’s do Fundo Social Europeu, as primeiras mamas na televisão nacional e o fim dos inenarráveis programas culturais da matinèes televisivas. Gente que para quem o suplemento Olá do Semanário era leitura de sanita. E a revista Bravo trazia o último som do mundo desenvolvida - e os respectivos posters. Que daí a pouco tempo descobriria os Smiths e o New Musical Express. Há uma geração que nunca ficou entusiasmada com o Guterres - a Picareta Falante - não mais que uma emanação de um conspirativo sótão de Algés. Para quem Marques Mendes mais não era (é) que um apagado oportunista sem rasgo e membro do Grupo da Sueca. Gente que se riu às lágrimas pelas lágrimas sulistas-elitistas-e-liberais do Menezes em pleno Coliseu. Gente que ainda se ria com as Noites da Má Língua, (que parva aquela Rita Blanco). Que conheceu a Europa pelo inter-rail e viu a primeira MTV e que um dia até achou que a Catarina Furtado era uma bonita rapariga. Gente que acompanhou José Rodrigues dos Santos nos voos cirúrgicos dos F-16 em Fevereiro de 1991 no início da primeira Guerra do Golfo. E nos dias seguintes nas páginas do Público. Gente que ficou emocionada com o a queda do muro de Berlim e para quem o vai-e-vém lançado da Florida era o futuro hoje. E que até concordou com o Vicente Jorge Silva que os chamou Geração Rasca. Gente a quem diziam que os propósitos eleitorais e intenções de voto se manifestava dentro de uma parcela populacional mais rural do que urbana, mais rústica que sofisticada. Gente que jamais compraria um automóvel aos Jorges Coelhos, aos Santanas, aos Torres Couto. Gente que ainda hoje não percebe porque é que os supermercados fecham ao Domingo. Gente, como este que abaixo assina, que vai votar no Aníbal. E há os outros, claro, os que baixaram as calças numa manifestação anti-PGA. É a pré-história da democracia. E a história de algumas vidas
.

domingo, janeiro 15, 2006

Uma da Campanha de Alegre

Sejamos francos: quem é que nunca teve vontade de chamar "azedo" a Louçã, como Alegre chamou? Quem é que nunca quis dizer, alto e bom som, que ele parece um "director espiritual"? Quem é que nunca pensou, por um momento sequer, que ele anda mesmo "aos tostões"?
Louçã sentiu-se insultado. Acho bem. Quem é que não se sentiria insultado se lhe chamassem "azedo"? Quem é que não se sentiria insultado se lhe chamassem "director espiritual"? Quem é que não se sentiria insultado se lhe atirassem à cara que anda "aos tostões"?
Obrigado a Alegre e a Louçã por terem feito o que Cavaco nunca poderá fazer.

sábado, janeiro 14, 2006

Zeca, Aron e Outras Blasfémias

I.
A uma semana da derrota nas urnas, a esquerda entrega-se a uma guerra cultural que faria as delícias de Bourdieu. O primeiro tiro até foi disparado por Cavaco, quando cantou o "Grândola, Vila Morena". Mário Mesquita, em crónica no Público, condenou-o por "apropriação de símbolos alheios", "hipocrisia" e até "blasfémia de religião-política" porque essa canção exprime "o imaginário do 25 de Abril, da esquerda e muito em especial dos comunistas". Vital Moreira chega mesmo a perguntar, em tom catilinário: "não haverá limites para o oportunismo eleitoral?" Ontem, foi Alegre a declarar-se "chocado" por ouvir de Ramalho Eanes que "Cavaco é o candidato do 25 de Abril". O mesmo Alegre que se multiplica em homenagens a Cunhal, Torga, Fernando Vale, Salgado Zenha, Sousa Franco... O mesmo Alegre por sua vez acusado de "oportunismo" pelo comunista Jerónimo de Sousa e de "uma espécie de memória de Abril pequenina e oportunista" por Joana Amaral Dias. "Se Álvaro Cunhal fosse vivo, teria dito que não era decente", queixa-se aquele. "Será que Alegre até gosta de ver Cavaco a cantar a Grândola?", interroga-se esta.
II.
O mesmo argumento em distintas versões: há símbolos com uma origem política tão marcante que não podem ser património de todos. Algo assim como o totem da tribo, já que é de tribos que se trata. Não discutamos com as tribos os respectivos totems - a memória dos seus (e de mais ninguém) mortos, a superstição de saber o que eles pensariam se fossem vivos, o direito histórico de amaldiçoar os ímpios, o exaltante consolo de nomear perfídias e traições. Não discutamos porque é uma questão de fé. Há muito que Raymond Aron nos avisara: a política é o ópio dos intelectuais, a religião sem Deus dos órfãos das utopias. Tal como Le Pen quer "a França para os franceses", a esquerda recusa partilhar a sagrada herança. A França de Le Pen é mística, só existe por meio de uma visão ideal da pátria. A herança da esquerda é igualmente mística, só existe por meio de uma "mitologia retrospectiva". Por isso, a França de Le Pen pára às portas de Paris. Por isso, o imaginário de Abril pára às portas de Cavaco.
III.
Não discuto totems, mas discuto tabus. Para Aron, a tal "mitologia retrospectiva" fundava-se em três mitos: o mito da esquerda, o mito da revolução e o mito do proletariado. Todos estão vivos e todos são falsos.
A esquerda. Qual esquerda? A de Soares, a de Alegre, a de Louçã ou a de Jerónimo? Ou a de Garcia Pereira? Ou mesmo a de Sócrates? Qual delas é herdeira do imaginário de Abril?
A revolução. Aquela que alguns proclamam que, afinal, não foi feita? Ou a que felizmente existe e foi feita também pela direita - no Palácio de Cristal, no 25 de Novembro, em todas as eleições (sempre limpas, mesmo quando a direita perdeu), na vitória da AD e nas maiorias de Cavaco?
O proletariado. As massas? Mas as massas preparam-se para votar em massa no Cavaco "de direita", "liberal" e "dos interesses". Ou as sondagens reflectem um admirável país novo onde só há capitalistas e latifundiários?
Nos trinta anos da democracia portuguesa, a alternativa nunca foi apenas entre o PS e o PCP. Se assim fosse, teríamos simplesmente substituído uma ditadura por outra.
Era isso o que queriam?
Eu não.
E olhem que não sou o único.

Economia de Mercado

Paulo Gorjão, no Bloguítica:
"Soares parece Manuel Maria Carrilho nas últimas autárquicas: o que ele tem para dar os portugueses não querem; o que os portugueses querem ele não tem para dar. Não há vitória possível."

Portugal Amordaçado

O candidato do Partido Socialista já explicou porque é que não se pode confiar em sondagens. As empresas escolhem uma amostra de telefones fixos - FIXOS - e portanto, quando respondemos, sabemos que o inquiridor sabe a nossa identidade. Isso condiciona-nos, é um modo de pressão, o povo tem medo de responder Soares. Pode ser perigoso.

Mário Soares tem razão. Confesso que se fosse Soarista, nos tempos que correm, também me sentiria bastante constrangido em divulgar o meu sentido de voto sem a cobertura do anonimato. Até consigo imaginar o pessoal das sondagens do lado de lá aos risinhos: "ihihih, olha outro... hoje já o 4º... ihihi... o que conseguir o próximo paga as bicas."

(publicado no Blasfémias)

O "gosto" de Sócrates

José Sócrates, no Porto, desce à campanha de Mário Soares. As almas penadas do soarismo tardio têm passado o tempo a rosnar contra Sócrates por causa do alegado desamparo a que tem votado a sua escolha presidencial. Soares, num notável esforço de continência verbal, passou a coisa para o plano místico asseverando que Sócrates tem estado com ele, todavia "em espírito". Acontece que Sócrates, pelo que temos visto, tem sentido de Estado e não tem, de todo, sentido de circo. E a sua presença destina-se não tanto a "ajudar" Mário Soares a ganhar a Cavaco Silva - uma tarefa aparentemente inglória e inútil para quem exerce as funções de primeiro-ministro de um país em crise - mas mais a ajudar Soares a ganhar a Manuel Alegre. Daí para diante é com Soares, já que - como ele não se cansa de repetir - "é um gosto vê-lo em campanha".

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Mensagens para dentro do Partido Socialista

"Desenganem-se os que pensam que se podem desembaraçar de Mário Soares nestas eleições."

Medeiros Ferreira


Nota: Pelos vistos não sou o único a pensar assim.

Qualquer Coisa

Era de esperar.
Sem novos escândalos, o Bicho Carpinteiro e o Super-Mário postam avidamente a "carantonha" de Cavaco no seu (não) comentário televisivo à entrevista de Santana Lopes.
Se eu fosse o Nanni Moretti pedia-lhes, de joelhos, "digam qualquer coisa de esquerda, por favor! Digam!"
Mas não sou. Por isso, limito-me a pedir "digam qualquer coisa, por favor! Digam!"

Artigo de Luciano Amaral no Diário de Notícias

Hoje em dia, pouca gente se lembra do ambiente político português antes da sua primeira maioria absoluta, obtida em 1987. E se pouca gente se lembra, deve-se isso sobretudo a Cavaco. De facto, já nos esquecemos do extraordinário descrédito do sistema político entre 1976 e 1987. Governos que duravam entre dois anos e alguns meses, coligações espúrias e frágeis, conflitos permanentes entre os diversos órgãos de soberania eram o nosso pão quotidiano. Já poucos se recordam da sensação de crise perpétua, senão mesmo de inviabilidade, que então se tinha da nossa democracia. Foram as duas maiorias absolutas de Cavaco que acabaram com essa sensação. Foram elas a dar origem ao entretanto tornado célebre "centro", que as sustentou e que depois elegeu as quase maiorias absolutas de Guterres e Barroso e mesmo a corrente maioria absoluta de Sócrates. Ao criar o hábito do trânsito de votos entre os dois grandes partidos e ao criar o hábito (e a possibilidade) da estabilidade parlamentar e governativa, as maiorias de Cavaco passaram a ser, até hoje, o paradigma do bom governo democrático português. Foi por acreditarem que podiam voltar a essa idade de ouro que os eleitores correram a tentar ressuscitar a experiência, depositando os seus votos em Sócrates.
Num esforço patético e um tanto ridículo, Mário Soares ainda tentou, no famoso debate com Cavaco, reivindicar para si a autoria da estabilidade de 1987 a 1995. Afinal, assegurou- -nos, teria sido ele o seu garante, ao não dissolver o Parlamento e ao viabilizar grande parte das medidas da maioria e do Governo. O que Soares não disse é que não ter feito qualquer uma dessas coisas seria a sua morte política. Como poderia ele hostilizar sistematicamente ou inviabilizar as mais vastas maiorias parlamentares e os governos mais estáveis que Portugal alguma vez teve em democracia? O que Soares não disse é que, caso não existissem aquelas maiorias, ele seria, como Eanes, um Presidente permanentemente activista, talvez mesmo mais um factor de instabilidade. Como muito oportunamente lembrou Luís Aguiar Santos, no blogue da Causa Liberal (http://blog.causaliberal.net/), se Soares saiu das suas presidências com a imagem de Pai da Pátria, por todos aclamado, deve-o às maiorias de Cavaco. Estas maiorias serviram para disciplinar os seus piores instintos manobristas e arbitrários. Soares preparou-se para ir para a Presidência para pôr e dispor. Mas aconteceram então as duas maiorias absolutas, que ninguém previu e que o tolheram. As maiorias absolutas de Cavaco viabilizaram a nossa democracia quando muita gente começava a duvidar da sua governabilidade. Elas devolveram ao exercício dos poderes legislativo e executivo uma dignidade que sempre andou extraviada desde a fundação do regime. Tal como a conhecemos hoje, a democracia portuguesa é, portanto, em grande medida a democracia de Cavaco.

Nota: O André Azevedo Alves, faz notar que, segundo o Comics Soarista, afinal Luciano Amaral é da direita radical.