Pulo do Lobo

terça-feira, janeiro 03, 2006

Estelas Visigóticas

Em entrevista à SIC, Soares mostrou ontem ao povo da televisão a sua generosa biblioteca. Milhares de volumes, muito arrumadinhos, encadernados com letras de ouro - uma verdadeira beleza. Compreendo que Soares se orgulhe da senhora. Compreendo até muito bem, eu, cujos poucos softbacks que escaparam à fúria do sublinhado servem agora de arma de arremesso entre os herdeiros. Por razões mais ou menos sabidas, a minha compreensão aumentou quando Soares entrou na sala dos livros de história. "Aqui é a estante da história de Portugal", e apontou uma parede majestosamente forrada a couro vermelho. Esperei, com a curiosidade de quem dedica a vida a essas minudências, que o feliz proprietário nomeasse, ou folheasse, ou pelo menos apertasse junto do humanista coração algum dos calhamaços. Em vão. Soares limitou-se a dedilhar as lombadas e eu tive que adivinhar os autores. António Sérgio - de certeza. Jaime Cortesão - sem dúvida. Oliveira Martins - mais que provável. Piteira Santos e a revolução liberal - possivelmente. Os clássicos marxistas de Cunhal e Borges Coelho sobre a crise de 1383/85 - talvez. Orlando Ribeiro? Hummm... Muito técnico: geografia (influentíssimo, mas geografia). Mattoso? Hummm... Muito recente: a Identificação de um País é de 1985.
Na parede da frente, o voyeurismo pôde finalmente consolar-se. "E aqui a história da Ibéria"...
Reconheci logo as inconfundíveis capas verdes da grandiosa Historia de España da Espasa-Calpe, dita de Menéndez Pidal por ter sido este erudito a iniciá-la, já lá vão setenta anos. "Pouca gente em Portugal tem esta obra", assegurou Mário Soares. Pois claro: 65 volumes, 53 mil páginas, 3 876 euros só para os 36 volumes disponíveis (os outros estão esgotados), segundo a editora. E o melhor da investigação espanhola. Querem a síntese mais completa sobre estelas funerárias visigóticas do século VII? Está lá. Está mesmo: consultei-a a fim de aplacar uma maldita dúvida que me caiu, certo dia, sobre a tese de doutoramento. Soares não terá lido essa parte, nem se calhar os 65 volumes. Ninguém lhe leva a mal. Basta que os tenha em casa. Eu li as estelas visigóticas na biblioteca da FCSH, um pombal de donzelas que arrulhavam mutuamente desventuras amorosas a pretexto de invisíveis trabalhos de grupo. Não sou tão culto como o dr. Soares.

16 Comments:

  • At 6:21 da tarde, Anonymous Pedro Silva said…

    "(...)Se a direita tradicional votar Alegre, a direita conservadora pode muito bem votar Soares (já no outro dia tentei defender isso). Diga-se o que se disser, boa parte da direita já votou Soares no passado e, por mais que se demonize agora o seu segundo mandato, aprovou globalmente, com larga maioria, a sua passagem por Belém. Soares oferece previsibilidade; oferece aquela coisa que os conservadores apreciam mais que tudo, sentido das «instituições». Em matéria de política interna, não oferece surpresas; tão pouco oferece rupturas. Não é um «deles», mas é um adversário perfeitamente conhecido, tolerado, previsível. De resto, há gente conservadora (na linha de Freitas) que sabe que tem mais a confiar na abordagem prudente de Soares à política internacional, do que na rapaziada um pouco ciclotímica que preenche as comissões política e de honra de Cavaco, por estes dias. Uma direita moderada, a quem Soares deu a mão nos momentos realmente difíceis, não tem nada a temer desta experiência sobejamente conhecida.(...)"

    Parte do Post do Super Mário.

    (Resumindo, Soares vai ser igual, banal, sem ideias. Alguém que quer ser presidente apenas para que não o sejam outros, e não estou, como toda a gente sabe, a referir-me só a Cavaco. Mas peço a este senhor e a outros como ele que continuem com este tipo de campanha... Poupam trabalho a quem vai ter muito que fazer a seguir às próximas eleições.)

     
  • At 6:47 da tarde, Anonymous douro said…

    Haverà alguém de bom senso que acredite que o Soares leu alguma pàgina dessa mancha verde?

     
  • At 9:02 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Soares, para quê?

    Soares e o soarismo são, segundo diz Rui Mateus, uma das sedes da superstrutura tentacular que tudo abraça e que tudo controla, pois Soares criou uma “poderosa rede de influências sobre o aparelho de Estado através da colocação de amigos fiéis em postos-chave, escolhidos não tanto pela competência mas porque podiam permitir a Soares controlar aquilo que ele, efectivamente, nunca descentralizará – o poder”.

     
  • At 9:06 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Afirmações de Mário Soares...?
    «No dia em que eu abandonar o poder, quem voltar os meus bolsos do avesso, só encontrará pó.»
    «Hei-de virar e sacudir as algibeiras antes de deixar o poder. Dos meus anos passados, nem sequer levarei a poeira.»

     
  • At 11:00 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    "um pombal de donzelas que arrulhavam desventuras amorosas a pretexto de invisíveis trabalhos de grupo" (só retiraria o "mutuamente"). Belíssima, ainda que iludida (onde pararão as donzelas, Deus meu?) imagem.

    Luis Rainha

     
  • At 11:00 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    "um pombal de donzelas que arrulhavam desventuras amorosas a pretexto de invisíveis trabalhos de grupo" (só retiraria o "mutuamente"). Belíssima, ainda que iludida (onde pararão as donzelas, Deus meu?) imagem.

    Luis Rainha

     
  • At 11:31 da tarde, Blogger António Viriato said…

    Que Soares tem muitos livros, já sabíamos; que estima bibliotecas, também; se leu tudo aquilo, duvida-se, grandemente, a avaliar pela sua agitação política, nos últimos 30 anos; de resto, não se lhe nota o proveito de tão sábia companhia. Ficaremos, porém, menos pesarosos dessa falta de aproveitamento, porque, finalmente, irá dispor de tempo suficiente para regressar às leituras e brindar-nos com aquilo que nos havia prometido : a escrita das suas memórias. Mesmo temendo pelo rigor da narrativa, haveremos de reconhecer-lhe esse elementar direito de cidadania. Que a sua inspiração literária desabroche em muitas obras escritas, sempre será preferível a vê-lo outra vez em Belém, promovendo arraiais, jantares no Avis e outras iniciativas igualmente de inspiração conspirativa...

     
  • At 11:21 da manhã, Blogger ZP said…

    a biblioteca (ou a estante, para os menos afortunados)... que deja vu. só por isso não há saco para soares.
    para quando um candidato que se faz entrevistar em enquadramentos menos previsiveis?
    porque não na cozinha? com o louceiro por pano de fundo? ou no quarto de arrumos (as pilhas de roupa para passar a ferro) ou
    o ginasio (enquanto faz a sua meia hora de eliptica)? se aparecesse alguem assim, eu até repensava o meu voto em cavaco.

     
  • At 12:12 da tarde, Blogger DCP said…

    A reportagem que, segunda à noite, passou na sic notícias teve, sem dúvida alguma, momentos hilariantes. A fotografia da mãe do dr Soares, a ida aos pastéis de Belém, etc. A dado momento, depois de prostrado no sofá da sala, em amena cavaqueira com a jornalista, cheguei a pensar que iria pedir auxílio para se levantar. Mas não, lá se levantou no final, com algum esforço, mas sem ajuda.
    Uma reportagem triste, muito fraquinha, de propaganda política nunca antes vista, dedicada aquele que se tem queixado da comunicação social e do trataento que esta lhe tem dado.
    Só me resta dizer que "aguentei" a reportagem enquanto esperava ansiosamente que chegassem as famosas imagens da chapada que um segurança do Benfica deu a não-sei-quem no aeroporto e que eu ainda não tinha visto. Tempo perdido, portanto.

     
  • At 2:34 da tarde, Blogger Pedro Picoito said…

    Caro Luís, vejo que fizemos a tropa no mesmo quartel. Obrigado pela apreciação e sim, lendo melhor, talvez o mutuamente se possa retirar. Também sou da opinião que o melhor estilo é aquele que não tem uma palavra a mais.

     
  • At 2:43 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Anda tudo muito preocupado com a 'cultura'. Repito (já 'atirei o barro à parede', mas... nada!)que o conceito de cultura consensual, à esquerda e à direita, é coisa do passado. A cultura do séc. XXI (pelo menos, até + ou - 2030) parece-se mais com uma não-cultura, se aferida pelo conceito consensual e... morto. Mas como não sou assim tão pessimista, acho que devemos procurar aquilo que existe de vivo e promissor na 'incultura' deste primeiro quartel.
    Reconheço que não é a vocação deste blogue fazer o que eu proponho. Mas,'for God's sake', a questão presidencial está encerrada. Portanto...

    Vitor Correia

     
  • At 2:47 da tarde, Anonymous Ricardo said…

    Este é então o blog que critica o Super-Mário porque os seus autores estão sempre a falar no Cavaco, certo?

    E, afinal, o Pedro Picoito OUVIU a entrevista ao Dr. Mário Soares ou só se entreteve a olhar para as lombadas?

     
  • At 4:50 da tarde, Anonymous António P. Castro said…

    O último livro que o dr. Soares leu foi em 1954. Lembro-me bem, embora ainda não tivesse nascido.

     
  • At 2:48 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Pela bitola soarista quem devia sentar o sim-senhor em Belém era o prof. marcelo: que gandaleitor, para mais um fabiano com conversa e com passado.

     
  • At 11:12 da manhã, Anonymous Vasco Cunha said…

    Vocês não têm a noção do ridículo?

     
  • At 11:11 da tarde, Blogger Pedro Picoito said…

    Vocês quem?

     

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