Pulo do Lobo

sábado, janeiro 07, 2006

O povo é quem mais ordena

À esquerda, faces solenes e compungidas vociferam contra o oportunismo eleitoral de Cavaco. Em causa a criminosa apropriação de Zeca Afonso. As capelinhas estremecem e os capelões acordam, sobressaltados, para assistir e esbravejar contra o assalto dos cavaquistas ao imaginário da Revolução. Como se Zeca Afonso nos tivesse privado de o ouvir e cantar. Como se fosse possível desprezar Pavese por causa da militância comunista. Como se Beckett, por ter apoiado Miterrand à Presidência, lançasse no jugo do silêncio uma narrativa singular. Como se a Cultura fosse, enfim, propriedade exclusiva ou privilégio de classe.
O que este tipo de episódios e estas tolerantes criaturas nos parecem querer dizer é que, afinal, Sartre estava repleto de boas e progressistas razões quando garantiu, sem um rasgo de ironia, que a «cultura é de esquerda». A frase é antológica e tem raízes profundas numa História não muito longínqua. Na Vendeia, por exemplo, mataram-se homens e mulheres porque, segundo os iluminados da altura, a resistência ao condado das Luzes era motivo bastante para pôr em causa e condenar à guilhotina a própria humanidade dos refractários.
Mais de dois séculos passaram e esta insuportável superioridade moral continua a fazer cócegas no miolo de muita gente. O dr. Louçã confessou publicamente que não tem amigos de direita. O dr. Vital não nos deixa ouvir Zeca Afonso. A pretensa superioridade moral da esquerda tem servido sempre, nos momentos mais difíceis e desesperados, de alavanca teórica a uma estratégia que se afirma ao sabor do mais delirante estalinismo, tão eficiente como desleal: a desumanização ideológica, que procura encenar uma espécie de cruzada moral, entre enciclopedistas instruídos e uma burguesia por alfabetizar.
Se, como pretendia Coleridge, se nasce apenas platónico ou aristotélico, para os filhos de Rousseau, ou se nasce de esquerda ou se nasce ignorante. Nestas eleições, pela dimensão simbólica que o próprio cargo assume no regime, o combate também é cultural. E a cultura, como a Presidência, não tem dono. Em democracia, e para suprema tristeza de alguns, o povo é mesmo quem mais ordena.

15 Comments:

  • At 11:05 da manhã, Blogger Pedro Estácio said…

    Mas isso é a esquerda no seu melhor!!
    Arrogante e detentora do monopólio da liberdade e da democracia...

    E ele é que são os "democratas"!!!

     
  • At 1:02 da tarde, Blogger Bart Simpson said…

    A questão não é saber quem é o dono de "x" ou "y" mas o aproveitamento foleiro de um simbolo politico de um quadrante que cavaco não representa. Usar Zeca para ganhar votos, numa vila com um passado de luta anti-fascista, é de baixo nível.
    Já agora, da próxima vez que cavaco lá for, coloquem em fundo o "Avante Camarada"...que é uma música perfeitamente banal e sem qualquer tipo de significado!
    Vale tudo, não é?

     
  • At 1:48 da tarde, Anonymous António P. Castro said…

    Se a estupidez fosse música, este Bart Simpson seria, não o "Grândola Vila Morena", mas o "Afinal Havia Outra".
    Chiça!!!

     
  • At 1:50 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    "...o aproveitamento foleiro de um simbolo politico de um quadrante que cavaco não representa."

    Para mim, (que vou votar Cavaco)o "Grândola" é um símbolo do 25 de Abril. Estarás a querer dizer que o quadrante que Cavaco representa não acredita na Liberdade, não queria o 25 de Abril?

    Cuidado, olha que é capaz de ser mais de metade da população portuguesa...

    Vocês e a vossa tradicional arrogância de espírito...

     
  • At 3:19 da tarde, Blogger tonitosa said…

    Na verdade o Jerónimo não nos surpreende com estes dislates. E também, o Velho Mário com os seus disparates.
    Como dizemos por vezes: deixá-los falá-los que eles calarão-se-ao!
    Ou mais humildemente dirgamos:perdoai-lhes Senhor porque não sabem o que dizem!

     
  • At 4:58 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    De facto foi na Vendeia que as grandes desgraças começaram: a querida Revolução só ali matou centenas de milhares, de mulheres, velhos e crianças. É ler Chaunu. Quanto à 'cultura', ao 'humanismo' e outras falsidades é de ler Fumaroli. Claro que a pedreirada gosta de ter franceses a metro na estante, mas não estes...

     
  • At 5:47 da tarde, Blogger Pedro Picoito said…

    Excelente post. E não digo nada ao Bart Simpson porque já foi dito antes de mim.

     
  • At 5:59 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Sartre deve ter largado aquela 'pérola' com a maior das boas consciências...
    A arrogância cultural da esquerda, a sua pretensa superioridade moral, tornaram-se insuportáveis.
    E eu falo 'de dentro'(embora eles me pusessem fora, de boa vontade); porque são valores (?) de refúgio, que fazem da esquerda uma força política conservadora, esclerosada e verdadeiramente reaccionária.
    O desafio é propor soluções 'de esquerda' para os problemas deste mundo e, esse guante, ela não apanha, nem está capaz de o fazer...
    Quanto ao 'Grândola': É certo que o Zeca, a liberdade e a democracia não são propriedade de nenhum grupo; era só o que faltava! Mas trata-se de um fenómeno multifactorial, que não consigo analisar de uma penada.
    Se querem saber, também fiquei ligeiramente constrangido... Mero preconceito, ou mais do que isso? Ainda não cheguei a uma conclusão...

    Vitor Correia

     
  • At 5:14 da tarde, Blogger Clara said…

    Eu não sei se Cavaco vai ganhar as eleições, a ver vamos...Mas de uma coisa tenho a certeza absoluta: se ganhar, pela 1ª vez depois do 25 de Abril, um PR não terá o respeito nem a caitação do povo todo. Nunca nós de esquerda aceitaremos nem respeitaremos semelhante criatura!

     
  • At 5:42 da tarde, Anonymous Joaquim Gonçalves said…

    «Respeito e caitação do povo todo» Quem é que disse ó badameca (menina Clara) que nós, povo de direita, algum dia respeitámos o Soares Maçon ou o choramingas do Sampaio? É esta arrogância que me tira do sério. É POR ISTO QUE CAVACO DEVE GANHAR! Só pa te ver toda tristonha ó carlinha..

    Joaquim Gonçalves

     
  • At 6:05 da tarde, Anonymous António P. Castro said…

    Não há dúvida de que esta Clara é uma ganda democrata soarista...

     
  • At 6:18 da tarde, Anonymous cabeça de abóbora said…

    Pois é cara Clara, da outra vez tiveste que ir votar no Soares a beber água das pedras e a tomar sais de frutos e mesmo assim sempre lhe lambeste as botas!
    Agora eu que tive que aturar esse traidor durante 10 anos, imagina como se sentirei feliz quando vir o Prof. puxar o autoclismo e ele e as suas bochechas deslizarem pelo esgoto abaixo.
    E se tu nunca aceitarás semelhante criatura, talvez possas imaginar o que nós passámos durante os dez anos em que o imbecil do Soares foi Presidente.

     
  • At 8:45 da tarde, Anonymous Carlos Anjos said…

    Clarinha, já viu que chegou a uma grande e óbvia conclusão, os democratas estão na direita, que aceitaram Presidentes de esquerda, sem problemas.
    Agora, os democratas de esquerda, não querem aceitar um Presidente de direita, afinal onde estão os democratas ?

     
  • At 9:47 da tarde, Blogger Tiago Geraldo said…

    Preparava-me para responder à Sra. Clara quando vejo que outros o fizeram exemplarmente. Faço minhas as vossas palavras.

    Cumprimentos especiais ao António P. Castro que ganhará certamente, e à primeira volta, o prémio de comentador mais assíduo.

     
  • At 12:40 da manhã, Blogger António Viriato said…

    Na verdade, a «Grândola, Vila Morena» do saudoso Zeca Afonso foi quase que privatizada por certos grupos de Esquerda e Extrema-Esquerda, mas sem nenhuma razão, porque ela faz parte de um património cultural colectivo, para o qual contribuiram revolucionários e moderados, como, de resto, se passa com muita outra poesia e música popular portuguesa.

    Se fôssemos atender aos actuais gostos ou sensibilidades políticas presentemente dominantes, muitas dessas peças patrimoniais ficariam cativas de grupos ou sectores minoritários do povo português, o que seria absurdo.

    Por idêntico critério, só Comunistas, Anarquistas ou outros rematados Revolucionários poderiam dizer ou cantar quadras do Aleixo, sonetos do Bocage ou até, num plano mais culto, mesmo algumas estrofes dos Lusíadas de Camões, o que seria ainda mais absurdo...

    Deixe-se pois a canção do Zeca entrar no domínio público, tal como aconteceu na noite do 25 de Abril de 1974, sem indevidas privatizações, ainda por cima, por parte de quem costuma ser contra as ditas...

     

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