Pulo do Lobo

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Cavaco e os Liberais (Sem Hayek, Que Foi Jantar)

A propósito das declarações de Cavaco sobre empresas públicas não privatizáveis, o Miguel Noronha e o Gabriel Silva voltam a avisar-nos de que o nosso candidato não defende o liberalismo quimicamente puro. Já sabíamos, mas aproveito para responder a alguns comentários ao meu post da menina Hayek, como tinha prometido, enquanto não escrevo a autobiografia social-democrata exigida pelo João Pinto e Castro. (E depois queixam-se de que isto parece um confessionário...)
Os argumentos dos liberais para não votar em Cavaco são sobretudo dois.
Vejamos o primeiro (ele não representa o ideário liberal) e deixemos por enquanto o segundo (ele não fez uma política liberal).
É verdade que o Professor se define como um social-democrata e até foi acusado por Mário Soares de fazer "um discurso de esquerda". Só que esta evidência esconde outra. O liberalismo que Miguel, Gabriel e outros arcanjos pedem a Cavaco não é o único liberalismo possível, mas o chamado neoliberalismo, o das escolas de Viena e Chicago. O liberalismo é bem mais antigo e bem menos neoliberal. O liberalismo do século XIX talvez passasse hoje por estatista. Basta lembrar que instituiu pela primeira vez na história (da Europa, pelo menos) o serviço militar obrigatório e o imposto universal, além de manter uma religião de Estado, que subsiste ainda em Inglaterra e nos países escandinavos. Burke, Benjamin Constant ou Tocqueville estavam menos preocupados com a livre iniciativa económica do que com as liberdades de expressão, de associação e de culto. No seu tempo, o Estado ameaçava sobretudo estas e não aquela. Talvez por isso blasfemos e insurgentes ignorem olimpicamente tais autores. Fazem mal porque eles não estão longe do liberalismo de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, ambos defensores de políticas intervencionistas em certas áreas, por exemplo a cultura. Herculano, benza-o Deus, transferiu para a moderna Torre do Tombo os fundos documentais que recolheu pessoalmente nos mosteiros extintos e Garrett, que Deus o abençoe, construiu o Teatro Nacional com o explícito fim de proteger a arte portuguesa, seja lá o que isso for.
Aliás, entre nós nunca houve verdadeiros liberais - segundo semelhante liberalómetro. Mesmo a famosa "ala liberal" de Sá Carneiro, a única voz antes do 25 de Abril a falar de liberdades no Parlamento, acabou por dar origem ao PSD, um partido de centro-esquerda. (A confusão que isto deve fazer ao Super-Mário...) O dilema, portanto, não está em saber se Cavaco é ou não um liberal, mas em saber se é o melhor candidato para os liberais. Imaginem, por absurda hipótese, que um governo qualquer avança a sério com a reforma da administração pública. Quem querem ter em Belém: o mauzão de Boliqueime ou os tutores dos "direitos adquiridos"?
A isto chama-se política. E só há duas maneiras de fugir à política: ou voltar ao Paraíso, de onde nos expulsou o pecado original, ou rumar à Lua, onde nos espera a ficção científica. Quem vive no mundo real tem de sujar as mãos.

12 Comments:

  • At 3:17 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Cavaco foi o mais liberal dos PM's depois do 25A. Mesmo assim, ele não é um liberal; tanto que se deixou enredar nas teias das nossas inúmeras corporações, o que terminou em desastre.
    Mas agora pergunto eu: é assim tão importante um PR ser liberal? O PR mais 'liberal' que tivemos é o presente e, embora exista uma quase unanimidade acerca de ser ele o PR 'perfeito', o que é certo é que o seu 'liberalismo' contribuiu para uma das mais longas, estúpidas e ruinosas crises políticas do período pós-revolucionário.
    Deus me livre dos 'liberais', que dos outros livro-me eu...

     
  • At 5:44 da tarde, Blogger Joao P. Noronha said…

    "...ou ir para a Lua, onde nos espera a ficção científica."

    Sugiro a leitura do clássico de 'libertarian Sci-fi' "The Moon is a Harsh Mistress"

    http://www.amazon.com/gp/product/0312863551/qid=1133545416/sr=8-1/ref=pd_bbs_1/103-7769388-7067862?n=507846&s=books&v=glance

     
  • At 7:10 da tarde, Blogger Gabriel said…

    algumas correcções:
    1. não peço a Cavaco que seja "liberal", pois não gosto de forçar ninguém a ser o que não é.
    2.O serviço militar obrigatório, a religião de estado, o Teatro Nacional são bons exemplo de coisas que nunca deveriam ter sido feitas, são medidas erradas e nada tem a ver com liberalismo defendidos por esses ou de outros autores.
    3. O Estado continua a ameçar a "liberdade de expressão, de associação e de culto" sob várias formas, sendo a limitação à liberdade económica apenas uma versão daquelas.
    4. não tenho, e acho dificil que alguém tenha "dilema" em saber se Cavaco é liberal.

    O único argumento dos apoiantes mais liberais de cavaco é o que ele é o menos socialista dos candidatos. Argumento pobre e que não justifica um apoio, pois que em caso de a disputa ser alegre/soares, também um deles seria menos socialista e nem por isso estou a ver os caros amigos a fazer campanha por algum deles.

    O que julgo que leva algumas pessoas a serem apoiantes declarados de cavaco é a esperança que essa corrente, mais liberal, leve o futuro presidente a tomar um rumo mais liberal. O que escrevo tenta apenas demonstrar que isso é pura ilusão. Que se pagará caro.

     
  • At 10:17 da manhã, Blogger Joao Galamba said…

    Caro Gabriel,

    Eu nao sou Cavaquista, mas acho que o post do Pedro esta francamente bom e acertado em tudo o que escreve. Voce e' que erra ao dizer "serviço militar obrigatório, a religião de estado, o Teatro Nacional são bons exemplo de coisas que nunca deveriam ter sido feitas, são medidas erradas e nada tem a ver com liberalismo defendidos por esses ou de outros autores". Mas esta' a falar de Liberalismo ou do Seu Liberalismo? Eu tenho a sensacao que certos neoliberais tendem a monopolizar o termo e transforma-lo a seu belo prazer. Como bem sabe a tradicao liberal nao se esgota na escola austriaca. Patriotismo nao e' nenhum crime e o servico militar obrigatorio nao e' necessariamente um anatema para os Liberais. O Tocqueville era um liberal, mas ficaria perplexo com as ideias de Mises, Rothbard e companhia. Ele valorizava o collective self-rule, que e' uma nocao de liberdade muito diferente da que o seu liberalismo tende a usar. O servico militar obrigatorio em Israel 'e um dever patriotico, se calhar ha paises que nao o justificam, mas podem ter algum tipo de servico comunitario como alternativa. Nao digo que devam ter, mas apenas que nao e' necessariamente anti-liberal. O homem nao e' um atomo, e cada um de nos tem obrigacoes nao contratuais para com a sociedade onde vivemos pois sem ela nao seriamos pessoas, nem individuos, nem liberais. Penso que tanto o Burke como o Tocqueville nao repudiariam estas afirmacoes.

    Cumprimentos,
    Joao Galamba

     
  • At 10:17 da manhã, Blogger Joao Galamba said…

    Caro Gabriel,

    Eu nao sou Cavaquista, mas acho que o post do Pedro esta francamente bom e acertado em tudo o que escreve. Voce e' que erra ao dizer "serviço militar obrigatório, a religião de estado, o Teatro Nacional são bons exemplo de coisas que nunca deveriam ter sido feitas, são medidas erradas e nada tem a ver com liberalismo defendidos por esses ou de outros autores". Mas esta' a falar de Liberalismo ou do Seu Liberalismo? Eu tenho a sensacao que certos neoliberais tendem a monopolizar o termo e transforma-lo a seu belo prazer. Como bem sabe a tradicao liberal nao se esgota na escola austriaca. Patriotismo nao e' nenhum crime e o servico militar obrigatorio nao e' necessariamente um anatema para os Liberais. O Tocqueville era um liberal, mas ficaria perplexo com as ideias de Mises, Rothbard e companhia. Ele valorizava o collective self-rule, que e' uma nocao de liberdade muito diferente da que o seu liberalismo tende a usar. O servico militar obrigatorio em Israel 'e um dever patriotico, se calhar ha paises que nao o justificam, mas podem ter algum tipo de servico comunitario como alternativa. Nao digo que devam ter, mas apenas que nao e' necessariamente anti-liberal. O homem nao e' um atomo, e cada um de nos tem obrigacoes nao contratuais para com a sociedade onde vivemos pois sem ela nao seriamos pessoas, nem individuos, nem liberais. Penso que tanto o Burke como o Tocqueville nao repudiariam estas afirmacoes.

    Cumprimentos,
    Joao Galamba

     
  • At 4:36 da tarde, Blogger Gabriel said…

    Caro João,
    Não tenho por hábito fazer afirmações do que está errado e do está certo.
    Como me já vai sendo habitual, isso deixo ao seu cuidado.....
    Limito-me a expressar o que penso, tentando quanto possível argumentar. Na sua insuficiência, aprendo.
    Assim, do que conheço dos autores citados não lhes conheço a defesa do sistema militar obrigatório, da opção pela religião de Estado ou da criação de Teatros nacionais. Isso foi o que escrevi. Mas estou aberto a rever tal posição, se o meu caro amigo asssim fizer o favor de me indicar a respectiva bibliografia que contradiga a minha afirmação.

    Evidentemente temos obrigações contratuais e não-contratuais para com a sociedade em que vivemos. No entanto, não aceito, nem vejo que "sem ela nao seriamos pessoas, nem individuos, nem liberais."
    Enquanto individuo sempre serei eu (pessoa e individuo), autonomamente do que a sociedade o determine.

    E sim, escrevo sempre sobre o "meu liberalismo" e não sobre uma qualquer ortodoxia.
    Para justificar/argumentar o que defendo, para os dias de hoje, socorro-me de pensadores que julgo liberais. E como em tudo na vida, tais pensadores tem coisas que permanecem actuais, outras não, outras que possibilitam adaptações, etc.
    Julgo que a actividade política é mesmo assim que se desenrola: perante a situação actual, defende-se a sua transformação num certo sentido, socorrendo-se para tal de ideias, estudos, práticas, etc, que outros já aplicaram, já estudaram, já teorizaram e que julgamos, no nosso critério as mais convenientes, e, com as devidas adaptações, tenta-se aplicar ou defender a sua aplicação nas sociedade actuais. Raros, embora não impossível, serão os casos em que se crie algo de totalmente novo. Enquanto interveniente em discussões políticas é assim que me situo.

     
  • At 11:33 da tarde, Blogger Pedro Picoito said…

    Só um pequeno parêntesis no vosso debate (a que, de resto, estou a assistir com muito gosto): eu não disse que Tocqueville, Burke ou Constant defendiam o serviço militar obrigatório, o Estado confessional ou os teatros nacionais. Disse que, embora liberais, não se opunham necessariamente a estas coisas e, sobretudo, que elas nascem, com as suas características modernas, em regimes liberais dos séculos XVIII-XIX.

     
  • At 3:04 da manhã, Blogger Tiago Mendes said…

    Caro Pedro,

    Pena chegar também eu atrasado ao debate. Só para te dizer que não só concordo com tudo o que dizes, como nunca na minha rica vida pensei estar tão em sintonia contigo neste(s) tema(s)! Destaco isto:

    "O liberalismo que Miguel, Gabriel e outros arcanjos pedem a Cavaco não é o único liberalismo possível, mas o chamado neoliberalismo, o das escolas de Viena e Chicago."

    "Burke, Benjamin Constant ou Tocqueville estavam menos preocupados com a livre iniciativa económica do que com as liberdades de expressão, de associação e de culto."

    "Talvez por isso blasfemos e insurgentes ignorem olimpicamente tais autores. Fazem mal porque eles não estão longe do liberalismo de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, ambos defensores de políticas intervencionistas em certas áreas, por exemplo a cultura." (POIS!)

    "Herculano, benza-o Deus, transferiu para a moderna Torre do Tombo os fundos documentais que recolheu pessoalmente nos mosteiros extintos e Garrett, que Deus o abençoe, construiu o Teatro Nacional com o explícito fim de proteger a arte portuguesa, seja lá o que isso for."

    "A isto chama-se política. E só há duas maneiras de fugir à política: ou voltar ao Paraíso, de onde nos expulsou o pecado original, ou rumar à Lua, onde nos espera a ficção científica. Quem vive no mundo real tem de sujar as mãos."

    Este final está retumbante - bravo, bravo, bravo. É preciso sujar as mãos para que alguma "obra" se faça. Totalmente de acordo. Viver em mundos idílicos não serve para muito.

    Sinceros parabéns por este grande texto. Um abraço,

     
  • At 3:42 da manhã, Blogger Joao Galamba said…

    Caro Gabriel,

    Gostava que me dissesse onde e' que eu escrevi que Cosntant ou Tocqueville defendiam o servico militar obrigatorio. Disse apenas que nenhum dos autores que cita seria neoliberal. O servico militar obrigatorio foi apenas um exemplo que useia para ilustrar um determinada interpretacao de dever de cidadania, neste caso Israel.

    Para mim permanece um misterio que neoliberais invoquem Tocqueville. A nocao de liberdade deste autor nao e' a vossa. E' liberdade republicana, self-rule, que e' uma forma de liberdade positiva.

    Acho curioso essa vossa recente fixacao com o facto eu apontar erros ou imprecisoes a terceiros. Acho perfeitamente natural que se corrija algo que se considera ser impreciso ou errado, principalmente quando ha pessoas que decidiram apropriar-se e monopolizar o termo Liberal

     
  • At 8:56 da manhã, Blogger Pedro Picoito said…

    Só uma pequena correcção a mim mesmo: no Ocidente, o Estado confessional não nasce evidentemente com o liberalismo, mas na sequência das guerras religiosas entre católicos e protestantes. Deixei-me levar pelo entusiasmo. O que queria dizer é que o liberalismo é compatível com uma religião oficial (Portugal no século XIX ou Inglaterra hoje, por exemplo), ao contrário do que afirmam os neoliberais ou os liberais "libertários".

     
  • At 3:33 da tarde, Blogger Gabriel said…

    Caro João,
    - Não fui eu que "invoquei" Tocqueville, mas o João.
    - O serviço militar obrigatório não pode ser uma "interpretação do dever de cidadania" uma vez que a sua existência e cumprimento deriva só da lei. Ou seja, é independentente da valoração que os cidadãos façam da existência ou não de um dever.
    - aparentemente, sou catalogado de "neoliberal" (não é original, no Causa Nossa também me chamam isso, á falta de argumentos), embora deva confessar que não sabendo ao certo o que isso seja, não posso apreciar se tal é positivo ou negativo. Portanto, essa passo.
    - «A nocao de liberdade deste autor nao e' a vossa». Uma vez que escrevo por mim mesmo, não estou a ver de onde sai esse "vossa". Devo estar catalogado em algum grupo que desconheço.
    - "quando ha pessoas que decidiram apropriar-se e monopolizar o termo Liberal": Sim também, concordo. Mas mais uma vez não vejo o que tenho a ver com o facto. O João é que me diz o que supostamente sou ("neoliberal"), integrou-me em algum agrupamento pouco claro ("vossa") e também me "esclareceu" que certos autores liberais discordariam de mim. Vá lá saber-se porquê. Apontar erros e falhas é o mais natural num processo de discussão, simplesmente até agora, só me apontaram falhas de coerência com certas ortodoxias, o que pessoalmente considero totalmente irrelevante.

    Voltando ao ponto de partida. Há uma falha de interpretação do Pedro Picoito, secundada por Tiago Mendes e pelo João: a de que supostamente eu desejaria ou pediria a Cavaco que fosse liberal, ou defendesse politicas liberais. Longe disso. Por saber que tal lhe é impossível é que o não apoio. E é só isso.

     
  • At 8:06 da tarde, Anonymous Helder said…

    Não é "quimicamente puro", é "bacteriologicamente puro", que soa muito melhor.

     

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