Pulo do Lobo

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Uma modesta cabana, um tecto de colmo

Aparentemente, as coisas vão-se passar como tinham obrigação de se passar. Cavaco ganhará (à primeira). Fez uma pré-campanha praticamente sem erros, e a campanha está a seguir o mesmo caminho. Soares, ajudado por finos estrategas e por apoiantes que usaram e abusaram de uma deprimente puerilidade, fez de conta que pertence àquela metade da humanidade que ignora o que pensam os restantes quatro quintos. Na luta fratricida entre a "Praça da Canção" e o "Pátio das Cantigas", o simpático "deputado-poeta", pelo seu lado, esteve, sem se incomodar, ao nível dos seus versos, e até Joana Amaral Dias sobre ele escreveu coisa com sentido. Se ficar à frente de Soares, não o merece - mas Soares, inconcebivelmente, merece-o, entre outras coisas por não ter sabido aperceber-se da muito generalizada detestação pela sua pessoa, uma detestação cujas razões - boas, más e ambíguas - Paulo Varela Gomes explica (muito bem) às quartas na RTPN. No PS, todos se perdoarão tudo, mas à maneira de Heine: "Tenho as disposições mais pacíficas. Eis os meus desejos: uma modesta cabana, um tecto de colmo, mas uma boa cama, boa comida, leite e manteiga bem frescos, flores em frente à janela, face à porta algumas belas árvores, e, se Deus me quiser tornar perfeitamente feliz, far-me-á conhecer a alegria de ver seis ou sete dos meus inimigos pendurados nessas árvores (...) Devemos, sem dúvida, perdoar aos nossos inimigos, mas não antes de os ver enforcados". Estas coisas, no entanto, não interessam, ou interessam pouco, como pouquíssimo interessa o patético sentimento de irrealidade, e não apenas de vacuidade, a que a campanha de Soares fatalmente o força - a ele e aos seus apoiantes, como, por exemplo, a um homem cordato como Augusto Santos Silva que deu por si a falar, a propósito da presumível eleição de Cavaco, de "golpe de estado constitucional". Ou o costumeiro delírio de virtude de Louçã. Ou o que se quiser. A única coisa que verdadeiramente interessa é saber o que fará Cavaco Silva com a vitória - uma vitória a que o facto de ser o único candidato com um comprometimento efectivo e a quem depois poderemos pedir contas praticamente o condena. Interessa saber se vai valer ou não a pena: sobretudo a dele. Esperemos bem que sim.
Estou a falar antes do tempo? Claro que estou: nos dias que faltam podem acontecer imensas coisas. Mas é improvável que joguem contra Cavaco.

1 Comments:

  • At 5:29 da tarde, Blogger Vitor Correia said…

    Não sei se ganhará á 1ª; é provável, mas é assunto que não me tira o sono. Estou convencido de que ganhará; se for à 1ª, sempre fica mais barato.
    E o 'day after'?
    Cavaco - Acredito que tem a maturidade pessoal e política para se entender com Sócrates, coisa de que o País muito necessita. Golpe de Estado Constitucional? Passando de lado a hipérbole, nunca ouvi o Dr. Santos Silva verberar o conceito muito pessoal que Sampaio teve do semi-presidencialismo, nem aquela afirmação do mesmo Sampaio acerca da 'atmosfera de grande consenso acerca dos poderes Presidenciais' que caracteriza a presente campanha eleitoral. Temos o Dr. Santos Silva a pedir meças ao 'Cavaleiro da Triste Figura?
    Manuel Alegre - se ficar à frente de Soares, não merece, mas tem piada...
    Mário Soares - se ficar atrás do poeta, merece e torna a merecer. Bem feito!
    Louçã - missão cumprida.
    Jerónimo - missão cumprida.
    G.Pereira - missão comprida e repetitiva. Felizmente, ninguém é eterno...
    Outros - Eleição Presidencial sem Outros é como Cozido sem Todos...

     

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