Pulo do Lobo

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Ainda não chegámos à Madeira

Não é tanto o desespero que eu vejo na diatribe de Soares contra o alegado enviezamento cavaquista da comunicação social. Parece-me, mais do que isso, uma outra manifestação do seu espírito de senhor feudal. Soares quis meter-se de novo no quotidiano do combate político, mas esperou sempre que seria tratado como um senador inquestionável. Não o está a ser, e muito bem. Em eleições democráticas, o passado dos candidatos pode influir no resultado final, na ponderação do eleitorado; nunca nas condições com que cada um parte. Portugal não é a Madeira do Dr. Soares.


A este propósito, vale a pena ler - como sempre - o João Miguel Tavares, no DN de hoje:

Coitadinho do Dr. Soares

No dia anterior a Mário Soares ter vindo para a televisão queixar-se outra vez do malévolo papel da comunicação social na cobertura da sua campanha, eu vi-o na SIC Notícias, acompanhado por Anabela Neves, a passear longamente pelos quartos da sua casa, a mostrar as enciclopédias de história, os livros de filosofia, os dicionários, e até as obras completas do cardeal-patriarca, em vários volumes que tinham pinta de nunca terem sido abertos mas que ficavam a matar na TV. A não ser que Anabela Neves, sempre solícita, tivesse ido para a cozinha fritar umas perninhas de rã e as servisse como aperitivo ao ex-presidente, não consigo imaginar de que forma um canal de televisão poderia tratar o dr. Soares com maior simpatia. É disto que ele se queixa?

Cada vez que se quer atacar Mário Soares fala-se de Macau, da Emaudio e do livro de Rui Mateus, e é bem verdade que nenhum jornalista o confronta com os detalhes mais sombrios do seu passado. Mas nem vale a pena desenterrar as conexões asiáticas circula pela Net e pelos blogues um pequeno excerto de um recente noticiário da SIC em que Soares mete os pés pelas mãos ao comentar umas declarações de Ribeiro e Castro, numa atrapalhação mental tão grande que ao pé dela até a gafe do PIB empalidece. Pergunta: porque não passaram essas imagens mais vezes? Porque é que elas, como aconteceu com Guterres, não foram repetidas até à exaustão?

Porque a verdade é esta a última vez que a comunicação social tratou mal Mário Soares ainda havia dodós nas ilhas Maurícias. A acusação do ex-presidente só não é um absurdo porque o seu objectivo é bastante claro: condicionar, na medida do possível, o trabalho dos jornalistas, pressionando-os a um olhar mais favorável sobre a sua candidatura. Soares, como é evidente, não acredita estar a ser maltratado pela comunicação social. Só não está a ser tão bem tratado quanto gostaria - e já começou a tratar disso.

3 Comments:

  • At 3:15 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    ..."e já começou a tratar disso."
    Sem dúvida que sim, pois até é especialista nisso e, se não ele, outros, por ele, o farão. Dúvidas?

    (Texto publicado na "Grande Reportagem" em Abril de 2002)
    O PRESIDENTE QUE GOSTAVA DE JORNALISTAS

    "As presidências abertas foram construídas para dar visibilidade ao dr. Soares e para desgastar Cavaco Silva", diz Estrela Serrano em declarações à GR.
    A hoje directora do departamento de jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social descreve a assustadora homogeneidade com que os repórteres seguiram sem desvios os temas e enquadramentos propostos pelo chefe de Estado nessas campanhas, mesmo quando elas se transformaram num combate indisfarçável ao governo legítimo da nação duas vezes eleito por mais de 50% dos votos.
    O principal garante do respeito pelo escrutínio popular patrocinava assim manifestações e protestos que se desenrolavam a par e passo das suas cerimónias oficiais enquanto presidente da República, com improvisações organizadas e bandeiras negras que emergiam por entre o normalíssimo funcionamento das instituições democráticas e sem ameaça visível no horizonte para além do ruído mediático acerca de uma misteriosa ‘ditadura da maioria’ que ninguém percebia onde é que estava.
    Esta lógica alcançou o auge na peregrinação à volta da Área Metropolitana de Lisboa, entre 30 de Janeiro e 15 de Fevereiro de 1993, um ano e três meses após a segunda maioria absoluta do PSD e num ambiente em que a guerra entre Belém e S. Bento atingia proporções de comédia com a hipótese de dissolução da Assembleia da República.
    Ao longo de duas semanas agricultores, estudantes, moradores, sindicalistas, desempregados, ambientalistas esperavam Soares e este era informado com antecedência da sua presença.
    Os assessores alertavam os jornalistas para não perderem esses momentos, a segurança encarregava-se de lhes abrir passagem até junto do primeiro magistrado da nação e este não iniciava os seus discursos sem estar rodeado dos repórteres. O staff presidencial combinava encontros informais entre o chefe de Estado e os media e se os enviados dos órgãos de comunicação social considerados mais influentes não solicitavam uma conversa privada com o inquilino de Belém eram os assessores que tomavam a iniciativa de a sugerir para se certificarem de que a perspectiva do jornalista não era desfavorável a Soares.
    "A proximidade e o convívio existente entre os jornalistas que acompanhavam o Presidente e os assessores permitiam que estes se apercebessem das reacções dos jornalistas a determinados eventos ou palavras do Presidente e o informassem de que era necessária uma sua intervenção no sentido de um enquadramento favorável, que surgia então como natural", escreve Estrela Serrano.
    Soares começava o dia a ler o Diário de Notícias e o Público e de 24 em 24 horas era informado pelo seu staff da cobertura total que estava a ser feita. À hora dos principais telejornais a caravana parava, mas quando isso não acontecia a equipa do chefe de Estado gravava-os em vídeo para serem vistos à noite de modo a avaliar o impacto dos acontecimentos e se fosse caso disso introduzir correcções de estratégia. "A leitura dos jornais e o facto dos autores das notícias se encontrarem quase permanentemente junto do Presidente e dos assessores facilitava o controle de desvios ao discurso oficial", escreve Estrela Serrano..."

    (nota - Estrela Serrano era assessora de imprensa do presidente Soares)

     
  • At 3:45 da tarde, Blogger ZP said…

    touché!

     
  • At 4:49 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Entre tantos livros, um deveria, certamente, estar em lugar de destaque. Porque não?

    Transcrições do livro de Rui Mateus que contam algumas partes da fabricação do mito Soares.

    “No tempo em que Deus foi laico, republicano e socialista”
    ( 1985-1986 )
    (transcrição fiel. As partes a Bold são minhas)

    Em Março de 1984, quando da visita oficial aos EUA, visitámos, no dia 17, dia livre em Nova Iorque, o velho amigo e antigo secretário-geral da IS, Hans Janitschek, na sua residência frente ao Central Park.
    Aí falar-se-ia abundantemente da próxima candidatura a Belém. Um dos handicaps, evidenciado pelo total desinteresse que a visita do primeiro-ministro despertara na comunicação social norte-americana, prendia-se com o feedback desse aparente desinteresse que a televisão rapidamente transmitia aos eleitores portugueses.
    Era necessário algo na área da cultura que o projectasse de fora para dentro como o “maior português do século”.
    Janitschek sugeriu um livro ao que Soares responderia ser do seu agrado, tendo mesmo já insistido junto da sua velha amiga Marvin Howe nesse sentido.
    Só que nenhuma editora anglo-saxónica mostrara qualquer interesse.

    Seria um livro “para português ver” sem qualquer mercado nos países de língua inglesa.
    Mário Soares concordaria então, desde que não fosse muito caro e que Marvin Howe colaborasse na sua feitura.
    Segundo ele, a Fundação de Relações Internacionais se encarregaria dos pormenores a partir daí, o que então queria dizer que eu teria de me encarregar dessa nova actividade editorial. A sua filha Isabel se encarregaria das fotos.
    Assim nasceria o livro – Mário Soares, Portrait of a hero, da autoria de Hans Janitschek, que custaria a módica quantia de cinquenta mil dólares, ou, naquele tempo, quase oito mil contos, dos quais mil e seiscentos para o autor.

    No dia 13 de Dezembro era lançado o livro, numa recepção de mais de mil pessoas no hotel Ritz em Lisboa com a presença do autor, do editor e do então já primeiro-ministro britânico James Callaghan.

    Este livro que Soares quisera, fora “fabricado” com dois objectivos:
    o primeiro de dar a mensagem aos portugueses mais desprevenidos de que o candidato Mário Soares era considerado um herói além fronteiras, ao ponto das mais prestigiadas editoras mundiais se “baterem” para publicar as suas memórias e, segundo,
    permitir a alguns PSD’s e CDS’s, como foi o caso de Francisco Pinto Balsemão, poderem apoiar discretamente o candidato Mário Soares, contra as orientações de Cavaco Silva.

    Mas, por razões que nunca apuraria, Marvin Howe nunca chegaria a colaborar com o autor do livro.
    Quase um ano depois, Mário Soares, já então Presidente da República, dir-me-ia que falara com Marvin Howe e que esta lhe dissera que o livro não possuía qualidade literária.

    Depois de o encomendar, como qualquer gadget eleitoral, a um autor que conhecia desde 1969 e sabia não ser exactamente reconhecido no meio literário de Nova Iorque, tentava culpar-me pelo facto de o livro não ser exactamente considerado para o Prémio Pullitzer.
    Recordei-me então de como ele, dez anos antes, “abandonara” o Partido e depois tentara culpar Manuel Tito de Morais pela quase vitória de Manuel Serra.

    Mas, na realidade, como eu o conhecia bem melhor do que os portugueses o conhecem, sabia perfeitamente que a sua tardia “reclamação” não passava de uma birra resultante da frustração de ter encomendado um livro que fora bom para o lançamento da campanha mas que, convenhamos, não era exactamente um grande “crédito” nos meios políticos e literários internacionais para um presidente da República.
    Mas, infelizmente, ainda não apareceu nenhum autor de renome da língua de Shakespeare a escrever outro!

     

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