Pulo do Lobo

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Sócrates é fixe (pequeno apontamento maquiavélico-conspirativo)

[Publicado n' O Acidental em 25.07.2005: a propósito do alegado "medo" que Cavaco tem de Marques Mendes e Ribeiro e Castro, a felicidade de Sócrates pela candidatura de Soares]

Sócrates pode ter aquele ar de sonso e de autómato acéfalo sem vontade própria. Pode não ser um bom Primeiro-Ministro. Mas a habilidade política, no sentido mais puramente táctico do termo, é muita.

Sócrates tinha três candidatos a quem apoiar na corrida a Belém: Soares, Alegre e Freitas. Qualquer um lhe serviria. Qualquer um cumpre a estratégia realista e levemente maquiavélica que optou tomar. Sócrates está convicto de que Cavaco será o próximo Presidente da República. Não tendo conseguido convencer Guterres e Vitorino a avançar, acha que nenhum outro reune as características de percepção pública necessárias para derrotar Cavaco. Para além disso, reconhece que, de todos os possíveis candidatos do PS, apenas Guterres e Vitorino, dois compagnons de route em termos ideológicos e de facção interna, poderiam ser um factor de estabilidade e de apoio às medidas difíceis, de cariz liberalizante e de confronto às estruturas sociais tradicionais da esquerda (sindicatos e quejandos) que planeia tomar. Alegre é demasiado à esquerda para ficar calado. Freitas é demasiado vaidoso para ficar quieto. Soares é as duas coisas.

Por isso, vendo-se privado dos préstimos de Guterres ou de Vitorino, mais vale coabitar com o homem de Boliqueime. Cavaco não só tem uma visão minimalista dos poderes presidenciais (que lhe vem da má experiência que teve com Soares), como já mostrou alguma condescendência e até compreensão com o rumo que o Governo e, principalmente, até agora, Campos e Cunha, vêm imprimindo à política económico-financeira do estado.

Por outro lado, esta eleição pode ser uma oportunidade para Sócrates se ver livre de um dos três empecilhos que, à falta de oposição relevante, lhe atormentam o espírito. Se Alegre se candidatar e perder, Sócrates liberta-se daquela facção atrasada que constantemente acena com os seus vinte e tais por cento do congresso para reivindicar lugares e opções programáticas esparsas e incoerentes com as do Governo. Se for Freitas o candidato e perder, Sócrates alivia-se do sapo narcisista que teve de engolir na negociata eu-escrevo-artigo-na-Visão-a-apelar-à-maioria-absoluta-no-PS-e-tu-dás-me-o-MNE, sapo que cresce a olhos vistos e que começa a ficar absolutamente insuportável. Se avançar Soares (como parece que vai acontecer) e perder, é o barão dos barões que se vai, é toda uma aristocracia partidária, toda uma corte palavrosa e auto-proclamada como proprietária da consciência do PS que se esfuma numa derrota humilhante. O sonho de qualquer líder do PS é conseguir remeter a famíia Soares aos manuais de História.

A estratégia é tão perfeita que tem, ela própria, a resposta aos críticos. Que dirão eles? Que Sócrates quis perder de propósito? Sim, dirão. Mas como provar? O escolhido foi o mais notável dos militantes do PS, o mais recohecido dos políticos portugueses, o pai da democracia pátria, um homem com experiência de dez anos no cargo a que se candidata. O Soares, porra. Sócrates quer perder, mas ninguém o poderá acusar de tal. Soares é, em abstracto, o melhor candidato possível.

Ou seja: Com Guterres e Vitorino a assobiarem para o lado, Sócrates convenceu-se de que só com o Presidente da direita conseguirá uma coabitação pacífica. E quer aproveitar a embalagem para enviar para a reforma política um dos grãos de areia que lhe arranham a engrenagem: o rei do baronato, o rei da oposição interna ou rei da basófia.

Está a ser uma magnífica lição de realismo político. Como agora se diz por , clap! clap! clap!

1 Comments:

  • At 9:35 da tarde, Anonymous cris said…

    Isso significa que o pulo do lobo vai enfim, abrir os olhos e dar o salto e ser o pulo alegre ou pulo -soares ?

     

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