Pulo do Lobo

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Fixe, mas sem fixações

Mário Soares concedeu ao Público uma entrevista extraordinária.

Primeiro, afirma que “teria grandes preocupações se Cavaco Silva ganhasse as eleições”. Não é isto que surpreende – já o tinha dito. O que é fantástico é que acrescenta: “Aceitarei a sua legitimidade desde que as eleições sejam limpas.” Dito de outra maneira: Mário Soares concebe fortemente a possibilidade de as eleições presidenciais em Portugal serem falsificadas. Magnânimo, acrescenta: “Mas isso não é coisa para se discutir agora, é para mais tarde.” Supõe-se que para 23 de Janeiro. Sublinho que é uma declaração importante.

Depois, Soares avança que o problema não está propriamente em Cavaco mas em "quem integra a sua condição de honra”. É essa gente – “apoios de natureza muito especial” - que põe em risco a democracia. Aqui tremi de nervoso. É que faço parte da comissão. Mas, enfim, não estava certamente a pensar de mim. (Era o que faltava!) A seguir, Soares, que se apresenta como uma “pessoa modesta” (tu parles!), sublinha igualmente que só fala de Cavaco Silva a contra-gosto. “Eu não tenho nenhuma fixação em Cavaco Silva, vocês é que têm e só me fazem perguntas sobre ele para dizer depois: Mário Soares só fala de Cavaco Silva.” Resumindo: Soares é fixe, mas sem fixações. Vale a pena notar que os jornalistas têm de facto um peso imenso. “Tenho tido é uma imprensa adversa que não noticia as coisas importantes que eu digo.” (Já agora: leia-se o "Editorial" do Diário de Notícias de hoje, sobre a exigência de um presidente "descomplexado".) É que, mesmo quando não responde às perguntas de jornalistas, Soares não pára de falar de Cavaco. Tenho pilhas de recortes de jornais assim. Não interessa. O que interessa são as convicções profundas. Mário Soares afirma que “há uma desconfiança absoluta em relação a ele [Cavaco Silva]”. Baseia-se em sondagens? Não interessa. Convicções profundas.

Depois passa, coerentemente, à “concórdia nacional”. A palavra “concórdia” aparece vezes sem conta na entrevista. É um “ouvidor” das “minorias” - “devo ouvir toda a gente” (o que inclui deputados do Herri Batassuna) - e um “moderador” que “encontra pontes”. Um "pontista".

O meu padrasto gostava de contar uma anedota de judeus. Um rabi andava de terra em terra, aconselhando pessoas. Falava com o marido desavindo com a mulher, e respondia: “Tens razão!” Falava com a mulher separada do marido, que lhe contava veementes razões de queixa, e respondia igualmente: “Tens razão!” E assim em qualquer lugar, sempre da mesma maneira. Até que o filho, que o acompanhava em todas as viagens, lhe disse: “Pai, não podes dizer sempre a toda a gente que tem razão!” “Tens toda a razão, meu filho!”, respondeu-lhe o rabi. Nesta história, há uma diferença enorme entre Soares e o rabi: o rabi compreendia as coisas, e o filho também.

E, naturalmente, Soares acha que “há vida para além do défice” (pois há: mas os políticos não têm nada a ver com ela). E depois fala sobre tudo - “Educação, educação, educação” -, porque “a minha orientação neste momento é de esquerda”. “Neste momento”, segundo todas as indicações, a “orientação” das pessoas – esquerda e direita confundidas – não é “soarista”. E a culpa não é delas. É, entre outras coisas, do que Soares tem pensado e dito e vocalizado muito. E nada disso é mérito de Cavaco. Os méritos deste, muito reais, são outros. É que as pessoas, por perceberem que ele se arrisca com a palavra, que o que ele diz comporta um compromisso, o levam a sério. Muito a sério. E, obviamente, Soares sente-o.

3 Comments:

  • At 9:43 da tarde, Anonymous Comandante Che said…

    Será que o dr. Soares já está tão fora da realidade que pensa que isto aqui é o Burundi? Ou o Benim?
    Valha-nos S. Alzheimer!

     
  • At 11:58 da tarde, Anonymous Zé Lusitano said…

    Quando Soares questiona a possibilidade de as eleições não serem limpas, estará certamente a referir-se a um caso bastante recente que se passou com as eleições para a Câmara Mun. de Lisboa disputadas entre o seu filho João Soares e Pedro Santana Lopes, em que se pôde confirmar que as mesmas foram viciadas na contagem de votos, vindo-se a apurar mais tarde que afinal quem as tinha vencido foi João Soares.
    Aliás isso é admitido pelo próprio Pacheco Pereira num artigo de opinião publicado no Pùblico.
    E também não é preciso ir ao Burundi ou ao Benim para que haja eleições sujas, veja-se o caso passado com a primeira eleição do líder do país considerado o farol da democracia (EUA), George Bush, que sabe-se hoje tinha afinal menos votos que Gore, mas quando se procedia à recontagem de votos no Estado da Flórida, e apercebendo-se que à medida que a mesma avançava, a tendência de voto se tornava favorável a Gore, a juíza do Tribunal Federal daquele Estado suspendeu a contagem, sem justificação plausível e encerrou a contagem de votos que já se cifrava apenas numa diferença de cerca de 500.
    Dado que em Portugal temos um precedente muito recente com o episódio da Câmara de Lisboa, todos os cuidados são poucos, até porque com a Justiça que temos em geral e o actual Procurador da República em particular, se houvesse que dirimir um caso destes nos tribunais portugueses, nem para as Calendas Gregas o assunto ficaria resolvido.
    Já agora gostaria de dizer ao Dr. Paulo Tunhas que fiquei absolutamente abismado com o seu engasgamento perante uma pergunta sobre o actual Procurador Geral da República feita por uma jornalista do Programa Choque Tecnológico da RTPN.
    Enquanto que O Dr. Paulo Varela Gomes disse frontalmente o que pensava depois de o Procurador ter admitido que a maneira como foi conduzido o processo da Casa Pia não foi o ideal, o Dr. Paulo Tunhas engasgou-se e acabou por dizer que não tinha uma opinião formada sobre o assunto, isto é nem sim nem não antes pelo contrário.
    Notava-se claramente que tinha uma opinião mas não a quis expressar, para não desagradar ao seu candidato que se ganhar já disse que o mantinha no lugar, ou foi para agradar aos seus compadres do Ministério Publico que como disse Varela Gomes Pura e simplesmente decapitaram a Direcção do PS de entâo, o que não foi coisa pouca.
    Nestas coisas não pode haver dúvidas, ou se é a favor ou contra.

     
  • At 1:26 da tarde, Blogger LS said…

    Ainda bem que Mário Soares escuta as minorias...Neste momento deve estar então a almoçar com o ex-combatente da guerra colonial que o insultou e penso que chegou mesmo à agressão física, hoje, num comício em Barcelos, chamando-o de...vigarista???Pobre homem...chamar uma coisa dessas a um homem tão sério!!!Não houve pessoa mais séria aquando da descolonização!aliás, Angola e outra das nossas ex-colónias estão aí para provar que foi um processo extremamente bem conduzido por uma pessoa extremamente bem-formada e séria...Só dou graças a Deus por as nossas ex-colónias falarem português...se falassem francês a tragédia teria assumido proporções dantescas!

     

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