Pulo do Lobo

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Entretanto, num universo paralelo...


As últimas declarações de Cavaco Silva, segundo as quais aceitaria a “legitimidade” de uma (“preocupante”, de resto) vitória de Soares, desde que as eleições fossem “limpas”, e prometendo voltar à questão mais tarde, provocaram naturalmente uma tempestade política. Um “editorial” do Diário de Notícias, ao mesmo tempo que apelava à calma, não deixou de classificar as insinuações contidas nessas declarações, bem como as referentes aos “apoios de natureza muito especial” de que Soares gozaria, de inadmissíveis e um insulto à já não tão jovem democracia portuguesa. Soares, interrogado pelos jornalistas, limitou-se a encolher os ombros, e, com a sua tradicional bonomia, declarou não pretender comentar intervenções que só lhe pareciam explicáveis pelo nervosismo de um candidato, que ele, de resto, humanamente apreciava.

Vários articulistas lembraram que a declaração tinha antecedentes, nomeadamente quando o Professor tinha acusado Mário Soares de um à-vontade excessivo e de dormir em cerimónias públicas, atitudes incompatíveis com a dignidade do cargo presidencial. Um homem “que está bem consigo próprio” não faz isso, terá afirmado Cavaco, acrescentando: “só os aflitos dormem”. E notaram também que a acrimónia não tinha ficado por aí: que Cavaco, insistindo não querer nunca falar de Soares (mas “vamos lá ver quem é que enfia a carapuça!”), não deixava de, na linguagem dos jornais, “lhe mandar farpas”. Por exemplo, acusando-o (e a ele se referindo sarcasticamente como “sua excelência”) de “ter vergonha” do seu próprio partido e de tudo ignorar sobre astrofísica, nada conhecendo da origem do cosmos nem do seu futuro. “Ele nem o Ptolomeu conhece bem!”, terá Cavaco afirmado num comício (provocando, de resto, palmas entre os seus apoiantes, abundantemente versados em epiciclos).

Outras penas atentas não deixaram passar em claro que o convite de Cavaco a que os outros candidatos revelassem o seu recorde pessoal nos 110 metros barreiras roçava o ridículo. E que o último slogan da sua campanha “Eu sou um ouvidor-falador, os outros são esfinges surdas-mudas pouco estruturadas” não primava pela elegância. A tudo isto, Mário Soares encolheu os ombros, enquanto Louçã , de uma penada, ridicularizou, como só ele sabe, o que havia para ridicularizar, suscitando os habituais comentários sobre a sua inteligência.

Mas as coisas não ficaram por aqui. Um membro da comissão política de Cavaco terá, na sua coluna de um jornal de referência, acusado Soares - referindo-se a uma expressão tradicional eslovena (trol ipsate cot kungunis) - de ter um “nariz batatudo e ranhoso”, ao mesmo tempo que, num outro jornal, a sua mandatária para a juventude afirmava, em frases que toda a gente julgou incompreensíveis, a necessidade de “um expresso democrático extremo”.

Nos círculos próximos de Alegre, as declarações de Cavaco também não têm caído bem, sobretudo a sua afirmação de que a candidatura do deputado era “patética” e as suas prestações televisivas “chochas”. Vários escritores protestaram energicamente, e um número inteiro do “Jornal de Letras, Artes e Ideias” (cujo conteúdo foi parcialmente reproduzido na revista “Visão”) foi publicado, subordinado ao tema: “É a literatura patética?” (contendo, entre outros, dois textos de José Saramago, um começando pela frase “Só escrevo livros bons”, e o outro “Snob sorvil overcse ós”, em que o Nobel – “Lebon”, no segundo texto - confessa apoiar apenas duas candidaturas por não se ter ainda triplicado). Promete-se ainda outro número dedicado à questão “É a literatura chocha?”.

Atendendo a que falta quase um mês e meio para as eleições, especula-se em certos círculos que os excessos verbais podem ainda aumentar significativamente. A insinuação sobre a possibilidade de as eleições serem “sujas” não augura nada de bom.

12 Comments:

  • At 11:50 da manhã, Blogger Pedro Picoito said…

    Candidato ao prémio de melhor post ever do Pulo do Lobo, sem dúvida.

     
  • At 12:31 da tarde, Anonymous anita afonso said…

    Concordo com o Pedro Picoito, e se é para ir a votos, voto já neste post. Venham mais assim, até porque a realidade é demasiado má para não apreciarmos o conforto de um mundo paralelo.

     
  • At 12:44 da tarde, Anonymous Robert Stanley Maxwell Ho said…

    E entretanto, no mesmo universo paralelo:

    - O director da revista "Reportagens Grandes" publica uma série de colunas repristinando o assunto dos negócios obscuros do antigo primeiro-ministro Cavaco, que alegadamente chegara a manter reuniões com parceiros no palácio de S. Bento, transaccionando vantagens em futuros negócios públicos a troco de participações no seu grupo de comunicação social.

    - Nos mentideros chega a constar que o director será despedido pela sua ousadia; no entanto, tal não se confirma: "Portugal é um Estado de Direito, a Constituição consagra a liberdade de expressão, e o assunto reveste inegável interesse público", afirma, batendo com a mão no peito, o director do DN (um dos jornais com os quais é distribuída a "Reportagens Grandes").

    - Impulsionado pelo eco público daquelas colunas, chega às prateleiras nova edição de um há muito desaparecido livro de Mateus Ruiz, em que o ex-braço direito de Cavaco denuncia aquele escândalo; o livro tivera a sua primeira e única edição há já dez anos, sem que então lhe tenha sido dado o relevo merecido.

    - Um editorial inflamado do director do DN invoca o "direito à indignação" para denunciar o facto de um ex-Procurador de República, em tempos encarregue da investigação àquelas "trapalhadas" de Cavaco, integrar agora a sua comissão de honra.

    - Em nota de imprensa, a PGR lamenta a sua inércia passada e anuncia a imediata abertura de inquérito tendente à averiguação daqueles factos.

    - Em plena entrevista em directo na RTP, um Cavaco notoriamente perturbado pelo desenrolar dos acontecimentos insurge-se contra a "impertinência" das perguntas formuladas pela jornalista: "Você só pergunta o que não deve"; "Se continuar a perguntar só o que lhe apetecer, digo-lhe com toda a simpatia que me vou embora e você faz a entrevista sozinha".

    - Multiplicam-se as críticas à "pesporrência" do candidato Cavaco, acusado de causar "crispação" e de não possuir "estrutura democrática".

     
  • At 5:13 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    É realmente espectacular que não se tenham investigado decentemente as memórias do sr Mateus....

     
  • At 8:23 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    A situação pode inclinar-se para uma grande imprevisibilidade , Soares pode num estertor ultimo captar o sentimento de culpa dos Portugueses , e inverter a tendência antes imprevista, ou não seja , um campo grande de incertezas....e de obscenidades morais.kákáká...

    O estilo é meu .
    Acho curto ... moderado demais.
    O espadeirão hoje é a palavra.

    Perguntem ao Mário Soares como ele consegue dormir sobre dezenas de milhares de mortos, consequência de uma venda ou ( oferta ) das nossas colónias à urss.
    Caga e anda ...né ?

     
  • At 10:33 da tarde, Anonymous cris said…

    Mario Soares é acusado de minimizar os partidos que o apoiam impedindo a participaçao na sua campanha dos líderes partidários. Os líderes partidarios mesmo assim mostram-se contentes mesmo sendo ridicularizados pelo candidato que apoiam.

    Mario Soares afirma que nao percebe porque os estudos da OTA nao estao na internet como na Europa. A visao de Soares da Europa nao inclui portanto portugal e desconhece que os estudos estao na internet . mas mesmo assim nada o impede de criticar o projecto porque já leu um estudo quando estava em inglaterra sobre aeroportos.

    Na primeira fileira da sua hoste está Ramalho Eanes acusado de ser opositor do líder carismatico do partido, falecido numa queda de aviao.

     
  • At 12:47 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Eu acho que a verbalização deveria subir de tom sim , e a titulo de exemplo diria que o futuro PR deveria desde já lançar um repto ao actual PM para que não o olhe com lascívia.

    Cabouco Capiroba

     
  • At 5:12 da tarde, Anonymous Irmão Lusitano said…

    Caro Cabouco Capiroba
    Pela alcunha utilizada mais parece ter vindo do país irmão (Brasil).
    Se fôr verdade essas insinuações são normais num país com tantos irmãos "travestis".
    Agora se o meu amigo viu com atenção o debate entre Cavaco e Alegre, aquilo a que muito boa gente chamou de "Alegre Cavaqueira"
    não lhe pareceu que os dois usaram e abusaram das trocas de olhares e gestos demasiado lascivos para a nossa mentalidade ainda e apesar de tudo muito conservadora?
    "Mi pérdoa si istou ixagèrando, más cómó nótéi séu grándi spíritu di óbsérváçáo, pénsu qui istárá di
    ácordo cómigo, né meu irmáo !"

     
  • At 7:36 da tarde, Blogger Fernando Alexandre said…

    A minha reacção ao post do Paulo Tunhas deve ter sido a de muita gente: depois de ler as três primeiras linhas voltei ao início.

     
  • At 5:50 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    fernando alexandre, quem nao tem cao caça com gato

    é o desespero

     
  • At 3:55 da tarde, Blogger Tiago Botelho said…

    Este post merece um prémio.

     
  • At 3:56 da tarde, Anonymous TB said…

    Este post merece um prémio.

     

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