Pulo do Lobo

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Duas pessoas sérias e alguma informação

Na entrevista a Judite de Sousa, Cavaco Silva disse que “duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar”. A frase suscitou vários comentários desagradados (só no Público de Domingo foram três: de Vasco Pulido Valente, António Barreto e Mário Mesquita). Vale por isso a pena interpretá-la. E peço antecipadamente desculpa pelo tamanho deste post.

Para começar. Há vários domínios, nomeadamente o das “ciências da natureza”, onde a frase faz quase pleno sentido. Se fossemos omniscientes, estaríamos todos de acordo. (Indirectamente, a questão tem a ver com um determinismo de tipo “laplaciano”. Mas, mesmo recusando um determinismo deste tipo - “ontológico”, desculpe-se o jargão-, a ciência não se pode privar de um determinismo “metodológico”.) Idealmente – simplifico, é claro: há as controvérsias, os paradigmas, e tudo o resto – visam-se condições possíveis de acordo com base em factos, que, por serem, num certo sentido, “construídos”, não deixam de ser factos. Este acordo possível tem a ver com a própria natureza dos objectos sobre os quais a física, por exemplo, se debruça. Entre outras coisas, objectos destituídos de intenções e de estados de alma. Como escrevia William Blake, If the Sun & Moon should Doubt / Theyd immediately Go out. O rigor possível é consequência das propriedades específicas dos objectos estudados.

Em segundo lugar, há casos onde essa pressuposição de acordo não faz sentido, ou só o faz acessoriamente. É o caso da experiência estética. Duas “pessoas sérias, com a mesma informação” (a "mesma informação" informalmente definida) não têm, por exemplo, de gostar destes versos de Blake. Acessoriamente, se respeitarem a comunidade crítica, serão obrigados a aceitar a importância de Blake na tradição da poesia inglesa, e, por consequência, o valor destes versos. Mas não há demonstração, ou prova indesmentível, desse valor.

Em terceiro lugar, há as questões morais e políticas – aquelas às quais obviamente Cavaco se referia. Nestas matérias, em geral, não há prova (como nas ciências da natureza) ou evidência (como em estética): há apenas argumentos, que não chegam para demonstrações e não suscitam evidências. Não se pode convencer um canibal da pouca bondade das suas práticas, ou Louçã da sua irremediável falta de humor. E o actual presidente iraniano, pode perfeitamente – construindo centrais atómicas a partir de uma física que nada tem de islâmica – piamente acreditar em modelos sociais que nos parecem aberrantes. Mário Soares – cuja posição, nestas matérias, é muito mais radical do que a de Cavaco, e que aprecia entusiasticamente o diálogo - poderá talvez pensar que pode convencer o presidente iraniano sobre a falta de excelência dos seus pessoais costumes. O que só duplica a dificuldade da situação: deve ser difícil convencer Mário Soares sobre a sua dificuldade em convencer islamistas.

No entanto, aquilo que Cavaco Silva disse foi bem mais simples e menos extravagante. O que Cavaco disse foi que, idealmente, a partir de certas bases, o acordo é possível. E trata-se de uma posição impecável do ponto de vista político. Mesmo sem supor situações ideais de diálogo, o próprio exercício da deliberação comum supõe – tem de supor – a possibilidade de um acordo. Significa isso um (secreto ou não) desejo de uma “abolição radical da política”, como escreve Mário Mesquita? Ou um sinistro “fanatismo”, como diz Vasco Pulido Valente? Significa, é claro, se se acrescentarem duas toneladas de pressuposições psicológicas e políticas sobre o comportamento de Cavaco Silva. Não significa nada disso – e não tem nada que significar – para quem não se queira entreter assim. Nada do que Cavaco disse visava uma obliteração do papel do conflito em política. “Racionalidade” – e foi uma defesa da racionalidade o que Cavaco sugeriu - não significa “racionalismo” vesgo.

A sua linguagem poderia ser mais subtil? Podia explicar tudo, indo aos ínfimos detalhes? Podia, e suponho que ele saberia como o fazer. Acontece que, em entrevistas e debates, um candidato à Presidência da República se encontra, pela força das circunstâncias, espartilhado – uma pressuposto caritativo que convém aplicar a todos os outros candidatos. O que ele disse deve ser interpretado no contexto. E, no contexto, a frase segundo a qual “duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar” não é susceptível de nenhuma objecção significativa. Não foi uma proclamação metafísica de detestação à política, como energicamente se pretendeu. Somando tudo, cedeu menos – muito menos, mesmo - a facilidades do que outros. E não me estou a referir a candidatos.

5 Comments:

  • At 3:57 da tarde, Blogger el__sniper said…

    Nao há nada como um campo que o professor C.S. deve conhecer para que a sua frase: "duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar" possa analisada.

    Falo da econometria e mais rigorosamente da econometria bayesiana, esta para medir relacoes económicas parte de pressupostos sobre os valores dos parametros a estimar (ao contrario da classica que parte de pressupostos sobre a distribuicao desses parametros).
    Assim duas pessoas sérias podem ter diferentes pressupostos. Aplicando a econometria bayesiana só chegam à mesma conclusão se a informação disponível for elevada, isto é, mesmo sobre critérios objectivos só há um convergir de opinioes quando a informação tende para o infinito. Se a informação é limitada (em termos macroeconomicos ela é sempre muito escassa, precisavamos de pelo menos 200 anos e só temos 33) então duas pessoas sérias, com pressupostos diferentes face à mesma informação, desde que esta seja reduzida, podem chegar a conclusões diferentes. E não deixam de ser sérias... ...e podem não concordar.

     
  • At 5:21 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Caro Paulo Tunhas,
    Como académico, creio que sabe o quão indefensável é a tese do seu candidato. Não fazendo rodeios, a única tese defensável é a contrária: “duas pessoas sérias com a mesma informação NÃO têm de concordar”. A defesa que faz da ideia fica consigo, e, espero, ser-lhe-á lembrada em abundância no futuro. Agora não resisto é a verificar que, afinal, para si, é importante contextualizar as frases de um candidato «espartilhado». Pressuposto «caritativo» que, há dias, não usou - antes abusou do inverso - quando se dedicou a tresler uma frase de Louçã. Temos relativista.

     
  • At 5:53 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    A afirmação é talvez demasiado optimista. Duas pessoas de boa fé podem, analisando os mesmos factos, chegar a conclusões diferentes, pois ambas carregam consigo modelos mentais diferentes. Se chegarem a um acordo quanto ao retrato da realidade actual, têm depois de acordar no ponto de destino onde querem chegar, admitamos que isso é possível.
    O caminho para colmatar a lacuna entre o hoje e o futuro, é a estratégia. E a estratégia é política quase pura, está cheia de incerteza, e é perfeitamente natural que duas pessoas de boa fé não cheguem a acordo quanto ao caminho, quanto à política a seguir... (subimos impostos para arrecadar mais? Ou baixamos impostos para arrecadar mais?)

    Carlos Pereira

     
  • At 9:54 da tarde, Anonymous Crispim said…

    Pelos vistos, o Mário Mesquita, na sua empáfia e oca importância, é também psicólogo... Mas o que mais o caracteriza é o despudor com que faz da coluna que o "Público" lhe consente um mero veículo de propaganda do Soares, a cuja comissão política pertence. E é ele que, a cada passo, se farta de perorar sobre a isenção da comunicação social... Que falta de vergonha!

     
  • At 5:26 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    As duas unicas pessoas (de boa fe) que fazem a frase ter sentido sao: Cavaco e Socrates. Nao Socrates/de Sousa, Socrates/Alegre ou Socrates/Soares. A frase tem de ser lida apenas no contexto dos encontros de quinta feira, e nao no abstracto de quaisquer duas pessoas, como fez Pulido Valente. Cavaco esta a puxar-se para a esquerda. Ou melhor, a puxar-se para Socrates...e a empurrar a esquerda pela borda fora.

     

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