Pulo do Lobo

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Cultura

Não era difícil, desde que Cavaco Silva se candidatou (e, é claro, mesmo antes), imaginar como é que os ataques em torno da “cultura” se iam organizar. O do PCP, o mais pacato (interessa-lhe, antes do mais, o “patriotismo”). O de Mário Soares, obviamente egocêntrico (não se percebe, de resto, porque é que ainda não fez referência ao facto de Cavaco Silva não ter contribuído com “poemas da sua vida” para o Público). O de Alegre, linguístico-patriota (é preciso sentir, de dentro, e com muita força, a palavra “pátria”). O do B.E. no génro galhofeiro-gravíssimo, que muito tem aprimorado num dos piores estilos que Deus ao mundo deitou. Mas pouco se tem dito, é verdade, sobre quais as competências do Presidente da República na matéria.

Francisco Louçã, hoje, no Público, revela o seu ponto de vista. De acordo com Louçã, o P. R. tem a possibilidade de “criar uma oferta cultural de grande qualidade, de referência, mas acessível à população” e “pode criar públicos e pode estimular um acesso que não existe noutras circunstâncias”. Depois: “O que faz falta em Portugal é abrir a cultura, destruir a ideia de que a criação da mediocridade populista é a cultura de que o povo precisa e de que o povo gosta.” (Público, 1.12.05, p. 3).

Alguns comentários. Primeiro. O Presidente da República não tem nenhuma possibilidade de “criar oferta cultural de grande qualidade”, como é óbvio a qualquer pessoa menos a um ensandecido “bloquista”. Segundo. O Presidente da República não tem uma pintinha de direito de interferir no gosto das pessoas que Louçã apelida de “medíocres” (e apelida-as mesmo assim, dado o seu preconceito de classe) e que são o grosso da população. Terceiro. Louçã, extravagantemente, tem razão num ponto. O Presidente da República, com os seus limitados meios, tem a possibilidade de encorajar o encontro das pessoas com aquilo que a opinião comum dos profissionais das artes julga possuir valor. Tenha essa opinião valor perdurável ou não. É um risco calculado.

Pode fazê-lo. E pode fazê-lo sem discriminações, explícitas ou implícitas, de qualquer espécie. Acontece que é Cavaco Silva quem melhor está colocado para o fazer. Mário Soares está servo daquilo que Helena Matos chamou a “casa civil de Afonso Costa”, e essa servidão inibe-o já do que quer que seja. Alegre está servo de si mesmo e de um folclore “jornal-letrista” que lhe agradará, mas que não ajuda ninguém em nada. Cavaco Silva, diferentemente, está livre. Está livre, nomeadamente, para sugerir modalidades de acordo entre um Estado que berra sem ter voz suficiente para se fazer ouvir e uma “sociedade civil” que é mais muda do que podia – e, mesmo com os seus só pobres tostões, deveria - ser. Sem ter opiniões obscenas sobre o “povo” ou amores ilimitados pelas virtudes dos “homens bons”.

7 Comments:

  • At 5:02 da tarde, Blogger PL said…

    Excelente.

     
  • At 8:44 da tarde, Anonymous bancário said…

    O contributo cavaquista para a cultura e para a poesia já foi dado pelo conhecido letrista Dias Loureiro, com o magnífico poema que é utilizado como Hino da Campanha.
    Não é?

     
  • At 1:44 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Por acaso, Louçã, de acordo com a citação que transcreve, não apelida o gosto do povo de "medíocre". Ele diz sim que faz falta "destruir a ideia de que a criação da mediocridade populista é a cultura de que o povo precisa e de que o povo gosta". Está a ver a diferença? Claro que está. Mas por vezes dá jeito tresler, certo?

    Luis Rainha

     
  • At 9:27 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Luis Rainha: talvez ele nãoconsiga ver a diferença.

     
  • At 9:50 da manhã, Blogger Pedro Sá said…

    Realmente não sei o que é pior. Se as barbaridades de Louçã se este post.

     
  • At 11:37 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Por falar em cultura, que tal como pratinho de entrada o hino?
    "Rompendo a bruma"... depois do "menino guerreiro". Vocês ainda não abandonaram o Cais das Colunas, pois não?

     
  • At 10:36 da tarde, Anonymous Zé Sempre em Pé said…

    Ainda não conheço a letra do hino da campanha de Cavaco, mas pela amostra "rompendo a bruma",não posso deixar de dizer o que me vai na alma, pois até tive um sonho.
    Ao ler esta frase indiciadora de esperança no advento político que se avizinha, para bem do bom povo português, logo se faz luz no meu espírito e eis senão quando surge coberto por um manto diáfano de " rigor económico--financeiro" um vulto esfíngico e providencial, qual Salvador da Pátria em perigo,
    "rompendo a bruma" escura numa manhã de nevoeiro intenso !
    Sonhei que D. Sebastião finalmente tinha voltado, mas quando se dissipou o nevoeiro acordei do sonho lindo e a cruel realidade mostrou-me que afinal tinha sonhado com mais um "menino guerreiro", digamos que nem tão menino assim como isso(sempre são 67 anos, não são Sr. Professor ?).
    A moda pegou e não me admira nada que se Cavaco ganhar, teremos daqui a dez anos, novamente ao ataque o "verdadeiro menino guerreiro "Santana Lopes e se Cavaco perder então o "menino" atacará mais cedo, daqui a cinco anos, é limpinho.
    Como se deve divertir D. Sebastião com as diatribes bélicas destes guerreiros lusitano-laranjinhas.
    A Bem da Nação.Nada contra a Nação.

     

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