Pulo do Lobo

terça-feira, novembro 22, 2005

Um homem com qualidades (II)

Recentemente dei uma aula de economia portuguesa. O tema era a convergência do PIB português em relação aos países mais ricos da Europa. Como motivação para o tema, dei aos meus alunos o texto ‘Modernos e modernizados’ de Vasco Pulido Valente (Às Avessas, 1990), originariamente publicado, em 1988, no Independente.
Os meus alunos nasceram em meados dos anos 80. Ou seja, viveram, até à sua entrada na Universidade, num dos dois períodos de maior crescimento e convergência da história da economia portuguesa. Portugal era um país de “sucesso”. Éramos tão bons como os melhores – ou, se não éramos para lá caminhávamos. No entanto, depois de alguns anos de estagnação e divergência, os meus alunos estão preocupados. Querem soluções.
Expliquei-lhes que partilhava com eles esse sentimento e que senti o mesmo nos anos 80 – só não lhes disse que foi isso que fez de mim naquela altura, e faz de mim hoje, um cavaquista (confesso que houve um período pelo meio em que deixei de o ser).
Com a leitura do texto de Pulido Valente, procurei mostrar-lhes que o problema não é novo. Os problemas que a economia portuguesa enfrenta já existiam e eram discutidos há pelo menos 200 anos – também demonstrei com dados, porque os que Pulido Valente refere não são os mais correctos. E que as dificuldades que discutíamos no final dos anos 80 – o défice, a educação, a investigação e as novas tecnologias, o défice comercial, a eficiência do sistema de saúde – são em grande medida as mesmas que discutimos hoje. Mais, e essa era principal ideia do texto, a coisa não se resolve por decreto nem com imitações – ontem a Bélgica e a França, hoje a Irlanda e a Finlândia. É preciso mudar Portugal a partir daquilo que somos. Vasco Pulido Valente tem ajudado a compreender aquilo que somos. Mas essa qualidade, embora necessária, não chega para mudar Portugal. É aqui que entram as qualidades de Cavaco Silva.

5 Comments:

  • At 4:58 da tarde, Anonymous the observer said…

    "...as dificuldades que discutíamos no final dos anos 80 – o défice, a educação, a investigação e as novas tecnologias, o défice comercial, a eficiência do sistema de saúde – são em grande medida as mesmas que discutimos hoje."

    As reformas estruturais não se fazem de um dia para o outro, mas também não se fazem de uma só vez e depois acabam-se. Os países têm de estar sempre em evolução, senão perdem competitividade internacional, a nível económico, político, cultural, etc.

    Cavaco Silva poderia ter feito mais, ou não, quando foi Primeiro Ministro. Não se pode é acusá-lo de não ter feito todas as "reformas", porque estas são um processo contínuo. Não se fazem todas numa década, nem sequer numa geração, porque as circunstâncias mudam e aquilo que há que mudar nos países têm a ver com os contextos económico e político internacionais. Por exemplo, se a Guerra Fria não tivesse acabado, o contexto internacional hoje em dia não seria tão competitivo para Portugal. Logo, fazer as ditas "reformas" provavelmente não seria tão urgente para Portugal, como o é actualmente.

    O nosso problema é que Portugal estagnou nos últimos 10 anos, enquanto os países asiáticos, da Europe de Leste, bem como os outros países da coesão, cresceram muitíssimo nesse mesmo período. Ou seja a nossa concorrência ou está em vias de nos ultrapassar, ou adiantou-se bastante.

    Consequentemente, o nosso país está a perder poder, soberania e prestígio na cena internacional. O que tem como consequência a nível interno a degradação da actividade económica, perda de poder de compra dos cidadãos, crescente instabilidade do sistema político, perda de auto-estima nacional, desorientação das elites, etc.

    Cavaco Silva pode ajudar a inverter o declínio de Portugal, porque irá aliar o seu prestígio pessoal à condição de Presidente da República. Será um PR com bastante peso político e acredito que contribuirá para elevar o nível da política portuguesa.

    Poderá parecer pouco, mas a alternativa tivemo-la nos últimos 10 anos, com um PR inerte, ignorado por todos, inclusivé por dois governos do seu partido, a quem tudo permitiu. Portugal não pode continuar a ter figuras "menores" na chefia do Estado. Já pagamos por isso na última década, em que se juntou a fome à vontade de comer: Sampaísmo, Guterrismo, Barrosismo e Santanismo. Pior era quase impossível.

     
  • At 10:19 da tarde, Blogger el__sniper said…

    "...as dificuldades que discutíamos no final dos anos 80 – o défice, a educação, a investigação e as novas tecnologias, o défice comercial, a eficiência do sistema de saúde – são em grande medida as mesmas que discutimos hoje."

    Depois tivemos 10 anos de Cavaco Silva;
    6 de António Guterres;
    2 de Durão
    quase 1 de Santana

    Mais do que falta de rumo, ou reformas inacabadas, não houve foi as reformas correctas. E se em dez anos Cavaco deixou o país com os mesmos problemas do que aqueles que encontrou (atenuados com os fundos da UE) porque será que tem de ser um bom PR se não foi um bom PM?

     
  • At 12:05 da manhã, Blogger Fernando Alexandre said…

    Concordo com o que diz. É mais ou menos o que procuro dizer no post "Um homem com qualidades (III)". Esse homem é Cavaco Silva

     
  • At 6:12 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Where did you find it? Interesting read » »

     
  • At 8:02 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Best regards from NY! » » »

     

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