Pulo do Lobo

segunda-feira, novembro 14, 2005

Por uma Presidência fechada

Ninguém duvida que Soares "compreendeu que há vida para além dos dossiers". O problema é nunca ter dado muita atenção à vida que há nos dossiers. O problema é nunca ter percebido a importância que a vida dessa obscura e desconhecida caverna com argolas tem para a vida arejada e festiva a que se prefere (e não preferimos todos?) dedicar. Porventura será motivo para um agradecimento eterno o facto de Soares nunca se ter debruçado com atenção sobre os dossiers. Mas de onde veio esta quase unanimidade em torno da bondade intrínseca da ideia das presidências abertas? Um Presidente da República é um político, cuja actividade, como a de todos os políticos (enquanto decisores públicos e não enquanto artistas de variedades), tem pouco de literatura romântica, pouco de multidões apoteóticas, pouco de teatro infantil em digressão pela província. Sim, a culpa também da literatura, que às vezes glorifica a sensaboria. A vida de um político é uma coisa amplamente entediante. Um político que queira fazer bem o seu trabalho, tem que estar preparado para umas longas horas de recolhimento e solidão, mergulhado numa paisagem deprimente e monocolor de dossiers, gráficos, relatórios, diplomas legais, acompanhado a espaços de uma ou outra pessoa com péssimo gosto para gravatas. Cavaco transmite para fora a ideia de que é um chato. Desconheço se a realidade equivale à aparência. Mas é já um sinal de que estará talhado para o cargo.

1 Comments:

  • At 12:19 da tarde, Blogger JPB said…

    O «chato», em todo o caso, surpreendeu-me ontem.
    Vi-o receber de uma apoiante um presente: era uma pirâmide de cristal para, segundo essa apoiante, canalizar boas energias.
    Cavaco, que deve acreditar tanto nisso como no Pai Natal, aceitou a pirâmide, sorriu à senhora, piscou-lhe o olho e perguntou se o cristal lhe garantia a vitória à primeira volta.
    Certo, isso não faz do homem um comediante. Mas o tecnocrata, afinal, tem sentido de humor...

     

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