Pulo do Lobo

quinta-feira, novembro 17, 2005

How many special people change, how many lives are living strange

Vai-me custar, acreditem. Mas devo, hoje e aqui, confessar o seguinte:

Foi num dos primeiros dias de Agosto do ano 2000. Dirigi-me à Zambujeira do Mar, da qual me separavam cerca de quinhentos quilómetros, com o único propósito de assistir, no célebre certame musical que a localidade em questão alberga, ao concerto de um determinado agrupamento composto por uns quantos rufias de Manchester muito dados ao insulto criativo, à ingestão de bebidas alcólicas e à entusiasmante vida selvagem dos pubs de subúrbio industrial e das bancadas dos estádios de futebol.

Tendo em conta a imensa relação de afectividade juvenil que me liga e para sempre ligará ao combo em questão, muito desiludido fiquei quando, num incidente que marcou a história de todas as edições do evento, os músicos se viram obrigados a abandonar o palco passada apenas cerca de meia-hora dos primeiros acordes, em virtude de se encontrarem ameaçados na sua integridade física por uma chuva de pedras e demais objectos sólidos arremessados pelos admiradores do agrupamento que o cartaz do dia anunciava como a atracção seguinte.

Como a frustração era grande e me esperavam ainda outros quinhentos quilómetros de regresso nocturno, comecei a disparatar e a disparar em todas as direcções. Os principais visados foram, obviamente, os admiradores dessa tal banda seguinte, a qual, por ser de origem alemã e ter um nome alusivo a qualquer coisa símia, me fez invocar e verbalizar um certo espírito 1939-1944, para o que muito contribuiu a Union Jack que normalmente transporto para determinados concertos.

Chegado à zona da saída e das bilheteiras, reparei que não estava sozinho nesta angústia. Aí, tinha-se já formado uma considerável turba, em fúria contra o desleixo e irresponsabilidade da organização do tal certame, exigindo o retorno do dinheiro do bilhete. Considerando que a liderar a dita organização se encontrava um famoso gestor que é genro do Senhor Professor Cavaco Silva, admito que me possa ter saído uma ou outra palavra de menor correcção para com a obra do Senhor Professor e a capacidade organizativa do esposo de sua filha.

Pronto, há que ser um homenzinho. Disse sim. Disse coisas do piorio sobre ambos. Por isso, para além do dinheiro do bilhete propriamente dito, recebi ainda um outro bilhete, daqueles de mão bem aberta, desferido por um outro responsável da organização, que alegava ser familiar do genro do Senhor Professor. E foi muito bem feito.

Confesso tudo isto porque me constou que o Super Mário, na sua sanha moralizante, se preparava para revelar os factos acima aduzidos. E a melhor forma de minimizar os estragos à minha reputação, evitando até maldosas deturpações da realidade, seria eu mesmo contar o que se passou.

Espero, contudo, que o Senhor Professor me perdoe e que o tal chequezinho sempre me seja remetido com o valor generosamente acordado.

Como canta a tal banda inglesa, "how many special people change, how many lives are living strange"

8 Comments:

  • At 11:11 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Estou convencido. Vou votar no homem que come o bolo-rei de boca aberta e se ri ao mesmo tempo.
    Gente fina é outra coisa...

     
  • At 11:33 da tarde, Blogger Pedro Picoito said…

    Confesso que não percebi. O Super-Mário preparava-se para contar que insultaste o Cavaco na juventude? Who didn`t? Eu participei em protestos contra o aumento das propinas... (Em contrapartida, nunca cheguei a ir à Zambujeira.)

     
  • At 11:50 da tarde, Blogger Francisco Mendes da Silva said…

    Não, Pedro, não se preparava. Estava a brincar. A brincar e a falar a sério ao mesmo tempo. Porque, a ver pelos últimos dias, só não publicam esta história ridícula (mas verdadeira) porque a desconhecem.

     
  • At 1:37 da manhã, Blogger CGP said…

    Caro Francisco,
    Que bela história me veio recordar. Lembro-me desse concerto como se fosse ontem. Estava eu deitadinho junto à coluna esquerda à espera que o Sr. Gallagher parasse de chiar para entrarem os artistas, quando ouço o senhor a lançar impropérios ao público que respondeu com apupos e agitou-se. Vendo que aquilo iria terminar mal, resolvi tentar convencer o senhor a sair dali, inclusivamente pagando-lhe parte do cachet da restante parte do concerto em moedas de 5 escudos.
    Conclusão bloquista:
    Ao contrário de si, estive sempre do lado de Cavaco. :)

    P.S.:já agora, quando é que confessa a autoria da ameaça de bomba que obrigou ao cancelamento do concerto da tal banda germânica, meses depois em Lisboa?

     
  • At 12:42 da tarde, Blogger Francisco Mendes da Silva said…

    Caro Karloos,

    Não fui eu mas sei quem foi.

    E, já agora, julgava-o com melhor gosto.

     
  • At 2:54 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Melhor noite na Zambujeira: PJ Harvey e Portishead (em 1998 ?). Ainda melhor som: Maurizio Pollini (Diabelli Variationen) a tocar nas Audio Physic/Naim aqui em casa.

     
  • At 2:54 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Melhor noite na Zambujeira: PJ Harvey e Portishead (em 1998 ?). Ainda melhor som: Maurizio Pollini (Diabelli Variationen) a tocar nas Audio Physic/Naim aqui em casa.

     
  • At 3:05 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Melhor noite na Zambujeira: PJ Harvey e Portishead (1998 ?). Melhor so o Maurizio Pollini (Diabelli Variationen) a tocar nas Audio Physic/Naim, que estou agora a ouvir aqui em casa.

     

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