Pulo do Lobo

terça-feira, novembro 29, 2005

A força tranquila

A candidatura de Cavaco Silva à Presidência foi recebida com acusações de falta de entusiasmo demonstrada por grande parte dos seus apoiantes. Em particular, os apoiantes que escrevem aqui no PdL são frequentemente avisados por determinadas almas atentas e amigas de que o Professor não pensa exactamente como nós. Que ele foi contra a intervenção "unilateral" dos EUA no Iraque, que nós não somos social-democratas, entre outra factualidade dispersa e escandalosa que só um empenhado vasculhador de hemerotecas consegue descobrir.

Passemos por cima da convicção alheia de que os dezanove colaboradores deste blog (e os restantes apoiantes de Cavaco Silva) constituem um bloco de pensamento uno e perfeitamente identificável. Passemos por cima da necessidade que eu sinto de ter amigos a abanarem-me pelos ombros e a berrar: "Ouve bem, ó Chico, tu não és social-democrata, pá! Tu-não-és-so-ci-al-de-mo-cra-ta!". Concentremo-nos na "falta de entusiasmo".

De facto, não há da nossa parte uma ligação idólatra a Cavaco Silva. E nada até ao momento nos impeliu em direcção à vertigem iconográfica de outros apoiantes de outros candidatos. Ainda não enfiámos a cara do nosso candidato no corpo do Professor Pardal ou do Tio Patinhas. Ainda não inventámos slogans de campanha entre o juvenil, o inconsequente e o deprimente. Não passamos a vida a adorar a figura do Professor, com publicação de fotografias vintage do seu passado glorioso. Está ali aquela do Citroën e chega. Ninguém aqui apoia Cavaco Silva (pelo menos, principalmente) pelo seu passado. O PdL não é um produto do actual e bastante rentável revivalismo eighties.

E, aliás, o nosso candidato não ajuda. Fala pouco, fala em tom comedido, fala serenamente, não esbraceja, não aponta o dedo, não andou a distribuir carolo pelos fascistas, não privou com a Sophia, não manda a bófia ir dar uma volta e é professor universitário. Uma real seca. Se o entusiasmo de que por aí se fala é o entusiasmo da bandeira e do bombo, esqueçam: a nossa campanha vai ser uma sensaboria.

Reparem: não tenho nada contra aquele tipo de entusiasmo na política. Toda a minha vida de empenho político activo tem sido feita com esse preciso entusiasmo, por uma certa e determinada pessoa que agora não vem ao caso. E continuará, em grande parte, a ser assim. Por isso esta campanha me é tão agradavelmente nova (e eu até nem sou de juntar os adjectivos "nova" e "agradável" ou respectivos advérbios). Vou para esta eleição como nunca fui para nenhuma outra: sereno e vestido à civil.

Para já, tenho gostado. E até começo a nutrir um sentimento estranho por esta tranquilidade de espírito. Acho que é entusiasmo.

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