Pulo do Lobo

quarta-feira, novembro 16, 2005

A entrevista

Cavaco Silva disse o que tinha que dizer na entrevista à TVI. Insistiu e voltou a insistir no que era, do ponto de vista dele, importante. E fez bem em insistir, porque era a maneira de acentuar o essencial e de o distinguir do acessório. Saltou por cima de algumas questões para o conseguir? Saltou. Note-se, no entanto, que eram questões menores, que um qualquer vivaço versado em casuística não teria a mínima dificuldade em responder, como por exemplo a putativa contradição entre duas posições suas sobre a relação entre as eleições autárquicas e as legislativas. Somando tudo, o que é surpreendente é que uma óptima entrevistadora como Constança Cunha e Sá não tenha arranjado nada de mais problemático para explorar. Porque aqueles detalhes podem interessar apenas a meia dúzia de aficionados. Muito legitimamente, não interessam aos eleitores em geral. Nada têm de substantivo.

Cavaco recusou igualmente pronunciar-se sobre questões como a dissolução da A.R. por Jorge Sampaio ou a sua posição face ao actual governo. Mais uma vez fez bem, e os argumentos que invocou eram de peso. A diferença é que aqui as questões eram substantivas. E, por impecáveis que tenham sido as razões apontadas para a omissão, por mais peregrina que fosse a ideia de o pôr a criticar ou a apoiar Sócrates e Sampaio, há a curiosidade que fica insatisfeita. E a curiosidade, danada, arranha, sobretudo quando se esperam milagres da sua satisfação. Mas é nos debates que Cavaco terá de lidar com a curiosidade. E nos debates ele pode ganhar muito mais do que se pretende fazer crer. Porque as suas ideias são muito mais consistentes do que as dos seus adversários, que, oscilando jovialmente entre o vago e o impreciso, ultrapassam o limite aceitável nestas coisas. Porque não precisa de estar constantemente a chamar para si a atenção, já que dela dispõe naturalmente - um trunfo imenso, que faz perder a cabeça a Mário Soares, que o toma como uma ofensa pessoal. Porque não vai ter de arranjar explicações dificilmente aceitáveis para quezílias intestinas pouco lindas de ver E porque, desculpe-se, inspira mesmo mais confiança do que os outros.

Dito isto, convém acrescentar uma coisa. Cavaco goza da inestimável vantagem de acordo que suscita não ser feito de um compromisso com o hábito de perdoar. Vem-lhe daí um problema que é só dele, um problema que nenhum dos outros candidatos tem: é que, sendo eleito, se arrisca mais do que eles. Em tese geral, podemos perdoar àqueles em quem não confiamos. Mais dificilmente o fazemos àqueles em quem confiamos. Soares e Alegre (não vale a pena falar dos outros) contam antecipadamente com o nosso perdão. De uma forma ou de outra, pedem-no. O problema de Cavaco é que, ele, não: não o pede nem o deseja. Por outro lado, é esse risco – que faz as pessoas levarem-no, como a nenhum outro, a sério – que mais o recomenda. E, nestes tempos, recomenda-o excepcionalmente. As pessoas sabem. Toda a gente. Cada frase de Mário Soares, que o percebe perfeitamente, o prova.

4 Comments:

  • At 5:47 da tarde, Anonymous the observer said…

    Cavaco Silva terá de ser mais explícito em futuras intervenções sobre como a sua actuação irá trazer mais confiança ao país e como poderá ser um agente de desenvolvimento. Embora tal não seja fácil, porque fatalmente envolverá conflitualidade com o actual governo, se este continuar a (des)governar avulsamente como até aqui.

    Cavaco Silva até já mandou uma indirecta com destino certeiro na entrevista à TVI, quando disse que quem mente ao eleitorado em campanha não pode depois falar em confiança, porque a perdeu de todo... Desengane-se quem pense que Cavaco será bom para Sócrates, nem este o merece. Um governo que tem como bandeira a OTA e o TGV, que não passam de dois erros estratégicos para o país, tem de ser bem vigiado e controlado pelo Chefe de Estado, até que passe o seu prazo de validade.

    E não tenho dúvida que um Cavaco Silva Presidente da República terá muito mais peso político do que o actual PR. Não basta ganhar uma eleição presidencial, é necessário ter prestígio. Cavaco tem, Sampaio não. Por isso Sampaio nunca foi respeitado pela classe política e a figura de PR sai muito debilitada após 10 anos de Sampaísmo.

     
  • At 11:23 da tarde, Blogger ALC said…

    Tanto a opinião de fundo, como o comentário sãos duas peças muito bem "montadas": o primeiro porque soube manter a sua calma e dizer o que pensa e o que quer perante uma boa jornalista que sabia (os jornalistas não são independentes...antes pelo contrário)que o Professor é o alvo a abater. O segundo, como um verdadeiro médico legista, fez a melhor e possível autópsia do consulado do Presidente Sampaio.
    Um dia tive o prazer de cumpromentar o Dr. Sampaio. Um verdadeiro Senhor de bom trato, mas ele sabe que eu sei que isso não chega...Nunca mais chegamos a Março para empossarmos a diferênça ou, como quem diz,o rigor e o sentido de Estado.
    Parabéns a ambos.

     
  • At 6:12 da tarde, Blogger randomblog said…

    Paulo Tunha fala naquela curiosidade que o Professor não quis satisfazer. "É a curiosidade, danada, arranha, sobretudo quando se esperam milagres da sua satisfação" - diz Paulo Tunha. Cavaco, segundo o seu apoiante, preocupou-se em distinguir o essencial do acessório, em não satizfazer a curiosidade alheia, insistiu naquilo que do seu ponto de vista era o importante, isto digo eu, a economia. Mas o que disse Cavaco sobre economia? Não lhes bastará a declaração da insuspeita (neste caso) Constança Cunha e Sá sobre a entrevista ao professor" Por mais finca pé que fizesse» não deu para «obter respostas para algumas das perguntas" - 24Horas.

     
  • At 7:51 da manhã, Anonymous Anónimo said…

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