Pulo do Lobo

quinta-feira, novembro 17, 2005

Declaração de interesses

É muito provável – inteiramente provável, aliás – que tenhamos ideias diferentes sobre muitas opções da nossa vida. Da minha e da dele, Cavaco Silva, que são muito diferentes. São diferentes em muitas coisas: no sentido que eu acho que a vida tem, na minha desorganização geral, nos gostos literários, no meu quase desinteresse por questões de economia e até no seu desinteresse por futebol, por exemplo.
Provavelmente, eu gostaria de ir pescar com Manuel Alegre, de ir com ele às touradas (de que não percebo nada) ou de discutir com ele o mistério da poesia (o que já fizemos, aliás). Mas um presidente da República não se elege (ou se vota nele) porque é igual a nós, semelhante a mim, com os meus gostos, as minhas obsessões literárias. Escolhe-se um presidente para que ele garanta a liberdade das nossas opções, a estabilidade que permita que eu não tenha de pensar como ele para ser considerado cidadão de pleno direito. Acredito, além do mais, nos valores republicanos de seriedade, responsabilidade individual, estudo, lealdade às leis e à vontade dos eleitores, respeito pelas contas do Estado.
Eu não sou cavaquista. Limito-me a achar que Cavaco Silva será melhor presidente do que qualquer um dos seus opositores. Que o seu tipo de presidência permitirá que os governos governem e que os cidadãos sejam cidadãos de pleno direito – e que actuará com tranquilidade. E que Portugal precisa dessa margem de tranquilidade para se repensar e reorganizar sem lugares-comuns nem apêndices burlescos, pequenas lutas protocolares pelos holofotes da glória. E que, portanto, precisa de alguém compreensivo na presidência – não de quem tenha todas as respostas. De alguém que esteja atento aos outros e que pergunte e saiba fazer as perguntas; e mais: que permita que as perguntas se façam. Esse é o principal currículo que eu exijo a um presidente. Mas há mais.
O combate nestas eleições presidenciais é, por isso, entre diferentes modos de entender a vida de um país. Não entre modos de entender a minha vida ou a vida de cada um. O objectivo da política não é o de garantir a felicidade – mas o de possibilitar que cada um possa procurá-la como entender. Não acho, por isso, que tudo pertença à esfera da política ou, sequer, que um político profissional esteja em melhores condições para compreender a sociedade e o mundo actual. A pequena polémica criada em redor da designação de “político profissional” revela até que ponto essa perspectiva pode empobrecer a própria vida civil, limitando o “espaço político” a um exercício de linguagem (e de vigilância sobre ela), e ao inventário de propósitos sobre o que deve ser a vida dos outros – por mais largo e vasto que se imagine esse “arco de interesses” da própria política, construído à maneira de um catálogo de saberes ou de referências. Cada um de nós tem uma dignidade e uma vida que não se dissolvem na intervenção permanente na comunidade política. Para que isso seja possível, julgo que é necessário pensar na governabilidade do país e na sua estabilidade. Só isso pode garantir a nossa liberdade, que é um valor precioso e que deve estar a salvo de todos os ressentimentos e de todos os ressentidos. E de todos os malabarismos. [Crónica na edição de hoje do JN.]

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