Pulo do Lobo

quinta-feira, novembro 24, 2005

Bouvard, Pécuchet et Soares

Podia ser uma entrada de Bouvard et Pécuchet: “Sondagens: valem o que valem. Dizer que não nos entusiasmamos quando nos são favoráveis, nem nos abatemos quando não são.” A verdade é que as últimas são mesmo interessantes. Pelas percentagens de Cavaco Silva, é claro. Mas também por Alegre – com o seu lado Capitão Haddock, irremediavelmente sincero e de verbo generoso, a simpatia fazendo a vez do resto - se encontrar à frente de Soares. É verdade que, pelo menos neste último caso, a coisa se pode inverter. A estratégia conflitual de Soares – um work in progress que só Deus sabe onde vai parar – pode ainda dar os seus frutos. E a confiança sanguínea que ele deposita nos debates pode ter alguma razão de ser (sobretudo contra Alegre), embora seja lícito duvidar. Contra Cavaco não vai resultar. Do que não se pode duvidar, no entanto, é da crescente irritação de Soares. E isso é que vale a pena notar, porque provavelmente se vai acentuar. Anteontem, na Escola José Afonso (não foi por acaso que a escolheu, sem dúvida), em Loures, uma pacata pergunta de um aluno sobre o que falhara no 25 de Abril para que a crise presente se instalasse, levou-o, de acordo com o Público, quase “ao rubro”. O 25 de Abril “foi um sucesso mundial” (sic), respondeu - segundo Fernanda Ribeiro, a jornalista do Público - “quase exaltado” (Público, 23.11.05, p. 10). É óptimo que ele, e qualquer político, diga bem do 25 de Abril (os matizes competem aos analistas), mas a tal campanha da “afectividade” não devia passar por estados de alma assim. “Sucesso mundial” também é esquisito, mesmo um bocadito maníaco. Mas enfim: o 25 de Abril foi bom para nós, e é tudo menos censurável insistir nisso. A coisa, no entanto, continuou. Ontem, em Beja, depois de afirmar que, como Jerónimo de Sousa, “não dormiria com Cavaco em Belém” (vindo de quem vem, certamente um exagero), e de dizer que há “malandros” em todo o lado – “nos juristas, economistas e empresários”; e porquê omitir electricistas, garagistas e canalizadores? -, atirou-se à comunicação social e às sondagens “por dizerem coisas que não correspondem à realidade” (Público, 24.11.05, p. 10). A irritação é palpável. Convém lembrar que Soares – por exclusivo mérito próprio, de resto - tem gozado de mais espaço na televisão e nos jornais do que qualquer outro candidato, e que, apesar de uma excelente e perigosamente extravagante falta de complexos, continua em terceiro. Nova entrada de Bouvard et Pécuchet: “Malandros: estão em todo o lado. Votam nos outros e, pouco afectivos, dormem. Complexados. Porque dormem, não ligam à realidade. Dizer que nós não.”
"Est-ce que cela t'amuse?
- Oui! sans doute! va toujours!"

PS. Ler a óptima entrevista de Cavaco Silva a Helena Matos, Luciano Amaral, Maria de Fátima Bonifácio e Rui Ramos na última Atlântico. Boas perguntas, boas respostas.

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